Pentágono atualiza estratégia de defesa e diz que “Doutrina Monroe” deve ser mantida “em nosso tempo”
A estratégia afirma que os Estados Unidos “não cederão mais acesso ou influência sobre terreno-chave” na região
247 – O Pentágono divulgou neste sábado uma versão atualizada da Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos, com novas diretrizes para o Hemisfério Ocidental, a Europa e a região Indo-Pacífico.
As principais passagens do documento foram reunidas pela agência russa TASS, que destacou as prioridades e as formulações mais relevantes sobre Rússia, China, aliados, modernização militar e ameaças nucleares.
Rússia, Ucrânia e Europa: foco americano muda para China e “proteção do território”
A estratégia classifica a Rússia como uma ameaça “persistente” para o flanco leste da OTAN, reforçando o enquadramento de Moscou como risco contínuo para países aliados na Europa.
Ao mesmo tempo, o texto atribui à Europa o peso maior pela condução e pela solução do conflito na Ucrânia, sinalizando que a responsabilidade “recai em grande medida sobre os ombros europeus”.
O documento explicita uma mudança de ênfase: as Forças Armadas dos EUA apontam como prioridade a dissuasão da China e a proteção do próprio território americano, e não a defesa do continente europeu.
A leitura proposta é de que Washington espera que os governos europeus concentrem “esforços e recursos” em sua própria defesa, diminuindo a dependência em relação ao poder militar dos EUA.
Aliados sob pressão: “responsabilidade primária” por segurança própria
A estratégia também registra que a postura de tolerar gastos menores em defesa por parte de aliados ficou no passado.
O texto diz que aliados dos EUA na Europa, no Oriente Médio e na Península Coreana devem assumir a “responsabilidade primária” por sua própria segurança, indicando uma exigência mais dura por investimento militar local e por maior capacidade autônoma.
A mensagem se insere num padrão mais amplo de reordenamento de prioridades, em que Washington busca redistribuir custos e compromissos, enquanto preserva capacidade de projeção para os temas considerados centrais no longo prazo.
Hemisfério Ocidental: do Ártico à América do Sul, a “Doutrina Monroe” volta ao centro
Um dos trechos mais sensíveis do texto aparece na seção sobre o Hemisfério Ocidental e relações com aliados.
A estratégia afirma que os Estados Unidos “não cederão mais acesso ou influência sobre terreno-chave” na região, “do Ártico à América do Sul”, com o objetivo declarado de “garantir que a Doutrina Monroe seja mantida em nosso tempo”.
A formulação recoloca a Doutrina Monroe como referência explícita, sugerindo uma orientação de disputa por influência geopolítica no espaço que Washington historicamente trata como sua área de primazia estratégica.
Na prática, o trecho indica que o documento busca justificar uma postura de maior assertividade dos EUA para limitar a presença e a influência de atores externos no continente americano, em especial em áreas consideradas sensíveis.
Modernização da defesa e arsenal nuclear: “nunca” ficar vulnerável a “chantagem nuclear”
A estratégia prevê uma ampla modernização do complexo industrial de defesa dos EUA, descrita como um esforço que exigirá “mobilização do esforço de toda a nação americana”.
O texto também anuncia um programa extenso de modernização das forças nucleares, com uma justificativa expressa e categórica: “Os Estados Unidos nunca — jamais — ficarão vulneráveis à chantagem nuclear”.
A frase sintetiza o tom de reforço da dissuasão e de escalada tecnológica no campo estratégico, ao tratar a modernização do arsenal como resposta necessária a um ambiente internacional descrito como mais instável e competitivo.
Além disso, o documento afirma que o Departamento de Guerra — denominação usada no material sintetizado pela TASS — priorizará a criação e a implantação de sistemas para conter veículos aéreos não tripulados e outras ameaças aéreas contemporâneas, indicando o peso crescente de drones e de tecnologias de ataque de baixo custo nos cenários de conflito.
Indo-Pacífico no topo: dissuasão da China como prioridade
A região Indo-Pacífica é citada entre as prioridades centrais da defesa nacional dos EUA, reforçando o deslocamento estratégico para o eixo asiático.
O documento afirma que a dissuasão da China é vista como prioridade principal, refletindo a avaliação de que a competição com Pequim define o horizonte militar de longo prazo de Washington.
Ao mesmo tempo, a estratégia declara que a política americana de longo prazo em relação à China “não inclui tentativas de mudar o governo” chinês, nem “outras formas de conflito” com o país, buscando sinalizar limites formais para o tipo de confronto pretendido.
A combinação dessas duas mensagens — prioridade de dissuasão e negação de intenção de mudança de regime — sugere um esforço de calibragem: endurecimento estratégico no plano militar, com tentativa de reduzir percepções de escalada aberta no plano político.
Irã e Coreia do Norte: armas nucleares e “perigo claro e presente”
O texto afirma que os EUA “não permitirão” que o Irã obtenha armas nucleares, mantendo uma linha dura sobre a questão.
Sobre a Coreia do Norte, o Pentágono avalia que Pyongyang está ampliando seu potencial nuclear e identifica no país “um perigo claro e presente de ataque nuclear ao território americano”.
A formulação destaca a dimensão de ameaça direta ao “Homeland”, termo usado para se referir ao território dos Estados Unidos, e reforça o caráter prioritário dado a cenários de dissuasão nuclear, tanto no eixo asiático quanto no Oriente Médio.
Combate ao terrorismo: foco “sustentável” e seletivo
Na parte sobre terrorismo, a estratégia diz que o Departamento de Guerra manterá uma abordagem “sustentável em recursos” para enfrentar grupos terroristas islâmicos.
O documento afirma que essa postura será “focada em organizações que possuam capacidade e intenção de atacar o território dos EUA”, indicando um recorte mais seletivo, centrado em ameaças consideradas diretamente operacionais contra o país.
A diretriz sugere uma lógica de priorização: reduzir esforços extensivos e operações prolongadas, concentrando recursos em alvos classificados como capazes de realizar ataques no interior do território americano.
O que a estratégia sinaliza: reordenamento de custos, prioridades e influência
Ao reunir as mensagens centrais, o texto destaca três eixos.
O primeiro é a redefinição do foco estratégico: China como principal prioridade de dissuasão, com a defesa do território dos EUA acima dos compromissos europeus.
O segundo é a pressão sobre aliados para assumir mais custos e responsabilidades, sobretudo na Europa, no Oriente Médio e na Península Coreana.
O terceiro é a reafirmação explícita do Hemisfério Ocidental como espaço em que Washington não pretende “ceder influência”, usando como justificativa a ideia de manter a “Doutrina Monroe” “em nosso tempo”, do Ártico à América do Sul.
A publicação da estratégia, nos termos destacados pela TASS, deixa claro que os EUA buscam reorganizar seu planejamento militar para uma competição de longo prazo, com modernização industrial e nuclear, adaptação a ameaças tecnológicas como drones e reconfiguração de suas relações com aliados e regiões consideradas estratégicas.


