Trump e a diplomacia do porrete: o custo interno da intimidação externa
Para enfrentar o desgaste interno, o presidente dos EUA aposta na intimidação externa, aprofunda a instabilidade internacional e amplia sua rejeição doméstica
As recentes pesquisas de opinião nos Estados Unidos têm apontado dissabores para Donald Trump e seus falcões. Cresce a rejeição ao presidente, alimentando, entre os adversários do Partido Democrata, a expectativa de vitória nas eleições de meio de mandato.
Hoje, os democratas levam vantagem na disputa pela Câmara dos Deputados, enquanto o Senado caminha para uma corrida acirradíssima. Recentemente, Trump asseverou a seus correligionários republicanos que uma eventual derrota no Parlamento poderia levá-lo ao impeachment, uma possibilidade que se torna cada vez mais presente no horizonte político norte-americano.
É nos Estados Unidos que ocorrem, atualmente, algumas das maiores manifestações populares do mundo. O cenário revela a crescente insatisfação da população com os desvarios do ocupante da Casa Branca. A invasão da Venezuela, com o sequestro de Nicolás Maduro e Cília Flores; a truculência da agência anti-imigração, o famigerado ICE; e a ameaça tresloucada de ocupação da Groenlândia são episódios que desagradam à ampla maioria dos norte-americanos.
Avesso ao diálogo, Trump recorre sistematicamente ao expediente tarifário para constranger as correntes do comércio internacional e, não raro, quando pressionado pelo mercado interno, recua de forma constrangedora.
Ao reativar a Doutrina Monroe, sinaliza pretensões de controle sobre o continente americano, o que tem levado países como Brasil, Colômbia e México a reafirmarem o caráter soberano de suas nações e a recusa em se submeter aos ditames de Washington. Já a Europa, historicamente subordinada à lógica da OTAN, demonstra desconforto com o episódio da Groenlândia, ainda que evite assumir uma posição mais contundente diante do presidente dos Estados Unidos.
Do ponto de vista econômico, as tarifas impostas por Donald Trump encareceram produtos básicos nas gôndolas dos supermercados, consolidando um foco de insatisfação sobretudo entre os setores de menor renda.
O vai e vem das relações com a China tem levado o país asiático a se desfazer de títulos do Tesouro norte-americano, ampliando a dependência dos Estados Unidos em relação a outros credores — entre eles, inclusive, o Brasil, hoje detentor do quarto maior volume desses créditos.
As posições erráticas e a estranha forma de “governar o mundo” pelas redes sociais, como observou recentemente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fazem de Donald Trump mais do que um personagem enigmático: fazem dele um dirigente perigoso.
O desapreço demonstrado pelos fóruns multilaterais, inclusive a Organização das Nações Unidas, representa um claro retrocesso nas relações internacionais. Os reflexos eleitorais dos descalabros trumpistas já se manifestaram nas eleições estaduais e municipais de 2025, com derrotas republicanas significativas na Virgínia — tradicional termômetro político nacional —, além de reveses em disputas locais estratégicas em cidades como Miami e Nova York. Sinais que indicam uma tendência de desgaste com potencial de se espraiar pelo território.
Em uma sociedade marcada historicamente pela conflagração e pela polarização, é flagrante o crescimento da rejeição ao atual presidente.
A ver os resultados.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



