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Recuo se torna a marca da diplomacia de Trump

Presidente dos Estados Unidos abandona ameaça de força contra a Groenlândia, recua em tarifas e recebe negativa categórica da Dinamarca

Vista aérea mostra área do leste da Groenlândia 18/09/2025 REUTERS/Guglielmo Mangiapane (Foto: Guglielmo Mangiapane)

247 – Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, recuou da retórica de anexar ou invadir a Groenlândia depois de semanas de ameaças que elevaram a tensão com governos europeus e intensificaram a percepção de instabilidade na política externa de Washington. As informações foram publicadas pela Bloomberg em uma newsletter na quarta-feira.

De acordo com a Bloomberg, o recuo incluiu a desistência de falar em uso da força e também uma retirada das tarifas prometidas contra países europeus que se opunham às ambições territoriais do presidente. Mesmo assim, Trump insistiu que ainda deseja a Groenlândia e mencionou a existência de uma “estrutura de um futuro acordo”, sem apresentar detalhes.

A diplomacia do recuo e o cálculo dos mercados

A Bloomberg descreveu que, ao longo do ano passado, ganhou notoriedade em Wall Street uma aposta conhecida por um acrônimo popularizado no mercado, baseada na ideia de que ameaças comerciais e pressões públicas do presidente acabariam, com frequência, em recuos acompanhados de declarações de vitória. Segundo o boletim, embora tenham crescido dúvidas recentes sobre essa dinâmica, o movimento da quarta-feira reacendeu a leitura de que Trump pode voltar a optar por desescalar quando enfrenta resistência coordenada.

O episódio da Groenlândia, porém, vai além da reação imediata dos mercados. Ao lançar mão de ameaças e, em seguida, recuar, a Casa Branca produz um ciclo de tensão que desgasta alianças e normaliza a política do ultimato. Mesmo quando a escalada é interrompida, fica a mensagem de que princípios de soberania podem ser tratados como moeda de troca, com impactos sobre confiança diplomática, previsibilidade econômica e estabilidade regional.

Dinamarca fecha a porta e rejeita qualquer base para negociação

Se Trump tentou reposicionar sua ofensiva como uma transição para uma saída “negociada”, a resposta de Copenhague foi direta. A Bloomberg informou que o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, rejeitou qualquer conversa sobre uma tomada do território e disse que seu governo não aceita negociações que violem princípios fundamentais.

Rasmussen afirmou, em Copenhague: “Não entraremos em nenhuma negociação com base na renúncia de princípios fundamentais”. Em seguida, reforçou: “Isso é algo que nunca faremos”. A posição dinamarquesa evidencia que a tentativa de Trump de transformar pressão em resultado encontra limites quando envolve soberania e quando há reação política clara no bloco europeu.

Davos, dívida e o alerta sobre o custo da instabilidade

A newsletter da Bloomberg também conectou o clima geopolítico a preocupações econômicas expressas no Fórum Econômico Mundial, em Davos. O fundador da gestora Citadel, Ken Griffin, comentou que a venda intensa de títulos do governo japonês na semana deveria servir como um alerta a políticos dos Estados Unidos para a situação fiscal do país.

Segundo a Bloomberg, Griffin declarou: “Os vigilantes dos títulos podem aparecer e cobrar seu preço”. Ele acrescentou: “O que aconteceu no Japão é uma mensagem muito importante para a Câmara e para o Senado: vocês precisam colocar as contas públicas em ordem”. O boletim lembrou ainda que o Congresso, controlado por republicanos, aprovou no último verão uma ampla lei tributária e de gastos buscada por Trump, que, em grande medida por cortes de impostos para empresas e ricos, colocou os Estados Unidos em rota de endividamento elevado.

No pano de fundo, a diplomacia do recuo também vira variável econômica. Quando ameaças comerciais e disputas internacionais se somam a fragilidades fiscais, cresce a volatilidade, sobem prêmios de risco e a política externa passa a ser precificada como fator de instabilidade estrutural.

Imigração, disputas judiciais e o limite das instituições

A Bloomberg relatou ainda que a agência federal de imigração dos Estados Unidos intensificou ações em um estado governado por democratas, desta vez com foco em imigrantes somalis no Maine. Autoridades locais em cidades como Portland e Lewiston disseram ter recebido relatos de maior presença de agentes nas ruas. O prefeito de Portland, Mark Dion, afirmou que, até o momento, as ações parecem direcionadas a pessoas previamente identificadas, e não a patrulhamento em massa de bairros.

O boletim informou também que o governo Trump obteve uma trégua temporária em uma disputa judicial sobre táticas dessa agência em Minnesota, enquanto uma corte de apelação suspendeu uma decisão que restringia interferências de agentes em protestos, apontadas como violações de direitos constitucionais.

No campo institucional, a Bloomberg destacou sinais de contenção quando o assunto envolve o banco central dos Estados Unidos. Os ministros da Suprema Corte sugeriram preocupação com a tentativa de Trump de demitir a diretora Lisa Cook, em meio a acusações de fraude hipotecária descritas como não comprovadas. Segundo a Bloomberg, o ministro Brett Kavanaugh avaliou que a posição defendida pelo presidente “enfraqueceria, se não destruísse, a independência do banco central”. Já a ministra Amy Coney Barrett questionou se o risco para os mercados financeiros seria motivo para “cautela da nossa parte”.

Confronto interno e a política do bloqueio

A Bloomberg também registrou um episódio envolvendo o governador da Califórnia, Gavin Newsom, frequentemente apontado como possível nome forte do Partido Democrata para a eleição presidencial de 2028. Newsom afirmou que foi impedido de entrar em um evento paralelo do Fórum Econômico Mundial após pressão do governo federal.

De acordo com o boletim, o gabinete do governador alegou que os organizadores, sob pressão de autoridades de Washington, restringiram sua entrada na área do evento. Em resposta, uma porta-voz do governo Trump atacou Newsom com linguagem ofensiva, segundo a Bloomberg, num episódio que reforça a prática de confronto permanente contra adversários internos.

Crise como método e recuo como assinatura

Ao recuar do uso da força contra a Groenlândia e desistir de tarifas prometidas contra europeus, Trump reduziu, por ora, o risco de uma escalada diplomática imediata. Mas, ao manter a ambição territorial e apresentar apenas uma vaga “estrutura” de acordo, sem qualquer base aceita pela Dinamarca, o presidente prolonga a incerteza e deixa aberta a possibilidade de novas rodadas de pressão.

O padrão descrito pela Bloomberg indica que o recuo não encerra a crise: ele apenas desloca o conflito para o próximo capítulo. E, a cada ciclo de ameaça e retirada, a política externa dos Estados Unidos paga um preço acumulado em credibilidade, confiança e previsibilidade, enquanto aliados e mercados tentam se ajustar a uma diplomacia em que o recuo se tornou marca registrada.

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