Nova Doutrina Monroe volta a ameaçar a América Latina, diz editorial do Global Times
Jornal chinês critica o intervencionismo do governo Donald Trump após ação contra a Venezuela e cita reportagens sobre Cuba
247 – A retomada de uma lógica de tutela sobre a América Latina, associada à Doutrina Monroe, voltou ao centro do debate internacional após a publicação de um editorial do Global Times que descreve a região como alvo de uma ofensiva “multifacetada” dos Estados Unidos, combinando pressão militar, asfixia financeira e estratégias de desestabilização interna.
No texto, o Global Times sustenta que, mesmo com a atenção da imprensa internacional migrando para outros assuntos, permanece uma realidade “assustadora”: a soberania e a segurança regional latino-americanas estariam sendo tratadas como reféns de uma lâmina vinda do Norte. O jornal associa essa leitura ao governo Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e ao que chama de “nova Doutrina Monroe”.
Venezuela como “teste” e recado para toda a região
Segundo o editorial, a operação contra Caracas teria funcionado como um “ensaio explícito” dessa nova etapa. A interpretação apresentada é que a ação serviria como demonstração de força e como mecanismo de intimidação para os demais países: para setores mais belicistas em Washington, a Venezuela seria apenas “o primeiro dominó”, e o objetivo seria criar um “efeito congelante” no continente, impondo a lógica do “submeta-se ou seja o próximo”.
O Global Times afirma que esse tipo de política de poder representaria uma violação direta dos princípios de igualdade soberana e não intervenção, citando a Carta das Nações Unidas como referência para condenar a prática.
Cuba, Wall Street Journal e o retorno do “fantasma” da Doutrina Monroe
O editorial menciona uma reportagem do The Wall Street Journal que, segundo o texto, teria citado pessoas familiarizadas com o assunto para afirmar que a administração Trump buscaria interlocutores dentro do Estado cubano com o objetivo de facilitar uma mudança de regime até o fim do ano. O Global Times ressalta que, ainda de acordo com o próprio veículo norte-americano, autoridades dos EUA afirmariam não haver um “plano concreto” para encerrar o atual governo na ilha.
Para o jornal chinês, discussões desse tipo funcionariam como “sal” em feridas históricas latino-americanas, reativando o fantasma da Doutrina Monroe — agora, em uma forma mais agressiva, em que a retórica de “segurança nacional” encobriria projetos de expansão e coerção.
Uma doutrina “atualizada” com novas ferramentas de intervenção
No argumento do Global Times, a “nova Doutrina Monroe” não se limitaria às formas tradicionais de pressão, como manipulação política, isolamento diplomático ou embargos comerciais. O editorial afirma que ela teria evoluído para um sistema de “manipulação estrutural”, reunindo ataques militares, estrangulamento financeiro, bloqueios energéticos e “subversão interna”.
O texto compara intervenções militares diretas do passado com métodos contemporâneos como “revoluções coloridas”, guerra econômica e operações psicológicas. Para o jornal, o resultado é a criação de um ambiente permanente de ameaça: uma espada suspensa por um fio sobre a região.
O risco central, segundo o editorial: a mentalidade intervencionista
O Global Times afirma que o ponto decisivo não é verificar se vazamentos e especulações se confirmarão em um cronograma específico. Para o jornal, o perigo maior é a mentalidade de tratar intervenção como um direito e hegemonia como “ordem”. Enquanto essa engrenagem estiver em movimento, diz o editorial, a paz regional permanecerá frágil.
O texto também argumenta que o mundo vive uma ampliação do desgaste contra atitudes hegemônicas, e sugere que impulsos unilateralistas dos EUA não ficariam restritos à América Latina. Nessa linha, o editorial cita tensões recentes envolvendo a Groenlândia como sinal de que aliados europeus também reagiriam à ideia de que “a força faz o direito”.
A resposta proposta: multilateralismo, integração e autonomia estratégica
Ao final, o editorial defende que a reação não deve ser uma escalada de conflito, mas a construção de capacidades que imponham custos elevados a aventuras intervencionistas. O Global Times propõe três caminhos principais:
- Defesa firme do multilateralismo e do direito internacional, como contrapeso às intervenções
- Aprofundamento da cooperação Sul-Sul e fortalecimento da integração regional, com redes econômicas e financeiras mais resilientes a sanções unilaterais
- Ampliação da autonomia estratégica em setores críticos, para reduzir vulnerabilidades a bloqueios e chantagens
O objetivo, segundo o texto, seria empurrar o sistema internacional para uma ordem mais democrática e multipolar, reduzindo o espaço em que a política de poder e a interferência hegemônica possam operar. Para o Global Times, apenas quando o hegemon perceber que suas ambições predatórias implicam custos “insuportáveis” é que a espada deixará de ameaçar o continente.



