Elisabeth Lopes avatar

Elisabeth Lopes

Advogada, especializada em Direito do Trabalho, pedagoga e Doutora em Educação

93 artigos

HOME > blog

O imperialismo em declínio e a tirania de um autocrata violador de soberanias

Como líder de estatura global, presidente Lula se posiciona fimemente ao lado da ordem internacional e da soberania

O presidente dos EUA, Donald Trump, em Washington, D.C., EUA - 06/01/2026 (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

A ofensiva recente dos Estados Unidos contra a Venezuela expõe, sem disfarces, a permanência de uma lógica imperial que insiste em se impor sobre a soberania dos povos latino-americanos. Sob o comando de Donald Trump e amparada por velhas doutrinas recicladas à moda trumpista, essa política externa volta a tratar a América Latina como zona de tutela, onde a força, a ameaça e a exploração de recursos se apresentam como instrumentos legítimos de poder.

O episódio venezuelano, longe de ser um fato isolado, sinaliza um precedente grave e perigoso para toda a região. Essa mesma mentalidade expansionista e autoritária, contudo, não se restringe ao Sul Global. A ameaça de anexação da Groenlândia “por bem ou por mal”, anunciada por Trump, provoca alarme na Europa e coloca em risco a aliança que garante a proteção do continente desde a Segunda Guerra Mundial, revelando que o unilateralismo norte-americano está disposto a tensionar até mesmo parceiros históricos.

Nesse sentido, Trump estende suas garras imperialistas de forma ilícita, recorrendo à repetição contumaz de argumentos ilegítimos que jamais justificaram as investidas do poderio bélico norte-americano contra países que pretende submeter a seus interesses geopolíticos estratégicos.

Desta vez a investida foi concretizada num país da América do Sul. A Venezuela teve sua soberania violada pelo governo Trump com o sequestro de seu presidente e da primeira dama do país. É necessário assinalar que não se trata de questionar ou não a legitimidade da eleição de Maduro em 2024, o ataque à Venezuela é inadmissível, grave e sumariamente temerário para os demais países da América Latina.

Segundo Marco Rubio, secretário de estado dos Estados Unidos, a lógica que orienta a política externa dos Estados Unidos no século XXI especialmente sob a gestão Trump parte de uma premissa abertamente imperial: a de que Washington não aceitará a existência de um país como a Venezuela fora de sua tutela direta. Em entrevistas às redes de televisão americanas CBS e NBC, o secretário deixou explícito que os EUA se arrogam o direito de definir quem pode ou não existir politicamente no chamado “Hemisfério Ocidental”, tratado como quintal estratégico de sua influência.

Ao associar a Venezuela a ameaças externas como Hezbollah e Irã, Rubio recorre ao velho expediente do inimigo fabricado para justificar ingerências, sanções e intervenções, reafirmando a noção de que qualquer autonomia regional é vista como intolerável. Trata-se, portanto, não de defesa da segurança, mas da reafirmação de uma doutrina de dominação que se recusa a aceitar a pluralidade política e a soberania dos países latino-americanos.

Trump em sua prepotência impulsionada por um imperialismo decadente ameaça os países, que sem o poderio bélico americano correm risco de serem vilipendiados em suas soberanias. Qualquer país “do hemisfério de Trump” que ousar não estar alinhado aos interesses de domínio estratégico dos EUA poderá sentir suas garras afiadas.

Na entrevista pós o ataque brutal à Venezuela, o governo trumpista revelou também sufocar o governo Cubano até sua extinção, propósito obstinado por Marco Rubio. Filho de cubanos, Rubio encarna uma contradição profunda e reveladora da psique política latino-americana capturada pelo poder imperial.

Antes de se alinhar integralmente ao trumpismo, Rubio foi alvo do desdém público de Donald Trump, que o apelidou de forma depreciativa de “Little Marco” e ironizava reiteradamente sua aparência, um escárnio carregado de racismo e hierarquização étnica. Ainda assim, Rubio optou não por confrontar essa violência simbólica, mas por assimilá-la, transformando-a em zelo ideológico contra os próprios povos dos quais descende. Sua hostilidade obsessiva contra países latino-americanos revela menos convicção política e mais um mecanismo de negação identitária. Ao atacar a América Latina, Rubio busca se dissociar daquilo que o poder branco estadunidense despreza.

Vale ressaltar que o racismo de Trump é tão pernicioso que ele se sente à vontade para afirmar que os venezuelanos são “o povo mais feio do mundo” e, mesmo assim, Rubio serve a esse projeto sem constrangimento, como se a submissão fosse o preço a pagar por um lugar provisório na elite imperial. Trata-se de um caso clássico de colonização subjetiva em que a vítima adere ao discurso do algoz para não ser lembrada de sua própria origem.

Nessa perspectiva, a trajetória política de Marco Rúbio é marcada por um discurso moralizante e por uma agenda de punição a governos classificados como “hostis”, sobretudo na América Latina. Movido por um ressentimento profundo em relação a Cuba, Rubio foi responsável por reverter a decisão do governo Joe Biden que havia retirado Cuba de uma lista elaborada pelos Estados Unidos de países que, segundo Washington, não contribuem no combate ao terrorismo. A inclusão nessa lista funciona, na prática, como um álibi político para a imposição e manutenção de sanções contra o país caribenho.

Por outro lado, a posição da União Europeia ainda que tenha condenado a violação da soberania venezuelana soou protocolar e pouco enfática. Numa nota subscrita por 26 Estados-membros todos, exceto a Hungria, a alta representante para a política externa do bloco, Kaja Kallas, limitou-se a conclamar “calma e moderação de todas as partes”, com o argumento de evitar uma escalada e preservar uma saída pacífica para a crise. O documento reiterou de forma genérica a necessidade de observância dos princípios do direito internacional e da Carta das Nações Unidas que para Trump não valem mais nada. Já o governo francês reverenciou o ataque à Venezuela, destoando dos demais.

Em sentido contrário, China, Rússia, Colômbia, México, Cuba e Irã posicionaram-se com veemência sobre a ilicitude da investida americana sobre a Venezuela.

O governo brasileiro em nota emitida pelo presidente Luís Inacio da Silva condenou de modo categórico o ataque militar à Venezuela e a captura de seu chefe de Estado. Afirmou, entre outros argumentos que: “Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”.

Em uma nota conjunta, Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, México e Uruguai condenaram a ação militar dos EUA contra a Venezuela: “Expressamos nossa profunda preocupação e repúdio às ações militares realizadas unilateralmente em território venezuelano, que contrariam princípios fundamentais do direito internacional, em particular a proibição do uso e da ameaça de força, e o respeito à soberania e à integridade territorial dos Estados, consagrados na Carta das Nações Unidas.”

Trump, ao mesmo tempo em que reaviva a Doutrina Monroe (reconfigurada por Trump como doutrina Donroe (Donald + Monroe) originalmente proclamada em 1823 pelo presidente James Monroe e baseada no princípio de que as Américas deveriam permanecer livres de novas investidas coloniais europeias, em troca do compromisso dos EUA de não intervir nos assuntos do continente europeu, o lema “a América para os americanos”, também resgata práticas típicas de submissão colonial. Isso fica evidente ao impor suas ordens à Venezuela, como fez ao declarar, na quarta-feira desta semana, em sua rede social, que o país caribenho “passará a comprar apenas produtos fabricados nos Estados Unidos, com o dinheiro que receberá do nosso novo acordo de petróleo”.

Mediante um acordo leonino com o máximo de vantagens para os EUA em detrimento da Venezuela, o governo Trump saqueia o petróleo e os demais recursos naturais do país caribenho, com a desculpa de melhorar as condições de vida do povo venezuelano. A intervenção estadunidense em Caracas nunca foi para mudar o regime de governo Chavista, mas sim subjugar em máxima potência o país em crise.

Na sequência de seus atos atentatórios à soberania da República Bolivariana, Trump coloca em polvorosa o continente europeu, ao reafirmar que quer comprar a Groelândia independente da vontade ou não da Dinamarca. Além dos recursos minerais, a posição estratégica deste território torna-o imprescindível para os EUA, uma vez que a região constitui um posto avançado estratégico no espaço ártico, especialmente diante das atividades crescentes da Rússia e da China na região. Alternativa que envolve limitar o acesso dessas potências e de países europeus aos recursos do Ártico, além de estabelecer o controle sobre novas rotas marítimas.

Enquanto a prepotência brutal do governo estadunidense irrompeu no terceiro dia do novo ano, subjugando um país vulnerável à sua tutela e a seu projeto escancarado de futura pilhagem de suas riquezas num gesto que afronta e desorganiza a já frágil configuração da ordem mundial, assistimos, no maior e mais importante país da América do Sul, a um espetáculo igualmente degradante.

No Brasil, consolida-se a vassalagem de políticos da direita fisiológica e da extrema direita que, bestializados e sem pudor, recorrem às redes sociais para exibir seus instintos bajuladores e rasteiros em torno das últimas investidas ilegais de Trump na América do Sul.

Não se trata de mero alinhamento ideológico, tampouco das infames armações que buscam associar Lula à figura de Maduro, repetidas por governadores de oposição como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ratinho Júnior (PSD-PR), Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (União Brasil-GO). O que está em jogo é a subserviência explícita às ilegalidades cometidas pelo governo Trump. A essa vergonha bajuladora aderem também parlamentares politicamente desqualificados, como Nikolas Ferreira (PL-MG), Sóstenes Cavalcanti (PL-RJ) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Trata-se de uma submissão voluntária à soberba dominadora e errática de uma potência em declínio que, em meio à crise e ao desespero, esperneia para restaurar sua ingerência imperial sobre aquilo que insiste em chamar de “seu” hemisfério.

Em desespero conjunto, os políticos do Centrão e da extrema direita atacam seu adversário comum, Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera as pesquisas de intenção de voto em razão do reconhecimento popular à condução de seu governo, às políticas públicas voltadas ao combate da desigualdade social, ao êxito no campo econômico com inflação em 4,26% abaixo do teto da meta e à postura altiva e soberana adotada diante das investidas de Trump. Atitude que impacta a autoestima dos brasileiros de todas as nuances ideológicas e seus sentimentos de defesa do país frente às ameaças do imperialismo norte americano. O desespero dos opositores deve ter crescido mais ainda com a notícia de ontem sobre a assinatura do Acordo entre Mercosul-União Europeia, após 25 anos de tratativas negociais, expressando o esforço do presidente Lula em expandir as relações comerciais, intensificar o diálogo com a comunidade internacional e impulsionar um modelo de desenvolvimento sustenta vel. Como referiu Lula, o dia 9 de janeiro de 2026 marca um momento histórico para o multilateralismo, mesmo em um cenário global cada vez mais marcado pelo avanço do protecionismo e das posturas unilaterais.

Assim, vale questionar até que ponto são merecedores de confiança, os candidatos à presidência da República que comemoram o ataque ilegal dos EUA à soberania de um país que faz fronteira com o Brasil, na perspectiva de angariar votos dos eleitores ainda devotos ao falso patriotismo bolsonarista, ou os que continuam vítimas vulneráveis à desinformação, às mentiras postadas nas redes sociais por políticos, como Nikolas Ferreira e aos discursos enganadores baseados nos velhos argumentos do antissistema e da anticorrupção do governo bolsonarista que acabou se convertendo em práticas permanentes de ataque às instituições democráticas, produzindo sucessivas crises e lançando dúvidas sobre seu compromisso com a democracia e com a Constituição.

O que será do Brasil e de seu povo, se um desses candidatos, oriundos de uma direita reacionária, hipócrita e oportunista ou de uma extrema direita irracional que vocifera ódio, ambos submissos à lógica colonizadora estadunidense, assumir o governo federal em 2027. O que esperar dessa turba insana que não valoriza a soberania de seu próprio país, que aplaudiram o tarifaço imposto por Trump ao Brasil, e agora elogiam o mesmo presidente autocrata sem limites, que pela superioridade tecnológica bélica de seu país toma de assalto as riquezas naturais de países que não podem lhe fazer frente até sufocar sua soberania e autodeterminação.

Diante desse cenário, torna-se evidente que o maior risco não reside apenas na agressividade de uma potência em declínio, mas também na disposição servil de elites políticas locais que naturalizam a violação da soberania alheia e da própria. Aplaudir ataques ilegais, justificar sequestros de chefes de Estado e aceitar acordos leoninos em nome de alinhamentos eleitorais ou ideológicos é abdicar da autodeterminação nacional.

Perante essa materialidade, o futuro do Brasil nas próximas eleições dependerá da consciência do povo, de sua capacidade de resistir a essa lógica de dominação e de reafirmar, com firmeza nas urnas, que soberania não é moeda de troca nem instrumento de conveniência política, ao contrário do que demonstram os discursos e as práticas de candidatos como Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior, Romeu Zema e Ronaldo Caiado, que naturalizam a submissão externa como estratégia política.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados