O Caminho do Eldorado
Mesmo após o massacre, o Movimento dos Sem Terra continua existindo
Eu tinha 11 anos quando vi aquilo na televisão. Não sei exatamente o que eu entendia naquele momento, tenho certeza de que não entendia tudo, porque quando a gente é criança o telejornal é uma coisa que fica ligada ao fundo, uma voz de adulto que descreve um mundo que ainda não é o seu. Mas aquelas imagens entraram na minha mente. Eram corpos enfileirados em um caminhão no Pará, aquele lugar tão longe do meu Ceará. Mulheres, homens e crianças chorando na estrada. Muito sangue, tristeza e um nome que ficou na minha cabeça para sempre: Eldorado dos Carajás.
Eu não sabia ainda, mas aprenderia mais tarde, na escola, que aquele nome vinha de longe. Lá conheci o outro El Dorado, o mito que os conquistadores espanhóis carregavam pela América do Sul como uma promessa: uma cidade inteira feita de ouro, escondida em algum lugar na floresta à espera de ser encontrada e saqueada. Muitos povos indígenas foram exterminados nesse caminho. Aldeias inteiras. Toda uma arquitetura de violência erguida sobre a crença de que havia algo de imenso valor ali na frente, e quem estivesse no meio do caminho era apenas um obstáculo a ser destruído. Esse El Dorado nunca foi encontrado, mas o caminho continuou.
Séculos depois, esse caminho voltaria a se abrir na região amazônica. A busca não era mais por ouro e sim por terras. No dia 17 de abril de 1996, trabalhadores rurais sem-terra bloqueavam a PA-150 no sul do Pará. Eram mais de mil e quinhentas pessoas que queriam acesso à terra, algo que no Brasil é a coisa mais básica e mais impossível ao mesmo tempo, uma promessa que o país faz e desfaz há séculos. A Polícia Militar paraense chegou em meio a uma manifestação pacífica, e o que aconteceu depois ficou registrado em imagens que rodaram o mundo e que eu, criança, vi sem entender completamente por que mataram aquelas pessoas. Foram 21 mortos, dezenas de feridos e ali havia muitas crianças iguais a mim.
Já se passaram trinta anos e eu ainda fico pensando no quanto aquilo moldou alguma coisa em mim sem que eu soubesse na época. Fui uma criança que sobreviveu aos anos 90, já tinha visto tantas chacinas e massacres noticiados e explorados à exaustão na programação da televisão. No entanto, o impacto era sempre o mesmo, imagens assim não se esquecem. E eu era uma criança com acesso a um aparelho de televisão na sala, o que já me colocava num lugar de privilégio em relação à maioria daquelas pessoas que morreram na beira da estrada. Havia um abismo entre a sala onde eu estava e o asfalto daquela rodovia, e a televisão o tornava visível sem realmente diminuí-la.
O Brasil é um país construído sobre essa distância. Entre quem tem terra e quem não tem. Entre quem manda e quem obedece. Entre o nome de um lugar, Eldorado, que prometia ouro, que prometia abundância e o que de fato aconteceu ali dentro. Essa distância não foi nada acidental. Era um projeto muito bem desenhado ainda no período colonial e foi sendo mantida, ajustada, justificada de geração em geração com linguagens diferentes, mas com a mesma lógica: alguns corpos valem mais do que outros.
Os conquistadores chamavam de civilização. A ditadura chamava de segurança nacional. Em 1996, a ordem judicial que autorizou a operação chamava de garantia do direito de ir e vir na rodovia. A burocracia pode até mudar o nome, mas a função é a mesma.
O que me impressiona, trinta anos depois, não é só o massacre em si. O que veio depois também fez parte do massacre: dos 155 policiais levados a julgamento, apenas os dois comandantes foram condenados, num desfecho tardio e insuficiente para desfazer o sentido de impunidade. É como se a impunidade também fosse um projeto, não de uma pessoa só, mas de um sistema que aprendeu a se proteger ao longo de séculos de prática.
Mesmo após o massacre, o Movimento dos Sem Terra continua existindo. Continua sendo necessário. Isso, por si só, já diz tudo sobre o que mudou nesses trinta anos. O mito do El Dorado sempre me pareceu uma metáfora honesta sobre o Brasil, não porque o país seja uma ilusão, mas porque há aqui uma riqueza real, vasta, documentada, e há uma pergunta que nunca foi respondida de forma justa: para quem? A terra existe. A floresta existe. O minério existe. E existe uma disputa antiga e violenta sobre quem fica com o quê.
Os trabalhadores sem-terra de Eldorado dos Carajás não estavam pedindo o El Dorado mítico. Estavam pedindo um pedaço de chão para plantar. Estavam numa estrada com lonas, foices e suas famílias porque não tinham mais nada a perder. E foram mortos, como se fossem pedras a serem retiradas do caminho.
No caminho de quê, exatamente, é a pergunta que o Brasil precisa responder. E não responde. Há trinta anos não responde. Eu era criança quando vi aquilo na televisão. Hoje escrevo sobre isso como adulta, num país que ainda não sabe o que fazer com essa herança, com esses nomes, com esses corpos, com esse caminho que leva sempre ao mesmo lugar. O Eldorado, afinal, não é dourado. É encarnado como o sangue que corre nas veias de quem sempre está no caminho.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



