O caso Master recontado pelo PowerPoint global
O uso político do escândalo Master e a manipulação midiática para associar Lula e a esquerda ao caso
O PowerPoint da GloboNews foi o arremate de uma sequência de ações destinadas a converter o escândalo financeiro do Banco Master em um furacão político capaz de produzir, pela desinformação e manipulação, os resultados eleitorais desejados pela plutocracia que reúne a casta financeira e empresarial, os grandes grupos de mídia e os partidos de direita e extrema-direita. Tal como no tempo da Lava Jato, eles querem apear o PT do governo e evitar a reeleição do presidente Lula.
A peça gráfica que subverte as conexões de Daniel Vorcaro, trocando seus verdadeiros comparsas por Lula e outras figuras do campo progressista, é obra da casa e, por isso, deve ser chamada de PowerPoint do sistema Globo. Ela não foi criada pela apresentadora Andrea Sadi e pelos comentaristas Valdo Cruz, Arthur Dapieve e Thomas Traumann, embora eles tenham cumprido o papel deplorável de comentá-la, como se estivessem diante de um fato real, demonstrado por alguma prova ou evidência. Eu já estive lá, como colunista do jornal e comentarista do mesmo canal. Sei como as coisas funcionam e como deixam de funcionar.
Paternidade à parte, antes do PowerPoint global, o escândalo já vinha sofrendo alterações semióticas, digamos assim, ajustes narrativos destinados a alterar seu significado, sua localização temporal e institucional e sua própria percepção pela população. E, com isso, o que era um escândalo financeiro, de fato importante e grande, foi se transfigurando em escândalo político. O PowerPoint foi um esforço para “fechar a história”, colocando Lula como peça importante na teia de conexões de Daniel Vorcaro, ao lado de outras figuras da esquerda: o PT da Bahia, os ex-ministros Lewandowski e Guido Mantega, e o próprio Gabriel Galípolo, o presidente do BC que fechou o Master. Já Campos Neto, que autorizou seu funcionamento em 2019, não aparece.
Todos nos lembramos de que, na Lava Jato, o vergonhoso PowerPoint de Deltan Dallagnol, que tinha Lula no centro de uma teia de relações com supostos operadores da corrupção na Petrobras, abriu caminho para sua condenação e prisão por Sergio Moro. Daí para a eleição de Bolsonaro, em 2018, foi um passo.
Não houvesse eleição este ano, o caso Master seria um megaescândalo financeiro, permeado por crimes como gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, extorsão e formação de organização criminosa, entre outras. Teria ficado na primeira instância, pelo menos até agora, pois não surgiram ainda envolvidos que tenham, de fato, foro especial no STF. Vorcaro poderá trazê-los em sua delação.
A partir da descoberta da utilidade político-eleitoral do caso, ele foi sendo retocado, ganhando cores, formas e narrativas adequadas à nova finalidade, com o uso de algumas técnicas de transfiguração. Até aqui já tivemos, entre elas:
- Troca de personagens na trama – Bem antes do PowerPoint global, a mídia já havia praticamente suprimido da crônica do escândalo figuras como o governador Cláudio Castro (que aplicou no Master fundos bilionários de aposentadorias complementares dos servidores), prefeitos que fizeram a mesma coisa, o governador do DF, Ibaneis Rocha (o maior responsável pelas operações que arrombaram e ameaçam a sobrevivência do BRB), o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, chamado de “amigo de vida” por Vorcaro, o deputado Nikolas Ferreira, passageiro do avião do ex-banqueiro, entre outros tantos.
- Alteração dos marcos temporais – A gestação do Banco Master e as estripulias de Vorcaro começaram no governo Bolsonaro, mas, na crônica que vem sendo divulgada, o caso todo parece ter começado no governo Lula 3, em que o BC desautorizou a venda da instituição ao BRB e terminou por liquidar e fechar o Master. Mas foi em agosto de 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, que o BC, presidido por Roberto Campos Neto, autorizou o funcionamento do Master. Em 2022, Bolsonaro recebeu do cunhado de Vorcaro uma doação eleitoral de R$ 5 milhões; A estripulia financeira começou em 2019, com o banco de Vorcaro captando CDBs com taxas bem superiores às praticadas no mercado, que chegavam a 140% do CDI. O investidor ouvia que não havia perigo, seu dinheiro estava protegido pelo FGC — o Fundo Garantidor de Créditos, que cobre perdas eventuais de até R$ 250 mil por pessoa física. Mais tarde, o senador Ciro Nogueira tentaria aprovar uma PEC elevando esse limite para R$ 1 milhão. Na crônica da mídia, entretanto, tudo parece ter começado no atual governo.
- A pimenta sexual para capturar a atenção do público – Um escândalo que se preze não pode falar apenas de CDBs, taxa de juros, FGC, compra de títulos podres e outras expressões enfadonhas. Um bom escândalo precisa de condimentos que mexam com a imaginação popular: sexo, traições, luxúria, brigas que vão às vias de fato, falsificações de documentos e até assassinatos. Uma vez fisgado pelas baixarias mundanas da história, o ouvido do público está aberto também para ouvir a narrativa política associada.
No caso presente, o molho de pimenta vem nas informações sobre as festas e orgias promovidas por Vorcaro, com a participação de gente do poder político e econômico. Por ora, vazaram as conversas íntimas entre Vorcaro e sua ex-namorada Marta Graeff, mas as imaginações estão incendiadas à espera de vídeos e áudios escandalosos.
Todas essas transmutações ocorreram nos últimos dias, e sobre elas foi elaborado o PowerPoint global, baseado unicamente na “voz narrativa” da emissora, com dispensa de provas e evidências.
Por que Lula está lá como sendo comparsa de Vorcaro? Porque o recebeu uma vez, com testemunhas, tendo lhe dito que não seria perseguido, mas também não seria poupado?
Por que Galípolo, que fechou o Master, e não Campos Neto, que autorizou seu funcionamento?
Por que o ex-ministro Lewandowski, que prestou uma consultoria ao Master após deixar o STF e antes de assumir a Justiça, e não o ministro Nunes Marques, cujo filho recebeu R$ 18 milhões do Master e da JBS?
Muitas perguntas permite o power point, mas a que importa é: por que Lula está lá, no alto e com destaque?
Eles sabem e nós sabemos a razão do power point.
Lula e o PT sabem que o próximo passo será a repetição da mentira até que pareça verdade.
A disputa de versões com os meios eletrônicos e com a internet não é fácil, mas Lula e o PT sabem que precisam enfrentá-la. Que precisam partir para a guerra argumentativa, antes que seja tarde.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



