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Breno Altman

Breno Altman é diretor do site Opera Mundi e da revista Samuel

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O chavismo em sua hora mais dramática

'O ataque militar dos EUA à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro impõem o mais duro desafio ao processo iniciado em 1999'

Nicolás Maduro, rosto de Hugo Chávez e um ato contra a interferência dos EUA na Venezuela (Foto: Leonardo Fernandez Viloria/Reuters I Carlos Garcia Rawlins/Reuters)

O assalto ao Forte Tiuna, em 3 de janeiro, em meio a uma operação massiva determinada por Donald Trump, estabelece nova e perigosa correlação de forças para a revolução bolivariana. Mais que novo degrau na escalada iniciada em setembro do ano passado, representa um golpe direto contra o comando do Estado, ao fazer do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cília Flores, prisioneiros de guerra.

Mais de cem homens e mulheres foram mortos durante a agressão, a maioria resistindo heroicamente à incursão norte-americana. A ineficácia do dispositivo de defesa do líder chavista, contudo, acirrou o cenário. Nas primeiras horas, dentro e fora da Venezuela, ao lado da repulsa contra o crime imperialista, semeou-se um clima de dúvida e apreensão.

O cenário foi ficando menos nebuloso nos dias seguintes. A Casa Branca tinha sido capaz de arremeter ferozmente contra o centro nevrálgico do chavismo, mas sem condições de estabelecer uma alternativa de poder, um novo governo liderado por grupos leais a Washington. O próprio Trump descartou Maria Corina Machado, personalidade mais destacada da extrema direita.

De um lado, a Venezuela chavista, agora sem seu máximo condutor, ficou emparedada pelas tropas norte-americanas, com sua imensa superioridade aérea e naval, capazes de bloquear o país e feri-lo gravemente. De outro, os Estados Unidos demonstram enorme potencial de pressão exterior, mas sem as cartas para derrotar estrategicamente o inimigo, que continua governando.

Equilíbrio precário

Trata-se de uma situação em equilíbrio precário, como é evidente. Até onde é possível entender em seus modos erráticos, o presidente norte-americano, aproveitando-se da vantagem atual, trata de exigir as mais brutais concessões e tentar desmoralizar o governo chavista, agora liderado pela presidente interina Delcy Rodríguez. Apresenta-o como um fantoche em suas mãos e alimenta os mais sórdidos boatos de traição do novo núcleo dirigente a Nicolás Maduro.

Esses rumores, despropositados, são repercutidos pela imprensa ocidental e seus aliados, na tentativa de levar à lona o movimento criado por Hugo Chávez, contra o qual bateram armas por tantos anos – muitas vezes com a simpatia dos círculos de esquerda influenciados por ideias liberais ou simplesmente enganados pela narrativa exalada desde os Estados Unidos e a Europa.

Trump não tem solução a curto prazo para esgrimir contra o governo chavista, mas quer desidratá-lo ao máximo possível, até que desenvolva alguma saída capaz de unificar setores civis e militares dispostos a se submeterem aos interesses norte-americanos, com representatividade suficiente para jogar o chavismo no passado e restaurar o velho Estado oligárquico.

O chavismo, por sua vez, também precisa ganhar tempo e evitar um confronto militar aberto. Sabe-se perfeitamente que China e Rússia não estão disponíveis para erguer um escudo de proteção, além dos danos provocados pelo 3 de janeiro no sistema de defesa e das dificuldades naturais que seria qualquer embate frontal contra a superpotência.

A presidente interina opera para manter coeso o bloco histórico chavista e mobilizada sua base social – denunciando a agressão imperialista, reafirmando a soberania nacional e exigindo a libertação imediata do casal presidencial. Entre suas incontáveis tarefas, Delcy Rodríguez necessita manter o funcionamento do Estado, reativar o ânimo das ruas e cicatrizar as feridas do ataque sofrido.

Também trata de ampliar as alianças internas, apesar da hegemonia do PSUV sobre todas as instituições, buscando um arco mais estendido de apoios para defender a sobrevivência da nação. O desencarceramento de presos, já em curso, faz parte dessa estratégia de distensão interna.

Chavismo

O chavismo atravessa um momento, no entanto, que poderia ser comparado com o da Revolução Russa nas negociações de Brest-Litovski, nos primeiros meses de 1918, ainda durante a Primeira Guerra, quando a Alemanha apresentou reivindicações absurdas para um acordo: o controle sobre territórios que continham um terço da população russa, 50% da indústria e 90% das minas de carvão.

Os bolcheviques tiveram que escolher entre lutar e negociar. Lênin analisava que o principal anseio popular era o de encerrar o conflito armado, ainda mais com o velho exército czarista destroçado e o país militarmente fragilizado. A revolução dependia da paz, mesmo que o custo fosse de concessões vergonhosas, à espera que um levantamento popular na própria Alemanha pudesse retirar o garrote do pescoço russo.

Ainda assim, apenas dois meses depois de assinado o tratado com o império prussiano, as forças contrarrevolucionárias lançariam o primeiro Estado socialista em uma brutal guerra civil, com a invasão de catorze exércitos estrangeiros. Os bolcheviques triunfariam em 1922, como se sabe, mas esta é outra história.

Na Venezuela de hoje, o petróleo é o preço a pagar para comprar alguma trégua, até que a situação dentro e fora dos Estados Unidos possa descortinar um outro caminho. Por ora, as tratativas sobre essa riqueza energética seguem termos comerciais relativamente tradicionais, mas nada é garantido. Se for possível contornar o confronto até as eleições parlamentares norte-americanas de novembro, talvez uma perspectiva menos perigosa se estabeleça, com eventual derrota dos republicanos.

Provavelmente o futuro do chavismo e da república bolivariana dependa de negociações infames, mas inescapáveis, como ocorreu há mais de cem anos com a Rússia soviética. Como em todo processo revolucionário, a questão fundamental é a do poder político. Petróleo perde-se e se recupera, assim como outras riquezas, se for o caso, desde que o Estado não retorne às mãos das antigas classes dominantes ou de uma potência imperialista.

O maior desafio de Delcy Rodríguez, nesta etapa dramática, não está nos movimentos épicos e voluntariosos que sempre foram a face mais sedutora do chavismo, mas na liderança para reagrupar as linhas de defesa, até a emergência de novos tempos, cuja possibilidade não depende apenas da esquerda venezuelana.

Essa orientação já vinha sendo implementada pelo presidente Nicolás Maduro antes de seu sequestro. Nas mãos da sucessora temporária, calejadas por muitos anos de combate ao seu lado, está a missão histórica de levar o barco, em plena tempestade, a um porto seguro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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