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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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O chavismo, pedra no sapato dos Estados Unidos

Mesmo com seu presidente sequestrado e em mãos dos Estados Unidos, o chavismo continua na presidência da Venezuela e segue sua trajetória

Donald Trump e Nicolás Maduro (Foto: Manaure Quintero/Reuters I Piroschka Van De Wouw/Reuters)

A bronca dos Estados Unidos com a Venezuela não vem de agora, nem apenas a partir do governo de Nicolás Maduro. Desde que Hugo Chávez foi eleito, pela primeira vez, presidente da Venezuela, as relações entre os dois países se acirraram.

Hugo Chávez inaugurou a lista de presidentes nacionalistas latino-americanos, que passaram a ser maior no continente na primeira década deste século. Como o país com a maior quantidade de reservas de petróleo no mundo, o governo de Hugo Chávez teve, como sua primeira medida importante, a nacionalização das empresas estrangeiras de petróleo, entre elas as norte-americanas.

A partir daquele momento, todos os governos norte-americanos tiveram relações sumamente conflitivas com o governo chavista da Venezuela, tanto como reação a essas nacionalizações como em relação ao pagamento de indenizações correspondentes.

E como líder fundamental do bloco de governos progressistas latino-americanos, Hugo Chávez protagonizou os enfrentamentos fundamentais contra o imperialismo norte-americano. A Venezuela aparecia, diante dos governos dos Estados Unidos, como vanguarda e o governo mais radicalizado na luta antimperialista.

Hugo Chávez foi o principal líder na resistência contra o projeto da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), uma proposta dos Estados Unidos para a criação de uma zona de livre comércio de toda a América. Chávez definiu o processo venezuelano como de socialismo bolivariano, de revolução bolivariana.

Nicolás Maduro tratou de dar continuidade a esse processo, aparecendo como o herdeiro nomeado por Hugo Chávez. O chavismo sempre teve raízes profundas nas Forças Armadas da Venezuela. Hugo Chávez deu uma institucionalidade a esse aspecto, nomeando comandantes militares para dirigir as empresas estatais, incluindo as vinculadas ao petróleo.

Desde que surgiu, a impressão era que o processo venezuelano vinha para ficar e com raízes muito fortes: tinha o protagonismo das Forças Armadas e dispunha das maiores reservas de petróleo do mundo.

A morte de Hugo Chávez foi um golpe muito duro no processo venezuelano. Pela sua capacidade de comando, pelo seu carisma e pelo apoio profundo que sempre teve no povo venezuelano.

Nicolás Maduro nunca gozou dessas qualidades. Tinha a benção de Hugo Chávez, mas nunca pôde herdar as qualidades de comando e o carisma dele.

Sua última eleição deixou suspeitas fundadas nas dúvidas se Nicolás Maduro realmente tinha triunfado, pela negativa por parte deste de apresentar as atas da contagem eleitoral. A grande maioria dos governos da própria América Latina não reconheceram o seu triunfo, o que já representava um elemento de debilidade do novo presidente da Venezuela.

Sua capacidade de governar o país também revelava debilidades. Oito milhões de venezuelanos deixaram o país, apesar de o país dispor da maior quantidade de reservas de petróleo do mundo.

Os Estados Unidos nunca superaram as expropriações das suas empresas de petróleo no país com a maior quantidade de reservas de petróleo do mundo. O chavismo sempre foi diabolizado pelos governos norte-americanos.

Quando Donald Trump assumiu seu segundo governo, as relações entre os dois países se tornaram ainda mais tensas. As ameaças verbais de Trump se tornaram cada vez mais agudas, com ações de cerco naval da Venezuela que prenunciavam algum tipo de ação militar terrestre em algum momento. O cerco impunha um estrangulamento econômico do país, buscando gerar algum tipo de reação popular interna contra o governo pela deterioração das condições de vida da população.

Até que Donald Trump realizou o sonho dos governos norte-americanos: invadir a Venezuela e sequestrar Nicolás Maduro e sua mulher, para serem levados aos Estados Unidos, onde deverão ser objeto de julgamento conforme as leis dos Estados Unidos, acusados de narcoterrorismo.

Mas, mesmo com seu presidente sequestrado e em mãos dos Estados Unidos, o chavismo continua na presidência da Venezuela e segue sua trajetória, desde que surgiu, sempre como uma pedra no sapato dos Estados Unidos.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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