Após sequestro, EUA recuam de acusação que ligava Maduro a cartel de drogas
Departamento de Justiça altera denúncia e abandona tese de que Cartel de los Soles seria uma organização criminosa estruturada liderada pelo presidente
247 - O governo de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, recuou de uma das principais acusações usadas nos últimos anos contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro. O Departamento de Justiça dos EUA abandonou a tese de que Maduro chefiaria uma organização criminosa formal conhecida como Cartel de los Soles, frequentemente citada como peça central de uma suposta conspiração internacional de tráfico de drogas.
A mudança consta de uma nova versão da acusação divulgada no sábado (3), após o sequestro de Maduro, e foi revelada pelo The New York Times, que teve acesso ao documento revisado. A denúncia original havia sido apresentada em 2020, ainda no primeiro governo Trump, e serviu de base para uma série de medidas adotadas posteriormente por diferentes órgãos do governo norte-americano.
Na acusação inicial, o Cartel de los Soles era descrito como um cartel de drogas estruturado, liderado por Maduro e responsável por operações internacionais, incluindo o envio de cocaína aos Estados Unidos. Essa linguagem foi reproduzida em julho de 2025 pelo Departamento do Tesouro, que classificou o grupo como organização terrorista, e voltou a ser reforçada em novembro, quando o então secretário de Estado e conselheiro de segurança nacional, Marco Rubio, orientou o Departamento de Estado a adotar a mesma classificação.
Especialistas em crime organizado na América Latina, no entanto, sempre contestaram essa caracterização. Segundo eles, o termo Cartel de los Soles surgiu nos anos 1990 como uma expressão informal da imprensa venezuelana para se referir a redes de corrupção envolvendo agentes públicos, sem que exista evidência de uma organização criminosa com estrutura definida.
A nova acusação do Departamento de Justiça parece incorporar essa avaliação. Embora mantenha a acusação de conspiração para o tráfico de drogas, o texto deixa de tratar o Cartel de los Soles como uma entidade real. Em seu lugar, descreve um “sistema de clientelismo” e uma “cultura de corrupção” alimentados por recursos do narcotráfico. Onde o documento de 2020 mencionava o suposto cartel 32 vezes e apontava Maduro como seu líder, a versão revisada faz apenas duas referências e afirma que ele e seu antecessor, Hugo Chávez, supostamente “participaram, perpetuaram e protegeram” esse sistema.
O recuo reacendeu questionamentos sobre a legitimidade da designação do Cartel de los Soles como organização terrorista estrangeira, adotada pelo governo Trump no ano passado. Procurados, porta-vozes da Casa Branca e dos departamentos de Justiça, Estado e Tesouro não responderam aos pedidos de comentário.
Apesar da mudança oficial, o discurso político seguiu outra direção. Um dia após a divulgação da acusação revisada, Marco Rubio voltou a tratar o Cartel de los Soles como um cartel real durante entrevista ao programa Meet the Press, da NBC. “Continuaremos a reservar o direito de fazer ataques contra barcos de drogas que estão trazendo drogas em direção aos EUA, operados por organizações criminosas transnacionais, incluindo o Cartel de los Soles”, disse. Em seguida, acrescentou: “É claro que seu líder, o líder desse cartel, está agora sob custódia dos EUA e enfrentando a Justiça americana no Distrito Sul de Nova York. E ele é Nicolás Maduro".
Relatórios internacionais reforçam as dúvidas sobre a existência do grupo como organização formal. A Avaliação Anual de Ameaça de Drogas da Administração de Combate às Drogas (DEA) nunca mencionou o Cartel de los Soles, assim como o Relatório Mundial sobre Drogas do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime.
A acusação original de 2020 apresentava uma narrativa extensa sobre uma conspiração de longo prazo, atribuindo ao suposto cartel ações como o fornecimento de armas às Farc, grupo guerrilheiro colombiano, e a tentativa de “inundar os EUA” com cocaína “como uma arma”. A redação daquele documento foi supervisionada por Emil Bove, então promotor da unidade de terrorismo e narcóticos internacionais em Nova York. Bove chegou a comandar o Departamento de Justiça nos primeiros meses do segundo governo Trump, período marcado por controvérsias, antes de ser indicado pelo presidente para um cargo vitalício em um tribunal federal.
Embora a correção sobre o Cartel de los Soles tenha sido bem recebida por especialistas, outros pontos da acusação revisada também geraram críticas. O texto inclui como réu e suposto co-conspirador de Maduro o líder da gangue prisional venezuelana Tren de Aragua. A ligação apresentada é limitada a telefonemas feitos em 2019, nos quais o chefe da gangue teria oferecido serviços de escolta para proteger carregamentos de drogas em trânsito pelo país.
No ano passado, Donald Trump afirmou que Maduro coordenaria as atividades do Tren de Aragua, apesar de avaliações contrárias da comunidade de inteligência dos Estados Unidos. Para Jeremy McDermott, cofundador do centro de estudos InSight Crime, a inclusão do líder da gangue na denúncia “reflete a retórica do presidente Trump”, mas transmite uma imagem distorcida da realidade. “Isso é enganoso”, afirmou o especialista.



