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Fernando Lavieri

Jornalista, com passagens pela IstoÉ e revista Caros Amigos

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O crepúsculo da Europa

Culpada, culpada, culpada. O Velho Continente é responsável pelo crime mais hediondo contra a humanidade. A sua conduta agressiva nunca foi segredo

Bandeira da União Europeia (Foto: REUTERS/Stephanie Lecocq)

O racismo, bem como o conhecemos hoje, nasceu na Europa, com as grandes navegações, e a Inglaterra, talvez, como a nação mais proeminente.  Por lá, os seus “concidadãos”, os irlandeses, sempre foram discriminados por sua origem, condição social, religião, ou por seus cabelos ruivos. Mas tão terrível agressão, o racismo, não parou no império em que o Sol nunca se põe, ele  se disseminou pelo continente. A sua versão cruelíssima ocorreu no período escravista e, nesse tempo, dentro dessa vergonha extraordinária para o berço do humanismo e da democracia, os seus vizinhos ao Sul do Mediterrâneo, foram parceiros inequívocos. Eric Williams, um dos maiores pensadores sobre a escravidão e o capitalismo ilustrou o mundo com algo assim: “Não há um tijolo em Manchester sem o suor, lágrimas e sangue africano”.  Em seu crepúsculo ideológico e intervencionista, a Europa, digo, os países que mais se beneficiaram financeiramente do tráfico de pessoas escravizadas do continente africano, simplesmente se abstiveram da votação quando a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou ter sido essa abominação a maior tragédia, o sofrimento mais horrível a que pessoas foram submetidas. Para além das abstenções óbvias, a seção contou com os votos, também óbvios, e contrários ao reconhecimento tardio da ONU, dos Estados Unidos, Israel e a Argentina. 

Em outras palavras, tal definição da ONU significa a desconstrução da chamada superioridade europeia, a decadência de valores morais construídos em teoria  e prática por séculos. Mais: a partir de tamanho reconhecimento se faz necessária a reparação histórica para além do aspecto simbólico, que é sim importante. Ou seja, os estudos universais sobre história tem que desenvolver esse entendimento. É fundamental que os Estados que cometeram a imensa mazela histórica paguem devidamente a quem herdou extremos prejuízos. Assim como a Alemanha restituiu financeiramente judeus por causa do holocausto, é justo, justíssimo,  que pessoas negras recebam reparação financeira pelo mau impressionante que foi feito a seus antepassados. É necessário entender que a definição da ONU deixa patente que as sociedades europeias criaram o racismo e implementaram a escravidão da qual se beneficiaram financeiramente. 

A ONU carimbou, mas sempre foi de conhecimento geral e irrestrito que o Velho Continente manchou para sempre os seus símbolos universais ao criar o racismo: Renascimento ou Iluminismo, democracia ou humanismo. Em caso de dúvidas, pense em acordos mais recentes como o apoio que Tony Blair dedicou aos Estados Unidos durante a carnificina no Iraque, o componente racista estava presente. Ou o “simples” fato de Burkina Faso estar puxando a fila em África para expulsar os resquícios colonialistas da França na região. No Oriente Médio e América Latina, aliás, a Europa perdeu influência há anos, em meio as intervenções e tarifas de Donald Trump, ainda mais. Ele, seja dito, vem fazendo “gato e sapato” da Europa, e com mínimo de esforço. Os países “chiques”, há anos, perderam a capacidade de influenciar o mundo como no passado. O continente vive de um verniz multicolorido, hoje, desbotado. Agora, por meio das redes sociais, não há quem não saiba sobre as manifestações racistas nas  ruas e avenidas de Madrid ou Lisboa, na perseguição e discriminação aos imigrantes, seja em mares da Itália ou nas ruas de Berlim. A ONU definiu que o tráfico de africanos escravizados é o crime mais grave contra a humanidade... perfeito! O tempo das reparações, histórica e financeira, chegou. As duas ações devem ser reivindicadas em mesas da ONU com o protagonismo dos países envolvidos, o Brasil à frente. Isso mudará para sempre a vida de pessoas negras nas Américas e construirá outro significado para o período escravista.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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