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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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O dia depois de Khamenei

Entre celebrações e luto, o país enfrenta uma transição incerta que pode alterar sua política nuclear, sua economia fragilizada e sua relação com o Ocidente

Manifestantes protestam contra assassinato do aiatolá Ali Khamenei em Teerã (Foto: Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS)

A morte de Ali Khamenei não é apenas o fim biológico de um homem que governou o Irã por mais de três décadas. É o desencaixe de uma engrenagem central no mecanismo de poder mais complexo e ideologicamente estruturado do Oriente Médio.

Quando um líder supremo morre sob bombardeio estrangeiro, a história não fecha um ciclo — ela abre um novo abismo.

Teerã amanheceu entre lágrimas e fogos de artifício nas últimas 72 horas. Há quem lamente o guia religioso que consolidou o país como potência regional, expandiu sua influência no Iraque, na Síria e no Líbano e enfrentou sanções devastadoras sem ceder formalmente à pressão ocidental.

Há também quem celebre a queda do rosto mais visível de uma repressão que, segundo organizações internacionais, deixou milhares de presos políticos e centenas de mortos em ondas sucessivas de protestos, especialmente desde 2019 e após a morte de Mahsa Amini, em 2022.

Khamenei presidiu um Estado que combinou eleições controladas com veto clerical, parlamento com tutela teológica, soberania nacional com redes paramilitares transnacionais. Sob sua liderança, o Irã avançou no enriquecimento de urânio a níveis que a Agência Internacional de Energia Atômica classificou como tecnicamente próximos do grau militar. Ao mesmo tempo, consolidou a Guarda Revolucionária como força não apenas militar, mas econômica, empresarial e política.

Sua morte, resultado de ataques israelenses baseados em inteligência americana, altera o tabuleiro regional de maneira imprevisível.

Não se trata apenas de quem ocupará o cargo. Trata-se de como esse ocupante chegará lá — e sob quais pactos invisíveis.

O sistema iraniano não é um improviso. Existe um roteiro institucional. Um conselho de clérigos escolhe o líder supremo. Um comitê interino pode assumir provisoriamente. Há nomes ventilados. Mas nenhum plano de sucessão é testado sob bombardeios externos e com parte da população nas ruas.

Em Washington, a ideia de mudança de regime atravessa décadas. Em 1953, a CIA ajudou a derrubar um governo democraticamente eleito. Em 1979, a revolução islâmica transformou o Irã em teocracia antiamericana. Desde então, o país orbita como problema estratégico permanente. Nenhuma administração ousou ir além do cálculo. Até agora.

O presidente americano convocou publicamente o povo iraniano a “assumir o controle do seu destino”. A frase carrega uma retórica sedutora, mas também uma aposta arriscada: a de que uma sociedade fragmentada, desarmada e vigiada por um aparato de segurança robusto consiga, no vácuo de poder, produzir uma transição organizada.

A experiência histórica recomenda prudência. No Iraque, a derrubada de Saddam Hussein desestruturou o Estado e abriu espaço para insurgências e para o surgimento do Estado Islâmico. Na Líbia, a queda de Muammar Gaddafi fragmentou o país em milícias rivais. Na Venezuela, a tentativa de “decapitação” política resultou numa rearrumação interna do próprio regime.

A hipótese mais realista, segundo analistas de inteligência, não é necessariamente uma primavera democrática imediata, mas um rearranjo interno. A Guarda Revolucionária pode ampliar seu controle, moderando o discurso externo para aliviar sanções e preservar seus interesses econômicos. Nesse cenário, o próximo líder supremo poderia manter retórica dura, porém com menos autonomia real.

Mas há também o risco inverso: que a percepção de humilhação nacional gere coesão defensiva. A história persa é marcada por resistência a interferências externas. Ataques estrangeiros podem fortalecer a narrativa de soberania ameaçada e consolidar facções ainda mais radicais.

A economia iraniana já vinha fragilizada. A inflação acumulada corroeu salários, o rial perdeu valor, e sanções limitaram exportações de petróleo, embora acordos informais tenham mantido algum fluxo para a Ásia.

Um período prolongado de instabilidade política pode agravar a fuga de capitais, acelerar a crise energética regional e pressionar o Estreito de Ormuz — por onde transita cerca de um quinto do petróleo comercializado globalmente.

No plano regional, a ausência de Khamenei altera o equilíbrio entre Israel e seus adversários. O Hezbollah, no Líbano, e outras milícias apoiadas por Teerã observam atentamente.

Uma liderança mais pragmática poderia reduzir tensões. Uma liderança mais ideológica poderia ampliá-las.

O fato incontornável é que o Oriente Médio raramente reage de forma linear. Cada intervenção gera ondas que atravessam fronteiras. Cada morte política produz narrativas concorrentes. Para uns, Khamenei era obstáculo a um acordo nuclear duradouro. Para outros, garantia de continuidade institucional.

Há uma frase recorrente nos corredores da diplomacia: “desencadear forças que não se pode controlar”. É exatamente esse o ponto. A morte do líder supremo remove uma peça central, mas não dissolve as estruturas que o sustentavam. Tampouco elimina ressentimentos acumulados por décadas de sanções, confrontos indiretos e desconfiança mútua.

O Irã está diante de uma encruzilhada histórica. Pode emergir uma liderança disposta a negociar novos termos com o Ocidente, recalibrar ambições nucleares e aliviar tensões regionais. Pode surgir um arranjo interno mais duro, que interprete o ataque como prova de que a concessão é fraqueza. Pode ainda instalar-se um período de disputas internas silenciosas, nas quais o poder real se redistribua longe das câmeras.

Entre esperança e presságio, impõe-se cautela histórica: a repressão a direitos civis e à liberdade religiosa, particularmente contra bahá’ís e outras minorias, foi denunciada dezenas de vezes pela ONU desde o pós-guerra até 2025, sem que o sistema iraniano demonstrasse disposição consistente de reforma interna, responsabilização institucional ou garantias efetivas de proteção às comunidades vulneráveis.

Para o cidadão comum em Teerã, Isfahan ou Mashhad, o que está em jogo não é geopolítica abstrata. É inflação, emprego, liberdade de expressão, segurança. Para Washington e Jerusalém, é dissuasão estratégica. Para os mercados globais, é estabilidade energética.

A morte de um líder não encerra a história de um regime. Ela revela suas rachaduras. O que acontece agora no Irã não será apenas decisão de clérigos ou generais. Será o resultado de pressões cruzadas — internas, regionais e globais.

O mundo observa, mas não controla.

E talvez essa seja a única certeza neste momento: o futuro do Oriente Médio acaba de entrar numa zona onde previsões são frágeis e consequências, potencialmente imensas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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