O dilema dos Estados árabes do Golfo e as perspectivas para as relações com o Irã
Tanto o lado iraniano quanto o lado árabe precisam demonstrar o máximo de sabedoria, autocontrole e capacidade de tolerância
É difícil prever como terminará a atual guerra com o Irã, mas devemos lembrar que essa guerra não eclodiu repentinamente; pelo contrário, trata-se de uma extensão de uma longa série de conflitos contínuos relacionados ao projeto sionista na região. O Dilema dos Estados Árabes do Golfo e as Perspectivas para as Relações com o Irã
Os Estados árabes do Golfo, aliados dos Estados Unidos, enfrentam um sério dilema após a decisão de Trump de envolver Israel em uma guerra contra o Irã. Isso se deve a vários motivos, sendo os mais importantes os seguintes:
Primeiro, a presença de bases militares estadunidenses em seus territórios e a ligação intrínseca entre os interesses do Golfo e os interesses estadunidenses. Como as bases e os interesses dos Estados Unidos na região estão atualmente sob ataque do Irã, em conformidade com o direito inerente à autodefesa, conforme estipulado no Artigo 51 da Carta da ONU, os Estados do Golfo se veem diante de apenas duas escolhas difíceis: responder na mesma moeda, o que significaria tornar-se parte de uma guerra de agressão travada contra um Estado vizinho, ou ignorar a situação e permanecer em silêncio, o que significaria aceitar o status quo e renunciar à sua soberania nacional.
Segundo, a natureza da guerra atual não é uma guerra limitada, como a Guerra dos Doze Dias, na qual os Estados Unidos participaram com o objetivo de destruir o programa nuclear iraniano e, simultaneamente, desempenharam um papel decisivo em seu encerramento. Trata-se, na verdade, de uma guerra abrangente liderada pelos próprios Estados Unidos, com objetivos que vão desde a derrubada do regime iraniano até a alteração de suas políticas, transformando-a, assim, em uma guerra existencial e potencialmente sem fim para o Irã.
Terceiro, o fracasso dos Estados árabes em impedir o início do conflito, apesar de o Sultanato de Omã ter desempenhado um papel fundamental nas negociações que o precederam, indica que os Estados Unidos desconsideraram deliberadamente os interesses árabes e priorizaram os interesses israelenses.
Como o território estadunidense não está ao alcance dos mísseis iranianos, era esperado que o Irã respondesse à agressão conjunta estadunidense-israelense atacando bases e interesses dos Estados Unidos na região, especialmente na Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã. Isso significa claramente que os Estados Unidos são responsáveis pelos ataques iranianos contra esses países, que se encontram em uma posição desfavorável. Eles não podem responder a esses ataques da mesma forma, pois, caso o fizessem, se tornariam parte de uma guerra de agressão lançada contra a sua vontade e contra os seus próprios interesses. Também não podem permanecer em silêncio, uma vez que os ataques iranianos inevitavelmente causarão danos à sua infraestrutura e, possivelmente, também aos seus cidadãos. Isso pode até expô-los à chantagem por parte dos agressores, que os incitarão a participar da guerra contra o Irã, algo que, de fato, já ocorreu.
Não há dúvida de que todos esses fatores, em conjunto, refletem a essência do dilema enfrentado pelos Estados árabes que abrigam bases militares estadunidenses em seus territórios. No contexto da guerra atual contra o Irã, essas bases passaram a representar um peso e um risco, em vez de serem uma fonte de proteção ou apoio.
Nos últimos dias, vozes árabes têm se levantado para condenar aquilo que chamam de “agressão iraniana contra os Estados árabes” e para incitar esses países a responder na mesma medida. No entanto, na realidade, tais vozes não passam de ecos da propaganda israelense e estadunidense, que busca arrastar os países árabes diretamente para uma guerra planejada contra o Irã.
Nesse contexto, chamaram atenção as declarações do senador Lindsey Graham à rede Fox News, feitas há poucos dias. Ele afirmou que “os Estados Unidos não deveriam ir sozinhos ao Oriente Médio para lutar. Os países árabes também estão sendo atacados pelo Irã e, portanto, deveriam responder da mesma forma. Se esses países desejam firmar tratados com os Estados Unidos que garantam sua proteção, devem primeiro participar desta guerra”.
Diante disso, torna-se evidente que as vozes que exigem que os países árabes respondam aos ataques iranianos não estão motivadas pela defesa dos interesses desses países nem pela preocupação com sua independência. Mais provavelmente, atuam como porta-vozes de forças que buscam arrastá-los para uma guerra que serve apenas aos interesses israelenses.
Para sair desse impasse, tanto o lado iraniano quanto o lado árabe precisam demonstrar o máximo de sabedoria, autocontrole e capacidade de tolerância.
O Irã deve procurar evitar, com extremo cuidado, causar danos aos interesses árabes em geral e aos civis em particular ao direcionar seus ataques legítimos contra bases e interesses estadunidenses e israelenses na região. Da mesma forma, os Estados árabes que hospedam bases militares estadunidenses devem agir com máxima cautela para evitar serem arrastados para uma guerra que foi imposta ao Irã, mesmo que sofram perdas colaterais difíceis de evitar.
Esses países também devem compreender que o Irã não tem interesse em realizar ações provocativas que prejudiquem os interesses dos países árabes vizinhos ou ampliem o alcance da guerra que lhe foi imposta.
Além disso, o dano decorrente do envolvimento em uma guerra contra o Irã seria muito maior do que o dano causado por eventuais perdas colaterais. Isso ocorre porque a participação nessa guerra significaria, na prática, alinhar-se ao lado de Israel, o que poderia causar graves prejuízos aos regimes governantes desses países e ampliar ainda mais a distância já existente entre seus governos e suas populações.
Não há dúvida de que a guerra atual contra o Irã acabará mais cedo ou mais tarde, mesmo que se transforme em uma longa guerra de desgaste. Por isso, os regimes governantes dos países árabes que abrigam bases militares estrangeiras em seus territórios, especialmente os países do Golfo, precisam refletir cuidadosamente sobre o cenário que surgirá após o fim da guerra.
Talvez seja necessário que esses regimes se olhem longamente no espelho para compreender as verdadeiras razões que os conduziram ao impasse atual. Tornou-se claro para qualquer observador que os sistemas políticos desses países têm sido marcados por um elevado grau de egoísmo político, o que os tornou incapazes de enfrentar adequadamente os desafios de segurança e defesa que seus países enfrentaram ao longo das últimas quatro décadas. Vale ressaltar que o sucesso da Revolução Iraniana em 1979, por um lado, e o início da Guerra Irã-Iraque em 1980, por outro, contribuíram para a criação desse conselho. Sua formação foi motivada por um temor mútuo em relação ao Irã e ao Iraque, e não por uma visão estratégica abrangente capaz de lidar com riscos e crises. Isso explica o fracasso do conselho em impedir a invasão iraquiana do Kuwait em 1990, a ocupação estadunidense do Iraque em 2003 ou as disputas internas que levaram a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein a retirarem seus embaixadores do Catar em 2014, seguidas pela imposição de um amplo bloqueio econômico e político em 2017.
Embora os Estados do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) tenham conseguido superar essa crise em 2021, a reconciliação alcançada parece superficial, mascarando conflitos e rivalidades políticas e ideológicas subjacentes. Essas divergências se refletem na ampla diferença de posições sobre diversas questões regionais e internacionais, como a normalização das relações com Israel, a crise sudanesa, a crise somali e outras questões relacionadas ao Chifre da África e à segurança do Mar Vermelho.
A primeira faísca da atual rodada de conflitos foi acesa pela operação “Inundação de Al-Aqsa” em 2023. A arena de confronto expandiu-se gradualmente, passando da Faixa de Gaza para a Cisjordânia e, de lá, para o Líbano, a Síria, o Iraque e o Iêmen, chegando finalmente ao Irã, que agora se encontra praticamente sozinho diante desse projeto sionista que busca engolfar toda a região. Quando essa guerra terminar, os países da região não poderão retornar às antigas políticas, ou correrão o risco de se condenar à aniquilação. Será necessário adotar uma visão estratégica completamente diferente, na qual os Estados árabes do Golfo deverão desempenhar um papel fundamental.
Esses países deverão, então, tomar a decisão estratégica de se libertar das bases militares estrangeiras e trabalhar seriamente para formular um novo sistema de segurança coletiva no Golfo, organicamente ligado a um sistema regional árabe mais amplo. Ambos — o sistema do Golfo e o sistema regional árabe — deverão caminhar juntos para construir uma relação institucional de cooperação estreita com o Irã e a Turquia, dentro de uma visão estratégica voltada para a solução da questão palestina, permitindo que o povo palestino determine seu próprio destino e construa seu Estado independente. Ao mesmo tempo, deverá haver um esforço para construir um novo Oriente Médio que não seja dominado pela entidade sionista e que esteja livre de todas as armas de destruição em massa. Esta proposta pode parecer excessivamente romântica, mas é o único caminho, pelo menos em minha opinião, para alcançar a estabilidade e a prosperidade da região.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



