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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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O doutorado qualifica o governante ou apenas o distingue?

O equívoco começa quando vira argumento central, como se título substituísse decisão política, investimento público e compromisso real com inclusão educacional

O doutorado qualifica o governante ou apenas o distingue? (Foto: Reuters)

Um levantamento que reúne chefes de governo com doutorado lista nomes como Xi Jinping (China, doutorado em Direito pela Universidade Tsinghua), Vladimir Putin (Rússia, doutorado em Economia pela Universidade de Mineração de São Petersburgo), Angela Merkel (Alemanha, doutorado em Química Quântica/Físico-Química pela Academia de Ciências da Alemanha Oriental), Manmohan Singh (Índia, doutorado em Economia pela Universidade de Oxford), além de Pedro Sánchez (Espanha, doutorado em Economia/Business Administration pela Universidade Camilo José Cela), Hassan Rouhani (Irã, doutorado em Direito Constitucional pela Glasgow Caledonian University).

Também integram esse conjunto Claudia Sheinbaum (México, doutorado em Engenharia Energética pela UNAM), Goodluck Jonathan (Nigéria, doutorado em Zoologia pela University of Port Harcourt) e Susilo Bambang Yudhoyono (Indonésia, doutorado em Economia Agrícola pela Bogor Agricultural University). O conjunto é informativo, mas carrega um viés recorrente: insinua que possuir doutorado seria um critério confiável de excelência na condução de um país. Não é.

O deslocamento do debate para comparações com Luiz Inácio Lula da Silva, muitas vezes contaminado por preconceito social, revela mais sobre o ambiente político do que sobre a qualidade do argumento. A liderança pública não se mede pela extensão do currículo acadêmico, mas pela capacidade de formular políticas eficazes, sustentáveis e socialmente transformadoras.

No Brasil, os dados oferecem um contraponto robusto. Entre 2003 e 2014, foram criadas 18 novas universidades federais e mais de 170 novos campi. A Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica expandiu-se de cerca de 140 unidades para mais de 560. O ProUni ultrapassou a marca de 2,5 milhões de bolsas concedidas, enquanto o Fies ampliado financiou o acesso de milhões de estudantes ao ensino superior privado.

Os efeitos dessa expansão são mensuráveis. Segundo o IBGE, a taxa de escolarização líquida no ensino superior para jovens de 18 a 24 anos praticamente dobrou no período, e o número total de matrículas superou 8 milhões. A interiorização do ensino rompeu uma lógica histórica de concentração, levando universidades e institutos federais a regiões antes excluídas do mapa educacional. Não se trata de percepção, mas de transformação estatística concreta.

Esses resultados derivam de decisões políticas deliberadas. A ampliação do acesso ao ensino não foi um subproduto, mas um eixo estruturante de governo. E isso evidencia um ponto central: reconhecer o valor estratégico da educação independe de ser uma pessoa com doutorado.

Isso não implica desconsiderar a importância da formação acadêmica. Líderes como Merkel ou Singh demonstraram como base intelectual sólida pode qualificar decisões complexas. Ainda assim, a experiência internacional mostra que títulos elevados não impedem erros graves nem substituem a leitura sensível das demandas sociais. 

A tecnocracia, quando isolada da realidade, pode produzir políticas corretas no papel e ineficazes na vida concreta.

O problema do enquadramento centrado em diplomas é transformar credenciais individuais em parâmetro absoluto de competência, ignorando resultados objetivos. 

Governar é operar sob restrições, negociar interesses conflitantes e produzir efeitos mensuráveis na vida das pessoas.

No caso brasileiro, a pergunta relevante permanece simples e rigorosa: quantas oportunidades foram criadas e quantas permaneceram inacessíveis. Entre 2003 e 2014, milhões ingressaram no ensino superior e técnico pela primeira vez, alterando trajetórias individuais e redesenhando perspectivas coletivas.

No fim, a liderança política não se mede por diplomas pendurados na parede, mas pela capacidade de abrir portas para que milhões possam, esses sim, chegar até eles. E é justamente nesse ponto que a análise precisa se tornar mais incisiva: governos são julgados não pelo brilho de suas credenciais, mas pela escala das oportunidades que criam, pela inclusão que promovem e pelo alcance real de suas políticas. 

É o legado — e não o título — que permanece como critério definitivo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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