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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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As conquistadoras esquecidas da América

Durante séculos, a história da conquista ignorou milhares de mulheres que navegaram, lutaram, governaram e fundaram cidades no Novo Mundo

As conquistadoras esquecidas da América (Foto: Ilustração Prensa Latina)

Nas últimas horas, recebi de minha amiga, a cineasta celebrada Tânia Montoro — uma das inteligências mais lúcidas, refinadas e instigantes de Brasília, com vasta e respeitável trajetória acadêmica na Universidade de Brasília — um texto importante da National Geographic, inteiramente em francês. Confesso: foi um trabalho prazeroso traduzi-lo mentalmente, decantá-lo devagar e, sobretudo, deixar que suas personagens femininas viessem ao meu encontro não como nota de rodapé da história, mas como presença incômoda, forte, contraditória e indispensável. Há reportagens que apenas informam. E há aquelas que nos obrigam a revisar o mapa moral do passado. Esta pertence à segunda espécie.

Durante séculos, a história da conquista das Américas foi narrada como um teatro de homens: navegadores, soldados, governadores, aventureiros, clérigos, cronistas. A reportagem assinada por Eloísa Gómez-Lucena rompe essa moldura estreita ao iluminar as mulheres espanholas que participaram ativamente da colonização do continente. Não como acompanhantes decorativas, não como figuras passivas carregadas pelas marés do império, mas como financiadoras, guerreiras, colonas, organizadoras de expedições, fundadoras de escolas e hospitais, articuladoras de poder e, em alguns casos, administradoras de territórios.

O primeiro dado que salta aos olhos é tão eloquente quanto perturbador: milhares de mulheres espanholas cruzaram o Atlântico rumo ao chamado Novo Mundo, mas seus nomes foram sistematicamente apagados ou minimizados pelos historiadores e pelos funcionários da Coroa. Ao lado dos homens, elas atravessaram selvas, desertos, serras, rios violentos e zonas de guerra. Suportaram fome, doenças, naufrágios, ataques e confinamentos. Ainda assim, permaneceram durante séculos à margem da memória oficial. O silêncio do arquivo também é uma forma de violência.

É impossível não perceber a ambiguidade que atravessa toda essa narrativa. Essas mulheres desafiaram a ordem patriarcal de sua época, conquistando no Novo Mundo espaços de autonomia que dificilmente teriam na Espanha. Mas essa emancipação parcial ocorreu no interior de uma engrenagem brutal: a conquista colonial, marcada por espoliação, imposição religiosa, exploração econômica e massacre de povos originários. Não se trata, portanto, de celebrar ingenuamente essas trajetórias. Trata-se de compreendê-las em sua densidade moral. Algumas foram vítimas de estruturas opressivas. Outras se tornaram agentes da opressão. Muitas foram as duas coisas ao mesmo tempo.

A reportagem recupera personagens extraordinárias. Entre elas, Mencía Calderón de Sanabria, aristocrata que organizou em 1550 uma expedição com dezenas de mulheres rumo a Assunção, no Paraguai. O projeto era também demográfico e político: corrigir o desequilíbrio gerado pela presença maciça de homens espanhóis nas colônias. A viagem, porém, foi um rosário de tormentos. Tempestade, ataque corsário, fome em Santa Catarina, prisão em Santos, confronto com tamoios, doença, desespero. Depois de seis anos de travessia e 16.900 quilômetros percorridos por terra e mar, restaram vivos apenas 22 homens e 21 mulheres. Há uma espécie de grande épico trágico nessa travessia, mas um épico que a história masculina preferiu não canonizar.

Outra figura impressionante é Ana de Ayala, esposa de Francisco de Orellana, que percorreu os labirintos do Amazonas em condições extremas. A expedição se deteriorou sob o peso da fome, das doenças e dos ataques. Orellana morreu atingido por uma flecha no coração. Ana sobreviveu. E, como tantas outras, quase desapareceu da narrativa. Sobreviver, para as mulheres na história, raramente bastou para garantir lembrança.

Talvez um dos trechos mais impactantes seja o que resgata o papel de mulheres na fundação de Assunção. Com os homens feridos, doentes ou exauridos, foram elas que conduziram embarcações, repeliram ataques indígenas, escolheram o local de assentamento e trabalharam a terra com as próprias mãos. Isabel de Guevara, em carta à princesa Joana da Áustria, descreve mulheres capinando, raspando, semeando e colhendo sem qualquer ajuda. Essa imagem desfaz um clichê poderoso: o de que a colonização teria sido obra exclusiva da espada e da ambição masculinas. Houve também mãos femininas erguendo cidades, mesmo quando a posteridade lhes negou reconhecimento e propriedade.

Mas a reportagem não recua diante das figuras mais espinhosas. María de Estrada, Beatriz Hernández, Mencía de los Nidos e sobretudo Catalina de Erauso aparecem armadas, combativas, integradas à violência colonial. Catalina, a célebre “freira-alferes”, fugiu de um convento, viveu sob identidade masculina, lutou contra os Mapuches, matou, perseguiu, feriu e depois narrou a própria vida em termos quase febris. Sua trajetória parece escrita por um romancista barroco, mas está entranhada na realidade feroz do império espanhol. Ela fascina e inquieta. Encanta pela coragem de romper códigos de gênero, mas perturba pela adesão sem pudor à máquina de guerra colonial.

É justamente aí que a reportagem se torna preciosa. Ela não nos entrega heroínas puras, nem mártires edificantes. Entrega mulheres reais, contraditórias, inscritas num século de ferro. E ao fazer isso, desmonta duas simplificações muito confortáveis: a de uma história colonial feita apenas por homens e a de uma história feminina necessariamente associada à inocência. Nem submissas por definição, nem santas por natureza. Mulheres, simplesmente — e por isso mesmo complexas.

Outro ponto relevante é o retrato das possibilidades profissionais abertas no Novo Mundo. Comerciantes, parteiras, professoras, enfermeiras, escritoras, conselheiras, governadoras. Isabel Barreto, por exemplo, financiou e depois comandou expedição no Pacífico após a morte do marido, assumindo posto de mando em escala raríssima para os padrões europeus do século XVI. O Novo Mundo, para muitas dessas espanholas, foi também um laboratório de poder.

Ao terminar a leitura, fiquei com a sensação de que a história oficial se parece muitas vezes com um grande salão iluminado onde só alguns são autorizados a entrar. Do lado de fora, em corredores escuros, permanecem aqueles cuja presença sustentou o edifício, mas cujos nomes foram mantidos em baixa voltagem. A reportagem de Eloísa Gómez-Lucena faz exatamente o que o bom jornalismo histórico deve fazer: acende a luz nesses corredores. E ao fazê-lo, nos obriga a admitir que a conquista das Américas foi mais complexa, mais feminina e também mais moralmente desconcertante do que a versão escolar permitiu durante séculos. Tânia Montoro me enviou um texto; recebi, na verdade, uma chave. Com ela, abre-se uma porta incômoda — e necessária.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.