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Mário Maurici

Jornalista, ex-vereador e ex-prefeito de Franco da Rocha, ex-vice-presidente da EBC e ex-presidente da Ceagesp. Atualmente, deputado estadual e primeiro secretário da Assembleia Legislativa de São Paulo.

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A ameaça do governo Tarcísio ao Centro Paula Souza

O CPS enfrenta hoje um cenário de sucateamento progressivo, resultado de anos de subfinanciamento

Tarcísio de Freitas (Foto: Paulo Guereta/Governo Estado SP)

O Centro Paula Souza (CPS) é um dos pilares históricos da formação técnica e tecnológica no Estado de São Paulo e atravessa um momento crítico. A ameaça não é apenas à sua estrutura, mas ao próprio modelo de educação profissional construído ao longo de décadas. Reconhecido pela excelência de suas Escolas Técnicas Estaduais (ETECs) e Faculdades de Tecnologia (FATECs), o CPS enfrenta hoje um cenário de sucateamento progressivo, resultado de anos de subfinanciamento, expansão desordenada e ausência de políticas consistentes de valorização institucional.

A trajetória do CPS é marcada por uma consolidação pedagógica sólida entre as décadas de 1980 e 1990, seguida por uma expansão vigorosa nos anos 2000. Nesse período, o número de ETECs saltou de cerca de 90 para mais de 200 unidades, enquanto as FATECs se multiplicaram por todo o Estado. Esse crescimento ampliou significativamente o acesso à educação técnica, levando formação profissional de qualidade a centenas de milhares de jovens e adultos. Hoje, mais de 300 mil estudantes são atendidos.

No entanto, essa expansão não foi acompanhada por um aumento proporcional de investimentos. Pelo contrário: o que se observa com o governo Tarcísio de Freitas é uma redução real do orçamento por aluno, que compromete diretamente a qualidade da estrutura e do ensino oferecido. Problemas como infiltrações, banheiros sem condições mínimas de uso, ausência de refeitórios, escassez de materiais didáticos e defasagem tecnológica tornaram-se cada vez mais comuns. A precarização não é pontual. Ela é sistêmica.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Para manter, em termos reais, o mesmo nível de investimento por aluno observado em meados dos anos 2000, o orçamento do CPS deveria alcançar cerca de R$ 6,8 bilhões em 2026. No entanto, o valor previsto é pouco maior que a metade disso. Essa defasagem revela que a expansão da rede foi sustentada, na prática, por um arrocho contínuo das despesas de custeio e, principalmente, pela desvalorização das carreiras docentes e administrativas, que se agravou com o governo Tarcísio.

O impacto dessa política é a alta rotatividade de professores, a dificuldade de retenção de talentos, a sobrecarga de trabalho e a perda de qualidade no ensino. Ao mesmo tempo, estudantes enfrentam condições cada vez mais adversas para a sua formação, o que gera insatisfação crescente e coloca em xeque a credibilidade da instituição.

Paralelamente, o governo Tarcísio de Freitas tem apostado na ampliação de vagas em cursos técnicos por meio das escolas regulares da rede pública, vinculadas à Secretaria da Educação. A projeção é saltar das 124 mil matrículas em 2025 para 231 mil em 2026. Desta oferta, poucos cursos têm viés tecnológico e dependem de laboratórios e equipamentos. Segundo a própria secretaria, foram abertos apenas 84 laboratórios em escolas estaduais para essa finalidade, número insignificante diante da dimensão da rede estadual de ensino médio, composta por mais 3.700 escolas.

Embora essa estratégia seja frequentemente apresentada como um avanço, uma análise detalhada revela limitações importantes. A oferta de cursos técnicos pela Secretaria da Educação concentra-se em formações de baixo custo, com pouca exigência de infraestrutura laboratorial, como administração, logística e vendas. Já áreas que demandam investimento mais robusto, como tecnologia da informação, enfermagem e farmácia, permanecem com poucas vagas.

Para o governo Tarcísio, é mais rápido e barato direcionar os recursos para a Seduc do que investir, manter e criar novas ETECs. Além disso, ele poderá contar com um orçamento robusto graças à adesão de São Paulo ao PROPAG, programa do Governo Federal de reestruturação das dívidas dos Estados, cuja contrapartida exige investimento mínimo de 60% do valor economizado no acordo para a expansão da oferta de vagas no ensino técnico e profissional.

Como São Paulo terá um alívio de R$ 12 bilhões no pagamento da dívida em 2026, isso implica na obrigatoriedade de aplicação mínima de R$ 7,2 bilhões neste ano e próximos, até o cumprimento da meta de 50% de matrículas de ensino técnico. Para atingir a meta, o governo paulista propôs um plano de aplicação de recursos para o Ministério da Educação, responsável por gerenciar este programa, que troca juros por investimento em Educação.

O problema é que apenas uma fração desse recurso vai para o CPS – R$ 258 milhões, pelo que foi divulgado até agora. Isso nos faz supor que a estratégia será canalizar a maior parte da verba para modelos mais baratos e de rápida expansão numérica. Essa escolha não é neutra. Ela revela uma lógica que prioriza indicadores quantitativos, como número de matrículas, em detrimento da qualidade da formação oferecida.

Trata-se de uma visão que transforma a educação técnica em instrumento de cumprimento de metas, e não em política estratégica de desenvolvimento.

Esse processo ocorre de forma silenciosa, sem transparência. O plano detalhado de aplicação dos recursos ainda não foi amplamente divulgado nem debatido com a sociedade, com o Poder Legislativo ou com as comunidades acadêmicas diretamente envolvidas. Ao mesmo tempo, não há avanços na reestruturação das carreiras do CPS, nem sinalizações concretas de recomposição orçamentária.

O resultado é um paradoxo: enquanto cresce o discurso sobre a importância da educação profissional para o futuro da economia, enfraquece-se justamente a principal instituição responsável por oferecer esse tipo de formação com a qualidade exigida pelo mercado, reduzindo a capacidade de inovação e limitando as oportunidades de ascensão social para milhares de jovens. Esta é a escolha política do governo Tarcísio de Freitas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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