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Luciano Rezende Moreira

Professor titular do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Doutor e mestre em Ciências Agrárias, é graduado em Agronomia (UFV), Geografia (UERJ), Administração Pública (UFF) e Letras (UFF)

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Dia do Trabalhador e a necessária reflexão sobre o conceito de alienação em Marx

Talvez seja esse o verdadeiro sentido, ou seja, não apenas celebrar conquistas passadas, mas questionar as formas contemporâneas de exploração

Ilustração sobre o Dia do Trabalhador (Foto: Brasil 247)

O Primeiro de Maio, celebrado hoje, costuma ser lembrado como data de conquistas históricas da classe trabalhadora. Para mim, no entanto, ele também carrega uma memória incômoda. Meu pai morreu aos 58 anos de idade, no trabalho. Tinha orgulho de dizer que nunca tirava férias, que trabalhava em feriados, que não parava.

 Durante muito tempo, isso me pareceu sinônimo de dignidade. Foi apenas mais tarde, com o estudo e o contato com a crítica social, que essa percepção começou a mudar. Hoje, olhando para trás, não vejo nisso apenas dedicação, mas o peso de uma pressão silenciosa que transforma o excesso em virtude. Sinto muito não por ele ter sido trabalhador, mas por ter sido levado a acreditar que viver menos era prova de dignidade. Sua história não é exceção; é, infelizmente, regra em uma sociedade que ensina o trabalhador a medir seu valor pelo cansaço.

Esta minha mudança de olhar da realizada não foi espontânea. Ela passa, radicalmente, pelo contato que tive com o conceito de alienação, formulado por Marx. Ou seja, o processo pelo qual o trabalhador se torna estranho àquilo que produz, ao próprio ato de trabalhar e, em última instância, a si mesmo. O trabalho deixa de ser expressão da vida e passa a ser algo externo, imposto, uma condição para sobreviver. O resultado é uma inversão profunda. O que deveria servir ao ser humano passa a dominá-lo. Compreender isso altera não apenas a análise do trabalho, mas a própria forma de enxergar experiências que antes pareciam naturais ou até admiráveis.

Esta dinâmica não se limita ao plano econômico. Ela molda valores, percepções e formas de julgamento. Foi também nesse percurso que minha crítica se aprofundou, ao entrar em contato com autores que desafiaram frontalmente a moralização do trabalho, como Paul Lafargue, em O Direito à Preguiça, e Bertrand Russell, em Elogio ao Ócio. Em momentos distintos, ambos questionaram a ideia de que o excesso de trabalho é virtude, defendendo o direito ao descanso, ao tempo livre e à vida para além da produção. É nesse terreno que floresce o que se poderia chamar de “ética do cansaço como virtude”. Trabalhar até a exaustão deixa de ser um problema e passa a ser sinal de caráter. Descansar, por outro lado, torna-se suspeito, quase uma falha moral. O orgulho que meu pai sentia, e que tantos ainda sentem, de trabalhar até a exaustão, não nasce do nada; ele é produzido por uma cultura que glorifica o desgaste e a exploração do trabalho.

É justamente por isso que o debate sobre a escala 6x1 tem dimensão estratégica. Manter um regime em que se trabalha seis dias para descansar apenas um não é uma simples questão de organização produtiva. Trata-se de uma escolha política que define como a sociedade distribui o tempo de vida de seus membros. E, nesse arranjo, o trabalhador segue perdendo.

A redução da jornada de trabalho, nesse sentido, não é apenas uma pauta econômica, é uma pauta de vida. E isso inclui algo elementar: o direito à convivência familiar. Quem se posiciona contra a redução da jornada está, na prática, defendendo menos tempo entre pais e filhos, menos presença no cotidiano, menos possibilidade de compartilhar a vida. Não se trata de retórica. Trata-se de tempo real, de encontros que deixam de acontecer. Na minha própria experiência, isso teve forma concreta. Eu praticamente só convivia com meu pai aos domingos. Aos sábados, ele ainda fazia horas extras e chegava apenas à tarde. Só conseguimos nos aproximar mais quando ele abriu uma pequena loja e passou a trabalhar por conta própria, e mesmo assim, nosso convívio era mediado pelo trabalho.

A escala 6x1, além de desgastar o corpo, empobrece as relações. O trabalhador chega em casa cansado, sem energia, transformando o pouco tempo livre em recuperação física. A vida social e afetiva vai sendo comprimida até caber nos intervalos do trabalho. Vive-se para trabalhar, e não o contrário.

Ainda assim, o que mais impressiona é a naturalização desta condição. Muitos trabalhadores não apenas a aceitam, mas a defendem. Aqui, a alienação se revela em sua forma mais profunda: quando o indivíduo passa a enxergar o mundo a partir da lógica que o explora. A jornada exaustiva vira “normal”. O sacrifício constante vira “necessário”. E qualquer proposta de mudança é recebida com desconfiança.

Não por acaso, ofensas moralizantes como o “vá trabalhar, vagabundo” continuam circulando com força. Eles operam como instrumentos ideológicos, reforçando a ideia de que o valor de alguém depende exclusivamente de sua produtividade. Trabalhar muito deixa de ser uma imposição e passa a ser um dever moral. O cansaço vira prova de valor.

O desafio que se coloca, portanto, é mais amplo do que parece. Não se trata apenas de alterar leis ou reduzir jornadas, embora isso seja fundamental. Trata-se de enfrentar uma forma de pensar profundamente enraizada, que transforma a exploração em virtude e o esgotamento em sinal de honra.

Libertar a classe trabalhadora desta alienação é uma tarefa complexa justamente porque ela não atua apenas de fora para dentro, mas também de dentro para fora. Ela molda consciências, redefine valores e faz com que o próprio trabalhador, muitas vezes, defenda aquilo que o prejudica. E não é por acaso. Esta alienação é continuamente produzida e reforçada por aqueles que historicamente se beneficiaram da extração da mais-valia e da manutenção de um trabalho barato e disponível.

Talvez seja esse o verdadeiro sentido do Primeiro de Maio hoje, ou seja, não apenas celebrar conquistas passadas, mas questionar as formas contemporâneas de exploração que continuam a se apresentar como naturais e, pior, como desejáveis. Porque, enquanto o cansaço for tratado como virtude, a liberdade seguirá sendo apenas uma promessa distante.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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