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Plínio Augusto Lemos Jorge

Plínio Augusto Lemos Jorge é advogado, Presidente da ANJL, sócio do Lemos Jorge Advogados, ex-Juiz do TIT/SP, mestre em Direito Tributário pela PUC-SP e doutorando em Direito.

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O erro de R$ 100 bilhões na pesquisa sobre bets

Estudo da CNC ignora juros de 33,1% ao ano, confunde volume movimentado com gasto líquido em apostas e usa dados infundados para tentar explicar inadimplência

Apostas esportivas (Foto: Joédson Alves / Agência Brasil)

A Confederação Nacional do Comércio divulgou estudo onde afirma que as apostas on-line teriam retirado R$ 143,8 bilhões do comércio brasileiro em 2 anos. O número chama atenção e naturalmente causa repercussão. Mas, quando comparado aos dados oficiais disponíveis e aos próprios conceitos econômicos aplicáveis ao setor, essa conta não fecha.

Segundo a própria Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, a receita bruta do mercado regulado em 2025 foi de R$ 37 bilhões. Trata-se do chamado GGR, indicador que mede o valor efetivamente gasto pelo consumidor depois do pagamento dos prêmios. Isso equivale a 0,46% do consumo das famílias brasileiras. Já a estimativa divulgada pela CNC sugere algo próximo de R$ 29 bilhões por mês, o que superaria R$ 340 bilhões por ano. 

A discrepância é evidente e tem origem na confusão entre volume movimentado e gasto líquido, conceitos distintos que, se misturados, comprometem qualquer análise.

Em apostas, o usuário deposita um valor, faz uma aposta e pode receber parte desse dinheiro de volta em forma de prêmio. Esse saldo pode ser reutilizado ou sacado. Ou seja, o mesmo recurso pode circular várias vezes dentro da plataforma. 

Por isso, somar toda a movimentação como se fosse gasto definitivo distorce a realidade. Seria como afirmar que alguém que comprou e vendeu R$ 100 mil em ações gastou R$ 100 mil, quando na prática apenas movimentou esse valor. O gasto real é outro indicador. 

Os dados de comportamento do usuário também recomendam cautela diante das generalizações da CNC. A própria entidade admite que as famílias não necessariamente contraem dívidas para apostar, mas tenta criar uma relação causal frágil ao associar cada 10% de aumento no mercado a um acréscimo de 0,122 ponto percentual no endividamento. É uma probabilidade infundada que ignora que a redução da renda disponível é fruto de um cenário econômico muito mais complexo.

Informações consolidadas do Ministério da Fazenda, compiladas pela Pay4Fun, mostram cerca de 28 milhões de apostadores no Brasil em 2025. Desse total, 53,3% gastaram até R$ 50, enquanto 19,5% gastaram acima de R$ 1.000. Trata-se de uma base diversa, com perfis de consumo distintos e distante de leituras homogêneas sobre impacto financeiro generalizado. 

Paralelamente, um estudo da LCA Consultoria Econômica aponta ainda gasto líquido médio mensal de R$ 122 por apostador, equivalente a 3,3% da renda desse público. O dado não elimina a necessidade de políticas de prevenção e jogo responsável, mas ajuda a dimensionar corretamente o tema.

O endividamento das famílias brasileiras, por sua vez, antecede a regulação das apostas e decorre de fatores amplamente conhecidos: crédito caro, juros elevados, renda pressionada e custo de vida. 

Segundo o mesmo levantamento, o pagamento de juros consome 8,6% do orçamento familiar. No cartão de crédito rotativo, as taxas alcançam 438% ao ano, com inadimplência de 64,5%. O valor médio da dívida negativada de um brasileiro é de R$ 6.346. Em termos comparativos, seriam necessários 52 meses consecutivos de gasto médio em apostas, no valor de R$ 122 mensais, para acumular dívida equivalente. Em modalidades tradicionais de crédito desorganizado, isso pode ocorrer em poucos meses.

Diferentemente do que sugere o relatório ao afirmar que o cenário macroeconômico foi favorável no período, a realidade é que o custo do crédito no Brasil atingiu em 2026 seu maior patamar em quase 10 anos. Leia-se taxas médias de juros nas concessões atingindo 33,1% ao ano em março, maior alta desde 2016, e o crédito tornando-se mais seletivo e proibitivo.

Há ainda transformações relevantes no varejo que precisam entrar na análise. O e-commerce de alimentos cresceu 31% em 2025. O iFood registrou 180 milhões de pedidos em um único mês, com volume bruto superior a R$ 10 bilhões mensais. O mercado de medicamentos GLP-1 movimentou R$ 10 bilhões em 2025, com projeção de R$ 20 bilhões em 2026. Todos esses fatores alteram hábitos de consumo e a distribuição da renda disponível.

O ponto central é simples: o debate público sobre apostas precisa ser feito com seriedade. Diagnósticos que ignoram a pressão do índice de comprometimento de renda causado por juros recordes para focar em bodes expiatórios não ajudam o país. As famílias brasileiras merecem políticas públicas eficazes. E políticas públicas eficazes começam por contas que fechem.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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