O erro estratégico de Washington: mais uma guerra que fortalece Rússia e China
A questão decisiva é estratégica: quem realmente se beneficia do conflito?
A nova escalada entre Estados Unidos e Irã, iniciada com os bombardeios americanos no final de fevereiro de 2026, foi apresentada pela Casa Branca como uma ação necessária para conter o programa nuclear iraniano e restaurar a dissuasão no Oriente Médio. No entanto, quando se observa o tabuleiro internacional mais amplo, o conflito revela uma ironia geopolítica difícil de ignorar.
Ao abrir mais um front militar, Washington parece fortalecer exatamente os dois países que identifica como seus principais rivais estratégicos: Rússia e China.
A contradição não é circunstancial. Ela reflete algo mais profundo: a crescente dispersão estratégica da política externa americana em um sistema internacional que deixou de ser unipolar. Donald Trump parece totalmente desatinado e mais irresponsável.
Mais uma vez, os Estados Unidos se envolvem em um conflito regional enquanto o eixo central da disputa global se desloca para outro terreno — tecnologia, indústria e poder econômico.
Outro elemento essencial dessa equação estratégica é o papel de Israel. Embora os bombardeios tenham sido executados pelos Estados Unidos, a escalada contra o Irã está profundamente conectada às preocupações de segurança do Estado israelense. Para Israel, o avanço do programa nuclear iraniano e a consolidação do chamado ‘eixo da resistência’ — que inclui Hezbollah no Líbano, milícias xiitas no Iraque e os houthis no Iêmen — representam ameaças existenciais.
Nos últimos anos, Tel Aviv tem pressionado Washington a adotar uma postura mais dura contra Teerã e tem conduzido operações clandestinas e ataques seletivos contra alvos iranianos na região. Nesse sentido, a ofensiva americana não pode ser compreendida apenas como decisão unilateral de Washington: ela também reflete a lógica de segurança de Israel e o peso político da aliança estratégica entre os dois países na formulação da política externa americana para o Oriente Médio.”
O retorno de uma velha armadilha geopolítica
Desde a década de 1970, o Oriente Médio ocupa posição central na estratégia de segurança dos Estados Unidos.
O choque do petróleo de 1973 e a revolução iraniana de 1979 transformaram o Golfo Pérsico em um eixo crítico da política externa americana. Foi nesse contexto que surgiu a chamada Doutrina Carter, segundo a qual qualquer tentativa de controlar a região seria considerada um ataque direto aos interesses vitais dos Estados Unidos.
Durante décadas, essa lógica orientou a presença militar americana no Oriente Médio. Bases militares, alianças estratégicas e intervenções diretas tornaram-se parte permanente da arquitetura de poder construída por Washington.
No entanto, o mundo mudou profundamente desde então.
Graças à expansão da produção doméstica de energia, os Estados Unidos hoje são muito menos dependentes do petróleo do Oriente Médio do que eram no passado. Em teoria, isso deveria reduzir a centralidade estratégica da região.
Mas a realidade geopolítica parece seguir um roteiro diferente.
Apesar de repetidas declarações sobre a necessidade de concentrar sua estratégia na competição com a China e seu arqui-inimigo a Rússia de Putin, Washington continua sendo atraído de volta para o mesmo teatro de conflitos que domina sua política externa há mais de meio século.
A dispersão estratégica de Washington
O problema não é apenas regional. Ele é estrutural.
Os Estados Unidos enfrentam hoje três grandes frentes de competição estratégica simultâneas.
A primeira é a guerra na Ucrânia, que envolve um confronto indireto com a Rússia e mobiliza enormes recursos militares e financeiros.
A segunda é a crescente rivalidade tecnológica e econômica com a China, considerada por grande parte do establishment americano como o principal desafio estratégico do século XXI.
A terceira é a instabilidade permanente do Oriente Médio, onde crises recorrentes continuam a atrair intervenções externas.
A história das grandes potências mostra que poucas conseguiram sustentar simultaneamente três teatros estratégicos sem sofrer desgaste significativo.
Impérios raramente entram em declínio apenas por derrotas militares. Mais frequentemente, enfraquecem quando se dispersam em múltiplos conflitos enquanto a estrutura do poder mundial se transforma em outro lugar.
A guerra atual com o Irã pode ser mais um episódio dessa dinâmica.
O choque do petróleo e o benefício imediato para a Rússia
O primeiro impacto da guerra já apareceu nos mercados globais.
A tensão ganha dimensão ainda maior quando se considera a posição geográfica do Irã. O país controla a margem norte do Estreito de Ormuz, uma das passagens marítimas mais estratégicas do planeta. Cerca de um quinto de todo o petróleo comercializado no mundo atravessa esse estreito, que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã. Qualquer ameaça de bloqueio ou interrupção do tráfego marítimo nessa região provoca imediatamente choques nos mercados energéticos globais. Isso ajuda a explicar por que cada nova escalada militar envolvendo o Irã produz impactos econômicos que vão muito além do Oriente Médio.
Em poucos dias, o barril ultrapassou a marca de 100 dólares por barril de petróleo Brent, valorizando o dólar e as bolsas mundo afora. A incerteza aumenta. A inflação deve acelerar no mundo.
Do ponto de vista geopolítico, esse movimento tem consequências diretas.
A Rússia continua sendo um dos maiores exportadores de energia do mundo. Cada aumento no preço internacional do petróleo amplia suas receitas externas e fortalece sua capacidade financeira.
Assim, enquanto Washington mobiliza recursos militares para bombardear o Irã, a alta do petróleo acaba reforçando a posição econômica de Moscou.
A ironia estratégica é evidente.
Repercussão no Brasil
Essa instabilidade energética global não passa ao largo do Brasil. Embora o país seja um grande produtor de petróleo, a economia brasileira continua sensível às oscilações do mercado internacional de energia e ao aumento dos custos de transporte marítimo. Um eventual agravamento das tensões no Estreito de Ormuz poderia elevar significativamente os preços dos combustíveis, pressionar os custos logísticos e afetar cadeias produtivas estratégicas.
O impacto também se faria sentir no agronegócio, altamente dependente de fertilizantes importados, muitos deles provenientes do Oriente Médio ou transportados por rotas ligadas ao Golfo Pérsico.
Em outras palavras, conflitos aparentemente distantes do território brasileiro acabam reverberando diretamente sobre preços, produção e inflação — lembrando que, em um sistema econômico globalizado, as ondas de choque geopolíticas raramente respeitam fronteiras.
O benefício estratégico para a China
A China também colhe dividendos desse tipo de conflito — ainda que de forma menos imediata do que a Rússia.
Desde o governo Obama, Washington afirma que sua prioridade estratégica é o Indo-Pacífico e a contenção da ascensão chinesa. No entanto, cada nova crise militar no Oriente Médio absorve recursos militares, energia diplomática e atenção política da Casa Branca.
Em outras palavras, cada guerra no Golfo Pérsico representa uma distração estratégica para os Estados Unidos.
Enquanto Washington mobiliza navios, sistemas antimísseis e forças aéreas para mais um conflito regional, Pequim segue concentrada em outra frente de competição: a consolidação de sua liderança industrial e tecnológica.
Nas últimas duas décadas, a China tornou-se líder global em várias cadeias produtivas decisivas — veículos elétricos, baterias de íon-lítio, drones, painéis solares e diversos setores da nova economia energética.
Ao mesmo tempo, o país amplia rapidamente seus investimentos em pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico.
Em termos estratégicos, tempo é poder.
E cada momento em que os Estados Unidos se envolvem em guerras periféricas oferece à China mais espaço para consolidar sua posição como principal polo emergente da economia mundial.
O custo militar invisível
Há também um segundo efeito, menos visível, mas igualmente importante.
Guerras modernas consomem enormes quantidades de armamentos sofisticados: mísseis guiados, sistemas de defesa aérea, munições de precisão e equipamentos eletrônicos complexos.
Grande parte desse arsenal depende de cadeias industriais altamente especializadas e de reposição relativamente lenta. Cada operação militar consome estoques estratégicos que podem levar anos para serem plenamente repostos.
Esse aspecto torna-se ainda mais relevante em um momento em que os Estados Unidos enfrentam desafios militares simultâneos em diferentes regiões.
Sistemas de defesa aérea utilizados no Oriente Médio são os mesmos necessários para apoiar a Ucrânia ou sustentar a dissuasão no Indo-Pacífico.
Assim, cada nova escalada militar em uma região tem repercussões indiretas em outras.
A sucessão no Irã e o fracasso da estratégia de “decapitação”
A aposta implícita em muitas estratégias de mudança de regime é conhecida: eliminar a liderança política produziria desorganização institucional capaz de enfraquecer o sistema.
Foi essa lógica que orientou o assassinato do aiatolá Ali Khamenei durante os ataques americanos e israelenses.
Mas, no caso iraniano, os acontecimentos parecem apontar na direção oposta.
O sistema político iraniano reorganizou rapidamente sua estrutura de poder e designou como novo líder supremo Mojtaba Khamenei, filho do líder assassinado.
A sucessão ocorreu em poucos dias, demonstrando que a arquitetura institucional da República Islâmica possui mecanismos de continuidade mais sólidos do que frequentemente se imagina nas análises externas.
Mais do que isso, Mojtaba Khamenei é associado aos setores mais conservadores do regime e mantém vínculos estreitos com a Guarda Revolucionária.
Assim, a tentativa de enfraquecer o regime pode acabar produzindo exatamente o contrário: um sistema mais fechado, mais militarizado e menos inclinado a qualquer acomodação diplomática.
Mojtaba Khamenei já declarou que o estreito de Ormuz continuará fechado, como instrumento de pressão para acabar com a guerra e exige o fechamento de bases militares estadunidenses na região.
Um mundo em transição
A guerra com o Irã ocorre em um momento particularmente delicado do sistema internacional.
O mundo que emergiu após o fim da Guerra Fria — marcado pela supremacia incontestável dos Estados Unidos — já não existe.
A ordem internacional atravessa uma fase de transformação marcada pelo surgimento de múltiplos centros de poder, rivalidades tecnológicas e rearranjos econômicos profundos.
Nesse ambiente, decisões estratégicas podem produzir consequências muito além de seus objetivos imediatos.
Abrir mais um front militar pode parecer, no curto prazo, uma demonstração de força.
Mas, no longo prazo, pode significar exatamente o contrário.
A pergunta que permanece
Ao iniciar mais uma guerra em um sistema internacional já tensionado por rivalidades entre grandes potências, Washington pode estar acelerando justamente aquilo que procura evitar: a erosão gradual da ordem internacional construída após 1945.
A história das grandes potências mostra que impérios raramente entram em declínio apenas por derrotas militares. Mais frequentemente, enfraquecem quando se dispersam em conflitos periféricos enquanto a estrutura do poder mundial se transforma em outro lugar.
Se esse for o caso, a guerra atual poderá ser lembrada não como um momento de afirmação estratégica dos Estados Unidos, mas como mais um episódio de uma transição histórica já em curso.
E, nesse cenário, a pergunta inicial retorna com ainda mais força: quem realmente ganha quando uma superpotência como os Estados Unidos decide entrar em mais uma guerra?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



