O "Estado" bandido de Vorcaro e a República
Corrupção, fraudes, rombos, sonegações estão por toda parte
O escândalo Master se estruturou sobre dois grandes eixos: a criação de um Estado-bandido pelo grupo criminoso e a degradação da República pela corrupção de autoridades. Diferentemente das máfias, o Estado-bandido de Vorcaro se viabilizou de forma superestrutural. As máfias foram organizações de base que se infiltraram nos aparatos estatais de baixo para cima.
O Estado-bandido de Vorcaro se estruturou no alto e se infiltrou pelo alto – pelas estruturas políticas, institucionais e financeiras –, numa operação que envolveu a colaboração do grupo criminoso com altas autoridades da República e funcionários do Estado. Quer dizer: essa organização criminosa se estrutura de forma intra e extraestatal.
Vorcaro se revelou um grande estrategista na infiltração e na cooptação de autoridades e funcionários. Para isso, utilizou um coquetel de meios, destacando-se três: 1) envolvimento de familiares de autoridades com negócios envolvendo o ecossistema das organizações e fundos ligados ao Master; 2) distribuição farta e generosa de propinas, benesses e favores a autoridades, a exemplo de viagens de jatinhos, hotéis de luxo e pagamentos em dinheiro; 3) festas nababescas regadas a luxo e favores sexuais, com uso de garotas trazidas de países do Leste Europeu.
No primeiro ponto, destacam-se relações contratuais e negócios com familiares de ministros do STF, como os irmãos de Dias Toffoli, a esposa de Alexandre de Moraes, o filho de Nunes Marques e o escritório da família do ex-ministro Ricardo Lewandowski. O ex-ministro da Fazenda de governos petistas, Guido Mantega, também prestou serviços a Vorcaro. Os funcionários do Banco Central, comprados para fazer vistas grossas e para viabilizar as ilegalidades financeiras do Master, estão neste mesmo enquadramento.
Já a família Bolsonaro foi cooptada por meio de um nebuloso financiamento do filme sobre o ex-presidente. Há ainda muito por esclarecer neste caso, e a perspectiva de novas revelações deve agravar a crise na candidatura bolsonarista. Flávio Bolsonaro, mesmo sabendo das fraudes de Vorcaro, o chama de irmão e declara que estará sempre com ele. “Não tem meia conversa entre a gente”, diz.
No segundo ponto, é possível arrolar o senador Ciro Nogueira, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, que está preso, Nicolas Ferreira e vários outros. Ciro Nogueira, além das viagens de luxo, recebia uma mesada de R$ 300 mil a R$ 500 mil mensais. Paulo Henrique Costa receberia imóveis no valor de R$ 164 milhões. Recebeu parte desse montante. A ordem de Vorcaro era deixá-lo feliz, pois ele viabilizaria a compra do Master pelo BRB.
No ponto três, as especulações são muitas. Fala-se de deputados, senadores, ministros e empresários. Este ainda é um ponto nebuloso, pois tratar-se-ia de eventos da esfera da vida íntima dos envolvidos. Mas a Polícia Federal está investigando. Juristas e a PF apontam para a possibilidade de dois crimes: tráfico de pessoas para exploração sexual e uso desses encontros para corrupção e tráfico de influência envolvendo autoridades.
O Estado-bandido de Vorcaro articulou várias outras estruturas: espionagem digital e física, contrainformação e operações de desinformação, infiltração institucional na PF, no Ministério Público e na Interpol, articulações internacionais, articulações com o PCC, com o jogo do bicho e milícias no Rio de Janeiro, estruturação de um grupo armado para agir com violência e intimidar adversários e desafetos, incluindo jornalistas.
A partir dessas estruturas e contando com a cobertura de autoridades, com a proteção de funcionários públicos, Vorcaro montou um cipoal de negócios fraudulentos, uma ciranda, uma espécie de pirâmide que terminou por quebrar o banco. Arrastou fundos de pensão de estados e municípios, carteiras de consignados, arrasou o Fundo Garantidor de Crédito. Até agora, o montante das fraudes chega a mais de R$ 50 bilhões.
Se Vorcaro se mostrou eficaz em cooptar, corromper, infiltrar e fraudar, revelou-se desastroso em outros pontos estratégicos para organizações criminosas. Foi um péssimo gestor dos recursos, seja para otimizar o que auferiu pelas fraudes, seja para ser mais comedido na distribuição de propinas. Também se mostrou desastroso na proteção da organização criminosa, agindo abertamente, naturalizando seus crimes. As máfias são mais ciosas na proteção de suas organizações contra as investidas das investigações policiais e das ações judiciais. O Estado-bandido de Vorcaro ruiu como um castelo de areia, tão rapidamente quanto a sua ascensão meteórica.
A contraface do Estado-bandido de Vorcaro é a República degradada. Pode parecer espantoso que ministros do STF, senadores, altos funcionários do Estado, agentes da Polícia Federal, diretores de fundos de pensão e o conselho inteiro do Banco de Brasília tenham se enredado na teia de corrupção de Vorcaro. Mas, pensando bem, não é tão espantoso assim. É mais adequado dizer que é o modo de ser do Brasil, especialmente de Brasília.
É desalentador ver que pessoas, juízes, ministros, senadores e altos funcionários se deixam arrastar pela ambição, pela cobiça ou pela imbecilidade ao fundo do poço. Muitas dessas pessoas são bem instruídas, conhecedoras da história, alcançaram altos postos públicos. Nunca deveriam se esquecer de que, entre a grandeza e a desgraça, a distância é muito pequena.
Corrupção, fraudes, rombos, sonegações estão por toda parte. No Rio de Janeiro, a Refit, a maior sonegadora do Brasil, havia capturado o então governador Cláudio Castro e algumas secretarias do estado para garantir a impunidade e a continuidade de seus crimes. Em São Paulo, algumas grandes empresas que ostentavam reputação pública ilibada, a exemplo da Fast Shop, Ultrafarma, três grandes grupos empresariais do setor de plásticos e resinas e empresas do setor de autopeças promoveram fraudes fiscais bilionárias contra os cofres públicos do estado. Os escândalos do INSS, orçamento secreto, emendas e penduricalhos são apenas peças nesse combo vergonhoso de assaltos ao que deveria ser do povo.
São autoridades da República e altos funcionários que a degradam e a destroem. Destroem o seu caráter público, a coisa do povo, as suas virtudes, a frugalidade, o compromisso, a transparência, a responsabilidade. Muitas dessas autoridades e políticos que se corrompem usam a máscara hipócrita da religião para fraudar, enganar e roubar. O próprio cunhado de Vorcaro, Fabiono Zéttel, é pastor da Igreja da Lagoinha. Flávio Bolsonaro se declara representante de Deus na luta contra o demônio.
A destruição da República provoca uma rejeição à política. Mais de 60% da população afirma que não confia nos partidos, resultando num processo de desengajamento político e desconfiança institucional. Os poderes da República têm baixa legitimidade. As pessoas se sentem fatigadas. As eleições estão se definindo por um jogo de rejeições. O desafio das esquerdas e de Lula consiste em apresentar um programa e propostas que sejam capazes de reverter esses sentimentos generalizados de desânimo e frustração social.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




