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Publicitário confirma que Vorcaro tentou montar conglomerado de mídia para se proteger

Thiago Miranda relata influência sobre veículos digitais e campanha com influenciadores para atacar o Banco Central

Daniel Vorcaro (Foto: Divulgação/Brasil 247)
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247 – O empresário e publicitário Thiago Miranda afirmou que o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, tentou estruturar um conglomerado de mídia para ampliar sua influência e se proteger politicamente e institucionalmente antes da derrocada do banco – informação publicada originalmente pelo Brasil 247 em novembro do ano passado. As novas informações de Thiago Miranda foram agora publicadas pelo jornal O Globo.

Segundo Miranda, que comandava a agência Mithi e atuou diretamente ao lado de Vorcaro em estratégias de comunicação e gerenciamento de crise, o banqueiro investiu milhões de reais em veículos digitais, influenciadores e operações de mídia. Ele também teria articulado participações indiretas em empresas de comunicação utilizando aliados e estruturas societárias paralelas.

Um dos principais relatos envolve a compra de participação no Portal Léo Dias. Miranda entregou à equipe da coluna um contrato que mostra a venda de 17% do portal por R$ 10 milhões ao empresário Flávio Carneiro, em julho de 2024. Segundo o publicitário, Carneiro atuava como representante de Vorcaro nas operações.

“Estamos otimistas e felizes com o nosso deal. Vamos juntos”, escreveu Miranda a Vorcaro após uma reunião sobre o negócio. O banqueiro respondeu: “Vamos fazer algo grande. Contem comigo”.

Miranda relatou que conheceu Vorcaro em uma cobertura no Itaim Bibi, em São Paulo, num encontro que teria contado também com a presença do jornalista Léo Dias.

Segundo ele, o banqueiro dizia claramente que estava montando um conglomerado de mídia e que já possuía participação na revista IstoÉ e no site Brazil Journal.

De acordo com o publicitário, Flávio Carneiro aparecia formalmente nas operações, por meio da Foone Empreendimentos, mas Vorcaro seria o verdadeiro interessado nos negócios. A Foone também teria adquirido participação no portal PlatôBR.

“Sempre foi claro para mim que quem estava comprando o portal era o Vorcaro. Ele nunca deixou dúvida a respeito disso”, afirmou Miranda.

O publicitário relatou ainda que o banqueiro participava diretamente das negociações financeiras. “Se eu fui na casa dele, negociei com ele, ele que definiu o valor que ia pagar [e barganhou] ‘Olha, tá muito caro, não, tá, é, preciso reduzir esse valor. Amanhã eu mando fazer o pagamento’. Então ele é o dono da empresa”, declarou.

Flávio Carneiro negou que Vorcaro fosse sócio oculto da Foone ou dos veículos mencionados. Em nota enviada à coluna, afirmou: “Daniel Vorcaro nunca foi sócio, direto ou indireto, da Foone”. Ele admitiu, no entanto, que o Banco Master fez aportes publicitários no Portal Léo Dias.

A estrutura societária da Foone inclui um fundo administrado pela gestora Reag, ligada ao empresário João Carlos Mansur, parceiro de negócios de Vorcaro. Segundo informações citadas na reportagem, o fundo Duke teria como controlador Fabiano Zettel, cunhado do ex-controlador do Banco Master.

Miranda afirmou que, após a entrada do dinheiro do Master, o Portal Léo Dias passou a receber cerca de R$ 1,2 milhão por mês em publicidade do banco. Apesar disso, segundo ele, não houve publicação direta de conteúdo favorável ao grupo financeiro.

O publicitário reconheceu, porém, que o portal não cobriu a operação da Polícia Federal que prendeu Vorcaro nem os desdobramentos das investigações que culminaram na liquidação do Master pelo Banco Central. O mesmo padrão teria ocorrido inicialmente no PlatôBR e no Brazil Journal.

Campanha com influenciadores

Além da tentativa de estruturar uma rede de mídia, Miranda revelou detalhes de um projeto de comunicação montado após a primeira prisão de Vorcaro, em 2025. Batizada de “Projeto DV”, a estratégia previa o pagamento de R$ 3,5 milhões mensais a influenciadores digitais para lançar suspeitas sobre a atuação do Banco Central na liquidação do Banco Master.

Segundo Miranda, o plano foi apresentado a Vorcaro em dezembro de 2025, em São Paulo, por meio de uma apresentação de cerca de 70 slides. O material foi entregue à Polícia Federal e se tornou peça central do depoimento prestado pelo publicitário aos investigadores.

Contratos obtidos pela reportagem mostram acordos firmados com perfis de grande alcance nas redes sociais, como Fofoquei, Alfinetada, Tricotei, Queironica e Easy Fatos, além dos sites GPS e Not Journal e do jornalista Luiz Bacci.

Os pagamentos previstos variavam de R$ 30 mil a R$ 1,5 milhão mensais, dependendo da audiência dos perfis. Os contratos estabeleciam que os conteúdos deveriam seguir uma “estratégia de comunicação previamente alinhada” com a agência Mithi.

Miranda afirmou que os influenciadores recebiam roteiros com os pontos que deveriam destacar nas postagens. “Tudo que foi feito, o influenciador não criou da cabeça dele. Ele fez por matérias que foram produzidas por jornalistas”, disse.

“Esse era a regra do negócio: repercutir o que tinha saído em algum veículo”, acrescentou.

Disputa após a crise do Master

Segundo Miranda, a relação entre Vorcaro e Flávio Carneiro teria se deteriorado após a primeira prisão do banqueiro. O publicitário afirmou que o ex-controlador do Master procurou Carneiro para discutir a reorganização dos veículos de comunicação adquiridos antes da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal.

A conversa teria terminado em conflito. “Foi como se um passasse a perna no outro”, relatou Miranda. Segundo ele, Carneiro respondeu a Vorcaro: “Se você fala que o portal é o seu, você tem que me passar R$ 60, 70, 80 milhões, que é quanto vale o portal hoje”.

Léo Dias afirmou, por meio de seus advogados, desconhecer o teor das declarações feitas por Thiago Miranda. Já os responsáveis pelo PlatôBR e pelo Brazil Journal disseram que caberia a Flávio Carneiro comentar o assunto.

O grupo Entre, atual controlador da revista IstoÉ, também negou qualquer interferência externa na gestão editorial da publicação. Em nota, afirmou que mantém “gestão editorial independente, autônoma e alinhada aos princípios do jornalismo profissional”.

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