Relação de Flávio Bolsonaro com Vorcaro abala palanques da direita
Crise do Banco Master faz aliados recalcularem apoio a Flávio Bolsonaro e amplia disputa por espaço no bolsonarismo
247 - A relação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro passou a pressionar a montagem de palanques da direita para as eleições deste ano. A crise do Banco Master levou aliados a reverem estratégias estaduais, enquanto partidos e lideranças locais tentam reduzir o risco de contaminação eleitoral em campanhas consideradas competitivas.
As informações são do jornal O Globo. A revelação de negociações entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro interrompeu tratativas em curso e provocou cautela em siglas que vinham avaliando apoiar o projeto presidencial do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O impacto já aparece em estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Ceará, Bahia, São Paulo e Distrito Federal. Dirigentes partidários, governadores e parlamentares discutem formas de blindar disputas locais do desgaste nacional provocado pelo caso envolvendo o Banco Master.
Em Santa Catarina, estado de forte presença bolsonarista, a expectativa inicial era de um palanque ampliado para Flávio Bolsonaro. O governador Jorginho Mello (PL) e o ex-prefeito de Chapecó João Rodrigues (PSD) eram vistos como possíveis integrantes da base de sustentação do senador. Após a divulgação das mensagens entre Vorcaro e Flávio, porém, João Rodrigues indicou que deve priorizar um palanque exclusivo para Ronaldo Caiado, pré-candidato do PSD à Presidência.
Mesmo buscando se afastar da candidatura de Flávio, Rodrigues afirmou que não pretende atacar o senador durante a campanha. “Ficar em silêncio é o melhor caminho”, disse.
A crise também se soma a uma disputa interna da direita catarinense pelo Senado. Carlos Bolsonaro (PL), Caroline de Toni (PL) e Esperidião Amin (PP), candidato à reeleição, aparecem no centro da competição pela vaga, em um cenário que pressiona ainda mais a organização do campo bolsonarista no estado.
No Ceará, o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), que tenta retornar ao comando do estado, passou a defender uma campanha menos nacionalizada. A pré-candidatura de Ciro será lançada na próxima semana e deve contar com a presença de integrantes do PL local, embora aliados busquem manter a aliança restrita ao plano estadual.
“Ciro não vai tratar de Presidência. Somente de governo do estado”, afirmou o deputado Mauro Benevides Filho (União-CE), um dos principais aliados do ex-governador.
A estratégia, no entanto, não é consensual dentro do PL cearense. O deputado estadual Alcides Fernandes (PL), cotado para disputar o Senado na chapa de Ciro, publicou nas redes sociais uma montagem de pré-campanha em que aparece ao lado de Flávio Bolsonaro e do próprio Ciro Gomes.
Na Bahia, o ambiente também ficou mais cauteloso. Embora haja tendência de convivência regional entre o bolsonarismo e o ex-prefeito ACM Neto (União), interlocutores afirmam que a cúpula da federação União Brasil-PP reduziu o ritmo das conversas nacionais com Flávio. Antes mesmo da repercussão do caso Master, ACM Neto já evitava nacionalizar sua campanha. A tendência é que o PL participe da chapa estadual, mas sem que o pré-candidato bolsonarista à Presidência tenha palanque direto.
Mesmo em estados onde o bolsonarismo tem alianças mais consolidadas, a crise passou a ser observada com preocupação. Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) deve disputar a reeleição com apoio da família Bolsonaro. Integrantes do Republicanos avaliam que ainda é cedo para medir os efeitos práticos do episódio, mas admitem receio de desgaste nacional.
Em Minas Gerais, um acordo entre o PL e o senador Cleitinho (Republicanos) avançou nos últimos dias. Apesar da aproximação, dirigentes do Republicanos afirmam que ainda “há muita coisa para acontecer” antes de uma definição sobre o apoio da sigla e de Cleitinho a Flávio no estado.
Dentro do PL, pré-candidatos tentam conter a leitura de que a crise possa inviabilizar o projeto presidencial do senador. Nomes como Sergio Moro (PL-PR) e Efraim Filho (PL-PB) minimizaram o desgaste e disseram que Flávio já apresentou explicações sobre o caso.
A preocupação principal, segundo interlocutores ouvidos pelo jornal, vai além do impacto imediato sobre a imagem de Flávio Bolsonaro. O receio é que o episódio prejudique a engenharia nacional de alianças montada pelo bolsonarismo para a eleição. A construção de palanques estaduais era considerada um dos principais ativos políticos da pré-campanha do senador.
Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar desde março, segue influenciando diretamente as decisões estratégicas da direita. Ele deve receber nas próximas semanas um mapa consolidado das alianças estaduais do bolsonarismo para dar a palavra final sobre os acordos regionais.
Parte dessas negociações, no entanto, entrou em compasso de espera após a divulgação, pelo Intercept Brasil, de mensagens, áudios e documentos que apontam tratativas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiar “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro. Segundo a publicação, o acordo previa aportes de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões.
O impacto político foi ampliado porque a crise surgiu em um momento em que o PL tentava consolidar alianças simultâneas com partidos do Centrão, governadores de direita e setores ideológicos do bolsonarismo.
Zema endurece críticas e amplia racha em Minas
O primeiro efeito político mais concreto apareceu em Minas Gerais. A decisão do ex-governador Romeu Zema (Novo) de criticar publicamente Flávio Bolsonaro aprofundou o isolamento do governador Mateus Simões (PSD) junto ao bolsonarismo e passou a contaminar negociações nacionais entre PL e Novo.
Poucas horas após a reportagem do Intercept, Zema disse ser “imperdoável” ouvir Flávio pedindo dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro.
“É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer as mesmas coisas”, declarou Zema.
A reação provocou irritação no núcleo político do PL. O líder do partido na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que as declarações de Zema passaram a ameaçar acordos estaduais considerados estratégicos.
“Há uma pressão de alguns parlamentares para suspender os acordos nas majoritárias com o Novo por conta das declarações do Zema”, afirmou.
Nos bastidores, interlocutores do PL dizem que a crise consolidou a decisão da legenda de abandonar qualquer tentativa de composição com o grupo de Zema em Minas Gerais. O partido passou a aprofundar a aproximação com o Republicanos e com o senador Cleitinho Azevedo, embora a aliança ainda precise ser confirmada.
A parceria entre PL e Republicanos já vinha sendo construída antes da crise e ganhou força em reunião em Brasília, na última terça-feira. Participaram do encontro Flávio Bolsonaro, o senador Rogério Marinho (PL-RN), o presidente estadual do PL em Minas, Zé Vitor (PL-MG), e o empresário Flávio Roscoe.
O PL já vinha reduzindo o ritmo das conversas com Mateus Simões, sucessor de Zema e candidato à reeleição, diante da possível candidatura presidencial do ex-governador pelo Novo. A avaliação interna era de que não faria sentido manter uma aliança estadual com um grupo que apoiaria outro presidenciável no primeiro turno. A crise do Master acelerou esse processo.
O deputado federal Domingos Sávio (PL-MG), pré-candidato ao Senado em Minas, afirmou que a postura de Zema tornou praticamente inviável um acordo político entre os grupos.
“Tenho uma relação boa com Mateus, mas a dificuldade é que ele era leal ao ex-governador. Agora, mesmo se a gente resolvesse ceder e topar dois palanques, quando Zema vem com metralhadora torna praticamente impossível uma aliança com o candidato dele”, disse.
O desgaste de Flávio também enfraqueceu o plano inicial de lançar Flávio Roscoe ao governo mineiro associado diretamente à candidatura presidencial do senador. A estratégia era resumida internamente no slogan “Flávio lá e Flávio cá”. Com a crise, o plano foi congelado, e Cleitinho passou a ser tratado como o nome mais seguro da direita para a disputa estadual.
Michelle ganha espaço em meio à crise de Flávio
A crise também reorganizou a disputa interna por influência no bolsonarismo. O episódio agravou a competição entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro na definição de candidaturas nos estados.
Michelle tem acenado ao senador Esperidião Amin, adversário de Carlos Bolsonaro em Santa Catarina, e apoia no Ceará a pré-candidatura da vereadora Priscila Costa (PL) ao Senado. Priscila disputa espaço com Alcides Fernandes, nome preferido por Flávio para a vaga.
Enquanto aliados regionais tentam reduzir o grau de associação com Flávio, cresce a influência de Michelle sobre palanques estaduais da direita. Mesmo concentrada nos cuidados com Jair Bolsonaro, a ex-primeira-dama ampliou sua participação em negociações eleitorais em mais de vinte estados, segundo interlocutores.
O foco principal de Michelle está em candidaturas ligadas ao eleitorado evangélico, feminino e mais ideológico da direita. Aliados afirmam que a turbulência envolvendo Flávio abriu espaço para que ela consolide uma estrutura política própria dentro do PL, muitas vezes em tensão com integrantes próximos ao senador.
Embora interlocutores ligados a Michelle afirmem que ela descarta, por ora, disputar a Presidência, seu nome passou a circular com mais frequência em conversas reservadas da direita após a repercussão do caso Vorcaro.
No Rio de Janeiro, Michelle conseguiu barrar, ao menos temporariamente, a possibilidade de Rogéria Bolsonaro (PL-RJ) disputar o Senado. No Distrito Federal, aliados da ex-primeira-dama demonstram preocupação com os desdobramentos envolvendo o governador Ibaneis Rocha (MDB), aliado estratégico do grupo de Michelle e peça central para a candidatura da vice-governadora Celina Leão (PP) ao governo local.
Integrantes do bolsonarismo afirmam que eventual agravamento da situação política de Ibaneis poderia comprometer um dos palanques femininos considerados prioritários para Michelle.



