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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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O fascismo pode ter cansado Zé do Bode

“O que aconteceu na França é capaz de mexer com a política também no Brasil?”, pergunta o colunista Moisés Mendes

Eleitores celebram vitória da esquerda na França (Foto: Reuters)

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É quase hipnotizante o desejo de ver a vitória das esquerdas na França como a chance de nacionalizar por toda parte a contenção do fascismo, desde que se tenha a ajuda de um certo centro altruísta. É a nova tentação mundial, que também vai tentar os brasileiros.

É a possibilidade que passa a ser medida a partir de agora, considerando-se a realidade mais imediata, a das eleições municipais. Disputas paroquiais, mesmo que contaminadas pela polarização nacional, podem indicar alguma coisa na direção do fortalecimento da guerra ao fascismo?

O interiorzão, sob controle da velha política ao estilo século 20, mas influenciado pelas peculiaridades da ascensão do bolsonarismo, pode ser contagiado pela sensação de que a extrema direita cansou seus cavalos e seus rebanhos?

A velha direita absorvida pelo bolsonarismo em pequenas e médias cidades, para pegar carona nas vantagens oferecidas pelo crescimento do fascismo a partir de 2018, pode estar cansada de tanto Bolsonaro? 

Será que o Brasil profundo também chegou à exaustão das guerras bolsonarianas em favor de estupradores e contra vacinas, gays, negros e indígenas? Que impacto pode ter aqui, em conflitos de províncias, uma das reviravoltas mais fantásticas da política mundial no século 21, num contexto em que o contágio que prevalece ainda é o do fascismo?

Não são questões desprezíveis, sabendo-se que o bolsonarismo engoliu a velha direita e matou o que um dia se chamou de centro. Que paróquias são movidas hoje pelo dinheiro anabolizante das emendas parlamentares. E que políticos das velhas siglas MDB, PSDB, PP, PDT já não sabem direito o que são, ou nem querem saber.

A sobrevivência é assegurada muitas vezes pelo jogo duplo. Prefeitos podem ir dormir lulistas e podem acordar bolsonaristas, ou vice-versa, ou podem apenas fingir que dormem. 

Mas faz bem pensar que o Brasil dos arredores das metrópoles presta atenção nas mensagens que vieram do México, do Reino Unido e agora da França e que o vereador Zé do Bode, do tempo da velha Arena, pode estar exausto de se fardar de novo fascista.

Um exemplo. No Rio Grande do Sul, o PP tem 142 prefeituras, o MDB tem 134, o PDT tem 67 e o PSDB, 32. O PL de Bolsonaro tem apenas 20, menos do que as 23 prefeituras do PT. 

PP, MDB, PDT e PSDB, com boas raízes no Estado, não chegam a ter uma alma bolsonarista. Mas muitos dos núcleos dirigentes dos partidos vinham tendo uma índole pró-Bolsonaro. Quase todos estiveram até aqui mais próximos ou afinados com a turma dele. 

Mas hoje é Lula quem está no poder. Bolsonaro, indiciado como ladrão de joias, não tem o que entregar. Comunidades divididas cansaram da guerra no café da cidade, e o fascismo pode ter se exaurido pelos próprios excessos.

Uma eleição municipal é de outro departamento. Mas vamos lembrar, para sermos num pouco otimistas, que Bolsonaro foi um péssimo cabo eleitoral em 2020, quando estava no poder.

Zé do Bode talvez não entenda direito o que se passou na França e como isso pode mexer com vida na Europa e até com a sua vidinha em Pirassununga. 

Mas sabe que há um incômodo no ar e que algumas concessões ao extremismo podem ter chegado ao limite. Como aconteceu com os franceses.

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