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Florestan Fernandes Jr

Florestan Fernandes Júnior é jornalista, escritor e Diretor de Redação do Brasil 247

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O jogo político por trás das delações do caso Master

Em ano eleitoral, é preciso observar os fatos, quem os narra, como os narra e sob quais interesses

Foto mostra o banqueiro Daniel Vorcaro na prisão (Foto: Reprodução )

Após os episódios da Lava Jato, marcados por delações questionadas, denúncias controversas e práticas amplamente criticadas, é necessário manter atenção redobrada ao que pode surgir.

Em meio às investigações do maior escândalo financeiro do Brasil, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB (Banco de Brasília), negociam acordos de delação premiada com a Polícia Federal. Essas delações ocorrem em pleno ano eleitoral e certamente terão impacto na campanha presidencial. 

E não é por acaso. Antes mesmo de serem formalizadas as delações, jornalistas da mídia corporativa já vinham construindo, em powerpoints, denúncias baseadas em “fontes anônimas”, além de uma narrativa sobre quem deveria ser incluído no rol dos envolvidos no esquema de Daniel Vorcaro.

A versão inverossímil de uma suposta relação entre o governo Lula e o dono do Banco Master, produziu efeitos: aumentou a rejeição ao presidente e reduziu sua liderança nas pesquisas.

O mais paradoxal é que justamente o governo que atuou para conter irregularidades e iniciou o processo de liquidação do Master, estrutura criada durante o governo Bolsonaro, acabou arcando com o desgaste político gerado por fatos ocorridos naquele período e por agentes ligados àquela gestão.

A história das campanhas eleitorais no Brasil, desde a eleição de Lula em 2002, mostra como parte da mídia e da elite financeira busca influenciar o processo eleitoral por meio da exploração do tema da corrupção. Para fixar essas narrativas no imaginário popular, criaram-se até “marcas” com o sufixo “ão”: Mensalão, Petrolão.

Mas, como diz o ditado, “gato escaldado tem medo de água fria”. Após os episódios da Lava Jato, marcados por delações questionadas, denúncias controversas e práticas amplamente criticadas, é necessário manter atenção redobrada ao que pode surgir.

Sobretudo porque há indícios de que possíveis delatados, em razão de sua proximidade com Vorcaro, possam ser poupados. Entre eles, figuram prefeitos e governadores alinhados ao bolsonarismo, que utilizaram fundos de pensão de estados e municípios para adquirir títulos de alto risco do Banco Master.

Um exemplo é o governador Cláudio Castro, que teria comprometido entre R$ 970 milhões e R$ 2,6 bilhões da Rioprevidência. Outro caso, é o do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que em 2024 autorizou a aquisição de R$ 30,4 bilhões em ativos do banco por meio do BRB. Além disso, houve tentativa de compra do Banco Master pelo BRB, operação que não se concretizou após negativa do Banco Central, já na gestão de Gabriel Galípolo.

Diante desses elementos, é difícil prever como eventuais delações poderiam sustentar narrativas já antecipadas em determinados espaços midiáticos. 

Mas vale lembrar que o presidente Lula foi condenado, sem provas, a 12 anos e um mês de prisão pela "lavagem de dinheiro" nos casos de um triplex no Guarujá que nunca foi dele e, da reforma de um sítio de amigos, em Atibaia.

Por fim, destaca-se que o relator do caso Master no STF é o ministro terrivelmente evangélico, André Mendonça, amigo próximo da madrasta de Flávio Bolsonaro, Michele Bolsonaro. 

Em ano eleitoral, é preciso observar os fatos, quem os narra, como os narra e sob quais interesses. A história recente do Brasil mostra que investigações costumam ser instrumentalizadas e transformadas em armas políticas.

O caso Banco Master ainda está em aberto, mas a disputa pela sua interpretação já começou. E, mais uma vez, o risco não está apenas no que será revelado, mas na forma como essas revelações serão utilizadas para influenciar o rumo da eleição brasileira.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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