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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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O leite como apito de cachorro

Brinde com leite expõe uso de símbolos da extrema-direita

Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Matheus Simões (Foto: Gil Leonardi/Imprensa MG)
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Quando Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema ergueram copos de leite em um brinde durante um encontro político recente, não estavam apenas fazendo uma escolha de bebida. Estavam emitindo um sinal. Um sinal codificado, deliberado e reconhecível por quem precisa reconhecê-lo: as células neonazistas, os grupos de supremacia branca, os extremistas de diversos matizes que habitam as sombras e os grupos de WhatsApp do Brasil profundo. O gesto pode parecer banal a quem não conhece o código. Mas a comunicação política raramente é acidental, e esses três candidatos sabiam exatamente o que estavam fazendo.

O leite, como símbolo político da extrema-direita, não nasceu ontem. Suas raízes estão fincadas no próprio solo do nazismo histórico. O Terceiro Reich cultivava uma estética obsessiva da pureza — racial, alimentar, moral. O leite branco encaixava-se como uma luva nessa iconografia: alimento "ariano" por excelência, ligado à terra, ao campo, ao ideal germânico do Blut und Boden — "Sangue e Solo". O regime de Hitler promovia ativamente o consumo de leite entre as crianças alemãs como forma de fortalecer a chamada raça. Alimento puro para gente pura, na lógica doentia da época.

Esse simbolismo foi ressuscitado e reapropriado pelo movimento supremacista norte-americano, em particular a partir de 2016, quando grupos neonazistas começaram a usar o leite como emblema identitário nas redes sociais. Exatamente quando a gênese do bolsonarismo começou a ganhar tração no Brasil. O argumento pseudocientífico: europeus tolerariam melhor a lactose — a persistência da enzima lactase na idade adulta — do que outras populações, o que seria "prova biológica" da superioridade racial branca. A ciência, naturalmente, desfaz essa fraude: a persistência da lactase é uma mutação genética surgida de forma independente em diversas populações, inclusive africanas e do Oriente Médio. Mas a extrema-direita nunca se importou muito com ciência. O leite virou meme, tornou-se "apito de cachorro" — o tipo de mensagem que o dono ouve e o vizinho não.

No Brasil, esse código chegou junto com o crescimento do bolsonarismo e da alt-right brasileira. Células neonazistas identificadas em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo fazem uso da mesma simbologia circulante no universo da extrema-direita global. Esses grupos conhecem o repertório. Quando viram três candidatos à Presidência da República — um senador filho do ex-presidente presidiário e dois ex-governadores — erguendo copos de leite diante das câmeras, a mensagem foi recebida com clareza.

Não há como relativizar o contexto do evento em que o brinde ocorreu. Tratava-se de um encontro calculado de articulação política da direita brasileira, com palanque, audiência e cobertura jornalística. Não foi uma confraternização privada, não foi coincidência, não foi ingenuidade. Foi performance política em espaço público.

A comunicação política é feita também, e com muito mais força, por símbolos. Um aperto de mão, uma cor de camisa, uma saudação, um gesto — tudo carrega significado no campo simbólico da política. O brinde com leite desses três candidatos — que mais parece um três-em-um — deu o seu recado. Escancarou, de forma objetiva e calculada, o seu modo de ver o mundo e, em especial, a humanidade: quem pertence e quem não pertence, quem é bem-vindo e quem deve ser temido. Para os que conhecem o código, a mensagem foi alta e clara. Para os demais, fica o alerta: quando a política fala por símbolos, é preciso saber decodificá-los.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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