Atividade parlamentar de Flávio Bolsonaro ignorou temas como saúde e educação – e defendeu policiais e ditadura
Levantamento revela que segurança pública dominou quase 70% dos discursos do senador durante seus quatro mandatos na Alerj
247 – A trajetória parlamentar de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) foi marcada por uma atuação quase exclusiva em defesa de policiais militares, bombeiros e agentes penitenciários, enquanto áreas essenciais como saúde e educação receberam atenção mínima ao longo de seus 16 anos como deputado estadual.
Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo analisou os 12.115 discursos realizados por deputados estaduais fluminenses entre 2003 e 2018 e concluiu que a segurança pública foi o tema dominante em 68% das falas de Flávio Bolsonaro. Dos 214 pronunciamentos feitos pelo hoje senador e pré-candidato ao Palácio do Planalto, ao menos 145 tiveram foco principal em pautas ligadas à segurança pública, especialmente reajustes salariais, aposentadorias, ampliação de efetivo e benefícios para corporações policiais.
Em contraste, saúde apareceu como tema central em apenas três discursos, enquanto educação foi dominante em somente quatro falas ao longo de quatro mandatos consecutivos. O percentual coloca Flávio muito acima da média dos demais parlamentares da Alerj no período, já que segurança pública representou apenas 17% dos discursos dos 163 deputados analisados pela pesquisa.
A análise também revela o alinhamento ideológico de Flávio Bolsonaro com pautas conservadoras e com a defesa do regime militar instaurado em 1964. Em diversos pronunciamentos, o senador exaltou as Forças Armadas e fez elogios ao período da ditadura militar, além de defender homenagens ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador durante o regime.
Apesar de atualmente tentar construir uma imagem de “Bolsonaro moderado”, afastando-se parcialmente da retórica mais radical de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, os discursos registrados na Alerj mostram uma atuação centrada quase exclusivamente na segurança pública e em pautas ideológicas da extrema direita.
Defesa permanente de reajustes e benefícios para policiais
Ao longo de sua passagem pela Alerj, Flávio Bolsonaro utilizou repetidamente a tribuna para defender aumentos salariais e benefícios previdenciários para policiais militares e bombeiros.
Em discurso de 19 de abril de 2005, por exemplo, defendeu reajustes salariais que igualariam os soldos da Polícia Militar do Rio aos praticados no Distrito Federal. Segundo ele, os aumentos poderiam chegar a 187% para soldados.
Já em outubro do mesmo ano, criticou duramente a aplicação da reforma da Previdência aprovada pelo governo Lula aos servidores militares do Rio de Janeiro. Na ocasião, classificou a medida como “mais uma facada nas costas desses já maltratados, acovardados servidores públicos militares”.
Em outro pronunciamento, em fevereiro de 2018, atacou propostas que aumentariam o tempo mínimo de aposentadoria de policiais e bombeiros de 30 para 35 anos. “Se passa de 30 para 35 anos de serviço, a tendência é que mais policiais vão morrer na ativa”, afirmou.
Em diversos momentos, Flávio reforçou que a principal demanda das corporações era salarial. Em uma das falas registradas pela Folha, declarou: “Vou repetir, a tropa quer salário. A tropa quer salário para que possa ter dignidade e incentivo para poder prestar um serviço cada vez melhor à nossa população.”
Saúde e educação tiveram espaço residual
Enquanto segurança pública dominava sua atuação parlamentar, saúde e educação praticamente desapareceram dos discursos do então deputado estadual.
Na área da saúde, uma das raras intervenções ocorreu em junho de 2006, quando Flávio defendeu a ampliação de um centro de tratamento de anomalias craniofaciais mantido pelo governo estadual. Em outro episódio, propôs políticas de contracepção em larga escala com o argumento de reduzir gastos do SUS.
Já a educação apareceu principalmente em discursos contrários às políticas de cotas raciais nas universidades estaduais.
Em agosto de 2004, Flávio afirmou da tribuna: “Não adianta ficarmos aqui perdendo tempo discutindo uma lei demagógica como essa cota para negro, cota para não sei quem, cota para deficiente. Daqui a pouco vai ser cota para homossexual, cota para judeu, cota para mulher.”
Três anos depois, comparou políticas de cotas raciais ao nazismo de Adolf Hitler, afirmando que a distinção racial teria sido utilizada pelo regime nazista para promover a ideia de superioridade ariana.
Elogios à ditadura e ataques a minorias
Os discursos também registram manifestações reiteradas em defesa do regime militar instaurado em 1964. Em pelo menos 12 pronunciamentos, Flávio elogiou nominalmente a ditadura.
Em 31 de março de 2010, declarou: “Tomo esta postura desde o meu primeiro dia de mandato nesta Casa em defesa aos militares.”
No ano anterior, chegou a ler na tribuna um manifesto que classificava o golpe militar como “contrarrevolução democrática”, alegando que o movimento teria impedido a implantação de um regime comunista no Brasil.
Flávio também protagonizou discursos contra direitos da população LGBTQIA+. Em uma das falas resgatadas pela reportagem, afirmou:
“O normal é a família ser assim: papai, mamãe e filhinho. Não é a família João e Maurício, não é a família Maria e Paula.”
Em outro momento, criticou uma cerimônia pública de casamento entre pessoas do mesmo sexo financiada pelo governo estadual, classificando o evento como “orgia com o dinheiro público”.
Investigações e desgaste político
A passagem de Flávio Bolsonaro pela Alerj também foi marcada pelas investigações envolvendo suspeitas de “rachadinha” em seu gabinete, além das relações de seu ex-assessor Fabrício Queiroz com o miliciano Adriano da Nóbrega.
Embora os inquéritos tenham sido encerrados, o caso provocou desgaste político no entorno da família Bolsonaro e expôs as conexões do grupo com setores ligados às milícias do Rio de Janeiro.
Defesa da equipe de Flávio
Em nota enviada à Folha, a assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou que sua atuação parlamentar sempre teve como prioridade “enfrentar o avanço do crime organizado e defender a população refém do tráfico e das facções criminosas”.
A equipe também declarou que o senador atuou em outras áreas, incluindo saúde, mobilidade urbana, direitos das pessoas com deficiência e defesa do consumidor.
Segundo os assessores, no Senado Flávio continuou concentrando sua atuação em segurança pública, presidindo a Comissão de Segurança Pública e defendendo medidas como o endurecimento penal e o fim das saídas temporárias de presos.



