O Líbano é aqui
Violência contra civis desafia a indiferença global diante de uma escalada que já ultrapassa fronteiras e princípios humanitários
Os tiros disparados pelo governo de Benjamin Netanyahu durante o processo de cessar-fogo contra o Líbano atingiram o Brasil. Uma mãe e uma criança de 11 anos brasileiras foram mais duas vítimas civis de uma guerra que, há muito, deixou de distinguir alvos militares de vidas inocentes.
Já se somam milhares de civis mortos pelas forças militares israelenses desde o início dos ataques ao território libanês. Entre eles, muitas crianças — corpos que deveriam carregar futuro, mas que passaram a carregar estatísticas. No primeiro dia de ataques mais amplos envolvendo o Irã, o bombardeio de uma escola deixou centenas de crianças mortas, num episódio que sintetiza o grau de brutalidade que marca essa escalada. O que se vê não é apenas um conflito, mas uma dinâmica em que a lógica da segurança se dissolve na prática da punição coletiva.
A mesma lógica se repete em Gaza, onde bairros inteiros são reduzidos a escombros e a população civil é empurrada para um deslocamento contínuo. Estima-se que mais de 1,7 milhão de pessoas — a esmagadora maioria da população do território — já tenham sido forçadas a deixar suas casas ao longo dos ataques recentes. No Líbano, o cenário também é de êxodo: centenas de milhares de pessoas abandonaram suas cidades e vilarejos para fugir dos bombardeios, ampliando uma crise humanitária que atravessa fronteiras.
Até quando o mundo assistirá calado à condução de uma política que transforma o uso da força em estratégia permanente de governo? Até quando a comunidade global aceitará que a alegação de autodefesa sirva de escudo para ações que ultrapassam, reiteradamente, os limites do direito internacional?
E no Brasil, até quando ficaremos alheios a cenas em que pessoas desfilam com bandeiras de Israel pelas ruas, celebrando um governo que acumula denúncias graves contra os direitos humanos? Não se trata de negar o direito de existência de um Estado, mas de reconhecer que nenhum governo está acima das leis que regulam a ordem mundial — sobretudo quando suas ações resultam na morte sistemática de civis.
A política conduzida por Netanyahu já ultrapassou qualquer linha aceitável. Gaza, Irã, Líbano: três frentes que revelam não uma estratégia de contenção, mas um projeto de ampliação do conflito. A história mostra que guerras sem freios morais não produzem segurança — apenas perpetuam ciclos de violência.
Chega. O silêncio não é neutralidade; é cumplicidade. E a indiferença, dentro e fora do Brasil, apenas prolonga uma tragédia que já foi longe demais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



