O marxismo no século XXI
Marxismo no século XXI: a adaptação ao contexto global e a superação do eurocentrismo
O marxismo, caracterizado por Sartre como “a filosofia insuperável do nosso tempo”, chega ao século XXI firme e forte, embora com grandes transformações nas suas temáticas, abordagens e localização geográfica.
Se o século XX foi caracterizado pelo peso da produção da Europa – especialmente da França, da Inglaterra e da Alemanha – o marxismo do século XXI tem características próprias e localizações geográficas distintas.
Este século viu emergir uma produção teórica fundamental na América Latina e em autores que rompem com o “eurocentrismo” típico do século passado. Eric Hobsbawm foi o historiador de maior influência no século XX, com suas Eras – A era das revoluções, A era do Capital, A era dos Impérios, A Era dos extremos – conformando um conjunto sistemático muito rigoroso, embora com as limitações do “eurocentrismo”.
Já o mais importante historiador deste século vai numa direção oposta. Trata-se do também britânico Peter Frankopan, que parte da crítica ao “eurocentrismo”, uma visão que considerava a Europa o centro do mundo e o resto como sua periferia. Uma visão em que fomos todos formados no século passado.
Frankopan, em suas obras principais, A história do mundo – do Big Bang até nossos dias, O coração do mundo – Uma nova história universal a partir da Rota da Seda, o encontro do Oriente com o Ocidente, e As novas rotas da seda – o presente e o futuro do mundo, reescreve a história do mundo, incluindo o lugar central da Ásia.
Ele retoma o papel central que a China tinha no mundo, até que o Ocidente e, em especial, a Inglaterra, introduziram o consumo do ópio na China, que eles fabricavam na sua outra grande colônia, a Índia. Com isso, levaram ao longo processo de decadência da China, do qual o país sai agora.
E sai para voltar a se tornar um país fundamental no mundo, tornando-se líder no plano tecnológico e disputando com os Estados Unidos em poderio econômico.
Por sua vez, o marxismo no século XXI se desloca da Europa para a América Latina e para a Ásia. Aqui, o pensador mais importante da segunda metade do século passado foi o brasileiro Ruy Mauro Marini. Neste século, esse papel é ocupado pelo boliviano Álvaro García Linera, entre tantos outros pensadores importantes no continente.
Um evento realizado recentemente por uma editora tem todas as características dos eventos do século passado, desconhecendo o caráter histórico do marxismo e representando um desserviço ao materialismo dialético, por sua visão dogmática. Sem captar as novidades radicais do marxismo neste século, parecia um evento realizado no século passado, sem ter deixado nenhuma contribuição, ao contrário, para o marxismo realmente existente.
A ausência de autores e das suas obras, como Peter Frankopan e Álvaro García Linera, revela como um evento como esse não tem nada a acrescentar no que é o marxismo contemporâneo. Desconhece o mais importante historiador do século XXI e o melhor pensador latino-americano. Basta isso ficar claro para percebermos como eventos como esses não contribuem para a difusão do marxismo.
O marxismo segue firme e forte no século XXI, com a visão correta de que o que há de permanente no marxismo é o seu método que, aplicado a realidades concretas, permite avançar na compreensão dos fenômenos da nossa história. Sem esta visão, ele ficaria reduzido a dogmas, incapazes de desvendar a realidade concreta. Podemos, assim, repetir, com exemplos concretos, que “o marxismo é a filosofia insuperável do nosso tempo”.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



