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Alysson Mascaro diz que a esperança é a revolução social e critica saídas individuais para a crise do presente

Jurista e filósofo afirma, em curso aberto, que o capitalismo produz simultaneamente ilusões de ascensão e mecanismos de desesperança

Alysson Mascaro (Foto: Reprodução Youtube)

247 – Em aula inaugural do curso aberto “A esperança”, realizada no dia 11 de abril de 2026 no Sindilex, em São Paulo, o jurista e filósofo Alysson Mascaro defendeu que a esperança não pode ser tratada como um problema meramente individual, psicológico ou motivacional. A exposição foi transmitida pela TV 247.

Logo na abertura, Mascaro situou o sentido político e histórico da reflexão. “Eu não podia neste curso da volta falar de outro tema que não seja a esperança, porque o tempo nosso e da humanidade é de desesperança”, afirmou. A partir dessa premissa, ele construiu uma longa análise sobre a crise contemporânea, o papel do capitalismo na formação subjetiva dos indivíduos e as diferentes formas históricas de pensar a relação entre esperança e desesperança.

Ao longo da aula, o filósofo também saudou o sindicato que sediou o encontro, a equipe da TV 247 e os participantes presentes, em um registro de forte vínculo político e afetivo. O ponto central, no entanto, foi outro: a ideia de que a esperança, longe de ser apenas uma virtude íntima ou um atributo da personalidade, está profundamente ligada às condições materiais da vida social.

Esperança não é autoajuda

Uma das teses mais enfatizadas por Mascaro é a de que a sociedade capitalista tenta reduzir a esperança ao indivíduo isolado. Para ele, esse deslocamento serve para esconder os determinantes históricos, econômicos e políticos que moldam a vida concreta.

“Não adianta fazermos como faz hoje o liberalismo e o individualismo do capitalismo, que tentam resumir o problema da esperança e da desesperança aos quadrantes do indivíduo só ele”, disse. Em seguida, criticou diretamente a lógica da autoajuda e do coaching como falsas respostas para o sofrimento social. “Nós não podemos reduzir os quadrantes da esperança à condição do indivíduo, senão o resultado imediato disso é fazer com que a solução da esperança, da desesperança, no caso, seja o auxílio de coach”.

A crítica de Mascaro mira um dos traços mais característicos do presente: a crença de que bastaria ajustar a mentalidade, cultivar pensamento positivo ou adotar métodos de performance para superar a angústia. Em sua leitura, esse discurso não liberta ninguém. Ao contrário, aprofunda a responsabilização individual e despolitiza o sofrimento.

Ainda assim, ele fez uma ressalva importante. O indivíduo, disse, não pode ser ignorado, porque a vida social é também um conjunto de relações entre indivíduos. Mas essa dimensão subjetiva só pode ser compreendida em articulação com a totalidade histórica. “O problema da esperança é um problema social, histórico, material”, resumiu.

Um tempo em que a vida parece piorar

Mascaro procurou mostrar que há momentos históricos mais inclinados à esperança e outros mais inclinados à desesperança. Sem negar que todo ser humano vive oscilações emocionais ao longo da vida, ele insistiu que a experiência social do presente tem especificidades próprias.

Segundo ele, no século XX havia a percepção de que estudo, trabalho e esforço poderiam conduzir a uma vida melhor do que a da geração anterior. Hoje, essa promessa se encontra em ruínas. “No século XX, as pessoas têm impressão de que com estudo, garra, força, luta, a vida não melhora e é possível que elas tenham a vida pior do que a dos seus pais”, afirmou.

A observação toca num sentimento amplamente disseminado nas sociedades capitalistas contemporâneas: o de que o futuro deixou de ser um horizonte de ascensão para se converter em medo, precariedade e regressão. Na leitura do filósofo, isso não decorre de fragilidades morais individuais, mas de uma deterioração concreta das formas de vida.

Ele associou essa mutação ao bloqueio das possibilidades de transformação social. Quando o mundo aparece como fechado, quando o sujeito sente que nada pode ser mudado, a esperança se enfraquece. E, nesse cenário, fórmulas vagas de consolo se mostram insuficientes.

“É muito difícil pensarmos nós em esperança num nível apenas idealista ou abstrato, porque acaba sendo então algo como: ‘Tenha fé, ninguém sabe o dia de amanhã’”, observou. Para ele, frases desse tipo, que parecem reconfortantes, podem funcionar justamente como expressão da impotência diante da realidade.

Trump, guerra e a banalização do abismo

Em um dos trechos mais impactantes da aula, Mascaro recordou uma entrevista concedida dias antes ao programa Bom Dia 247, na qual comentava declarações do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo o filósofo, o anúncio de que uma civilização poderia ser “varrida do mapa” em poucos dias expunha a gravidade do tempo histórico contemporâneo. Donald Trump é, de fato, o atual presidente dos Estados Unidos. 

Ao rememorar o episódio, Mascaro destacou o contraste entre a ameaça extrema e a rápida normalização da barbárie. “No domingo o Trump disse que na terça-feira ele varreria uma civilização do mapa”, relatou. Depois, refletiu sobre o fato de que, passados alguns dias, o mundo seguia funcionando como se nada de extraordinário tivesse ocorrido. “Passa a terça, já percebemos que é mais do mesmo e não muda também”.

A observação serve, em sua argumentação, para demonstrar como a contemporaneidade convive com uma espécie de suspensão permanente entre catástrofe e rotina. O mundo parece sempre à beira do colapso, mas continua operando sob a lógica habitual do capital. Essa combinação, para ele, corrói a possibilidade de imaginar uma saída histórica consistente.

O capitalismo vende esperança e também desesperança

Um dos eixos mais originais da exposição foi a ideia de que o capitalismo não produz apenas falsas promessas de ascensão. Ele fabrica também a desesperança, e faz isso de maneira organizada.

“O capitalismo é tão dominante que ele produz, a palavra é essa, esperança para ingênuos e esperançados. E ele produz desesperança para os ditos realistas desesperançados”, afirmou.

De um lado, explicou, o sistema dissemina a ilusão de que qualquer pessoa poderá enriquecer se tiver disciplina, disposição e iniciativa. É o discurso do empreendedorismo heroico, da meritocracia e da ascensão individual. De outro, quando essa narrativa se esgota, o próprio sistema oferece o reverso: a certeza amarga de que ninguém sairá do lugar.

Mascaro descreveu essa dinâmica como uma engrenagem completa de captura subjetiva. Primeiro, vende-se a promessa. Depois, vende-se o desencanto. Em ambos os casos, o horizonte coletivo é desfeito e o indivíduo permanece preso a respostas privadas, mercantilizadas e impotentes.

Televisão, religião, remédio e guru

Na avaliação do filósofo, a desesperança também é produzida por aparelhos ideológicos e mediáticos. Ele citou os programas policialescos, o sensacionalismo televisivo e a exploração sistemática do medo como parte desse processo.

“A desesperança, eu também quero dizer aqui de pronto, é uma produção”, declarou. Em seguida, acrescentou: “Há uma produção da desesperança na televisão”.

Mascaro descreveu uma cadeia simbólica na qual a mídia agrava o sentimento de insegurança e, mais tarde, outras instâncias vendem soluções adaptativas. “Se houver televisão e os canais forem concessões e estas concessões, todas elas, ou a maioria delas, às 6 da tarde passarem programas policialescos, todo mundo na hora que chegar em casa pro seu trabalho, às 6 da tarde só vê a tragédia”, disse.

Na sequência, ele associou essa pedagogia do medo ao mercado religioso e terapêutico. “6 da tarde abre o apetite, 11 da noite vende o prato”, afirmou, ao comentar programas religiosos que oferecem salvação espiritual depois da exibição incessante da violência.

O raciocínio foi ampliado para abarcar também gurus, medicamentos psiquiátricos, fórmulas motivacionais e toda a indústria do bem-estar individual. Para Mascaro, o capitalismo cria saídas para todos os perfis subjetivos, mas todas mantêm o problema no plano privado, sem tocar as estruturas sociais que produzem o sofrimento.

A história da esperança

Outra parte central da aula foi dedicada a um grande percurso histórico sobre as formas de organização da esperança. Mascaro sustentou que a esperança não é uma substância eterna e idêntica a si mesma. Ela muda de qualidade conforme mudam as sociedades.

“O que alguém no passado pensava por esperança pode não parecer com nada com aquilo que nós hoje pensamos por esperança”, disse. Por isso, argumentou, não se trata apenas de medir mais ou menos esperança ao longo do tempo, mas de compreender modos historicamente distintos de organizar o sentido da vida e da história.

Ao abordar a Antiguidade, ele destacou a predominância de uma percepção circular do tempo histórico. Segundo sua leitura, as sociedades antigas tendiam a conceber a vida como fluxo, ascensão e declínio, repetição de ciclos, renovação das gerações. Nessa configuração, não haveria uma promessa linear e acumulativa de progresso.

Já na Idade Média ocidental, afirmou, a esperança social teria se retraído fortemente, enquanto a esperança teológica ganhava centralidade. A salvação deixava de estar ligada ao mundo terreno e se concentrava no além. “Os medievais tinham desesperança em relação à história”, sintetizou.

Foi nesse ponto que Mascaro formulou uma das passagens mais fortes da aula: “Quanto mais sentimento de desesperança tiver uma pessoa, mais é prova de que Jesus voltará”. A frase resume sua interpretação de como a teologia medieval converte o agravamento da realidade em confirmação da promessa salvífica.

Na modernidade, por sua vez, o quadro se transforma com a ascensão da burguesia, do Iluminismo e, depois, do capitalismo industrial. A partir daí, a história passa a ser pensada como linha de progresso, aperfeiçoamento técnico e domínio crescente da natureza. Segundo Mascaro, é nesse ambiente que a esperança se torna fortemente associada à ideia de progresso material.

Capitalismo, progresso e contradição

Apesar de criticar duramente o capitalismo, Mascaro não o descreve de forma simplista. Ao tratar do pensamento liberal, observou que esse campo tende a enxergar o progresso técnico como resposta suficiente para os males sociais, convertendo a esperança em confiança na racionalidade técnica e na ação individual.

Mas sua posição filosófica caminha em outra direção. Ao recuperar Marx, ele argumentou que o capitalismo é contraditório: ao mesmo tempo que expande forças produtivas e capacidades técnicas inéditas, bloqueia a universalização real dessas conquistas.

Em termos concretos, a técnica poderia permitir que a humanidade enfrentasse problemas históricos de alimentação, transporte, saúde e produção. Mas, submetida à lógica do lucro, ela não se converte automaticamente em emancipação humana. O progresso material existe, porém é capturado por relações de exploração.

Daí a crítica ao ambientalismo liberal, às soluções cosméticas e ao reformismo que promete corrigir os excessos sem alterar a estrutura. Em sua exposição, Mascaro rejeitou tanto a fé cega no mercado quanto a crença de que ajustes pontuais resolverão a crise civilizatória.

A esperança como revolução

No fecho da aula, Mascaro apresentou a formulação mais incisiva de sua reflexão: a esperança, para ele, não está nem na adaptação individual nem na espera passiva por uma redenção transcendente. Ela está na ação coletiva de transformação radical da sociedade.

“A esperança é a revolução”, afirmou. Em seguida, reforçou o caráter concreto, arriscado e conflitivo dessa perspectiva: “A revolução é a luta”.

A frase desmonta qualquer tentativa de reduzir a esperança a sentimento agradável, conforto emocional ou promessa de conciliação. Na visão do filósofo, a esperança real não é colorida pela harmonia abstrata, mas pela dureza da disputa histórica. Por isso, acrescentou em uma das imagens mais fortes da exposição: “A esperança não é verdade, a esperança é vermelha de sangue”.

Essa formulação final recoloca o tema no terreno da política. Em vez de tratar a esperança como estado subjetivo privado, Mascaro a inscreve na tradição das lutas sociais, sindicais e populares. Não por acaso, sua aula foi realizada justamente em um sindicato, espaço que ele associou à resistência organizada e à confrontação das condições sociais existentes.

Um diagnóstico do presente

Mais do que uma conferência filosófica, a aula de Alysson Mascaro ofereceu um diagnóstico duro do presente. Ao longo de mais de três horas, ele apresentou a desesperança contemporânea como produto histórico de uma sociabilidade marcada por precarização, mercantilização da vida, medo difuso e bloqueio das alternativas coletivas.

Sua crítica alcança o coaching, o empreendedorismo moral, o mercado religioso, a medicalização do sofrimento, o tecnicismo liberal e a ideologia de progresso automático. Ao mesmo tempo, recusa o fatalismo puro e simples. A saída, para ele, não está em negar a tragédia do tempo, mas em recolocar a esperança no campo da transformação material da sociedade.

É nesse sentido que sua fala adquire densidade política. Em vez de consolar, ela convoca. Em vez de prometer alívio rápido, insiste na luta histórica. E, ao fazer isso, recoloca uma questão central para o Brasil e para o mundo: como reconstruir horizontes coletivos num tempo em que o capital produz, ao mesmo tempo, falsas promessas de salvação e uma máquina permanente de desesperança?

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