Alysson Mascaro defende reconstrução da esperança e propõe nova estratégia para mobilizar o povo brasileiro
Filósofo afirma que crise do capitalismo gera desesperança global e sustenta que a esquerda precisa disputar valores e emoções
247 – Em participação no programa Bom Dia 247, o filósofo Alysson Mascaro apresentou uma profunda reflexão sobre o cenário de desesperança no mundo contemporâneo e defendeu a necessidade de reconstruir a esperança como motor de transformação social. A análise foi feita durante conversa com Leonardo Attuch e Aquiles Lins, na edição especial de Páscoa do programa, transmitido pela TV 247.
Mascaro sustentou que a atual fase do capitalismo produz um sentimento generalizado de frustração e falta de perspectivas, afetando especialmente as novas gerações. Segundo ele, trata-se de um fenômeno estrutural, e não apenas individual.
“Hoje a maior parte das pessoas no mundo tem um sintoma psíquico muito pronunciado de desesperança. A vida não anda como ela desejava”, afirmou.
Crise do capitalismo e produção da desesperança
O filósofo explicou que, ao contrário de períodos anteriores, quando havia a percepção de progresso social, o mundo atual é marcado pela sensação de retrocesso. Ele destacou que, nas últimas décadas, a promessa de melhoria contínua foi substituída por insegurança e frustração.
Para Mascaro, o capitalismo contemporâneo deslocou o eixo da realização humana para o consumo, criando uma armadilha psicológica.
“As pessoas não querem ser ricas, querem consumir. E quando não conseguem, acreditam que o fracasso é individual”, disse.
Ele criticou o modelo que responsabiliza o indivíduo por sua própria condição, ignorando fatores estruturais.
“A sociedade bombardeia as pessoas para dizer que a culpa é delas. Isso gera depressão, tristeza e ausência de horizonte”, completou.
Esperança como força política e não ilusão
Ao abordar o conceito de esperança, Mascaro dialogou com o filósofo alemão Ernst Bloch, destacando que a esperança não deve ser vista como fuga da realidade, mas como força concreta de transformação histórica.
Segundo ele, há uma diferença entre utopias abstratas e utopias concretas. Estas últimas estão enraizadas nas condições reais da sociedade e podem orientar mudanças efetivas. “É um dever de esperança no tempo da desesperança. Precisamos destravar os obstáculos sociais”, afirmou.
O filósofo ressaltou que mudanças estruturais — como controle de riquezas nacionais e reorganização econômica — são fundamentais para reacender a esperança coletiva. Ele citou exemplos como recursos naturais e empresas estratégicas, defendendo que sua apropriação pelo povo poderia gerar novas perspectivas sociais.
Crítica à esquerda liberal e disputa de valores
Um dos pontos centrais da fala de Mascaro foi a crítica à estratégia da chamada esquerda liberal. Ele argumentou que esse campo político tem falhado ao focar apenas em melhorias de consumo, sem disputar valores mais profundos da sociedade.
“A esquerda liberal só vende consumo. Enquanto isso, a direita capturou valores como família, ordem e pertencimento”, afirmou.
Mascaro destacou que esses valores, embora apropriados pela extrema direita, têm origem em formas sociais anteriores ao capitalismo e ainda mobilizam emocionalmente grande parte da população.
“Existe um estoque de energia no ser humano capaz de perder dinheiro em troca de um ideal. E a direita capturou isso”, explicou.
Mobilização popular e linguagem política
O filósofo defendeu que a transformação social exige uma nova forma de comunicação política, capaz de dialogar diretamente com o povo e mobilizar emoções.
Ele criticou discursos excessivamente técnicos e desconectados da realidade popular. “Não adianta falar como contador explicando planilha. O povo precisa ser tocado”, disse, ao comparar estratégias políticas que falham em gerar engajamento.
Mascaro argumentou que a esquerda precisa disputar corações e mentes com mais intensidade, inclusive resgatando valores comunitários e coletivos.
Religião, poder e disputa ideológica
Outro eixo importante da análise foi o papel das religiões na organização social e política. Mascaro afirmou que elas historicamente funcionam como instrumentos de poder, mas também reconheceu sua força na formação de vínculos sociais.
“A religião é um exercício do poder. Mas o povo foi constituído como religioso e não pode ser tratado com desprezo”, afirmou.
Ele defendeu que a abordagem progressista deve dialogar com a religiosidade popular, reinterpretando seus valores em favor da solidariedade e da justiça social. “Vamos acreditar juntos que o próximo é nosso irmão. Isso pode construir uma maioria de amor”, disse.
Crítica ao imperialismo e ao cenário internacional
Mascaro também analisou o contexto geopolítico, especialmente a postura dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump, atual presidente do país. Ele classificou as ameaças recentes como sinais de fragilidade do poder imperial.
“Quem diz ‘me segura que eu vou bater’ geralmente não bate. Esse tipo de reação revela fraqueza”, afirmou.
Segundo o filósofo, o mundo vive uma aceleração histórica, com riscos reais, mas também oportunidades de transformação. “Pode acontecer tudo ou pode não acontecer nada. Mas a esperança não depende deles, depende de nós”, destacou.
Esperança como prática de transformação
Encerrando sua participação, Mascaro reforçou que a esperança não é um sentimento passivo, mas uma prática ativa e coletiva.
“A luta faz a esperança. Se não houver enfrentamento, não há esperança”, afirmou.
Ele anunciou ainda a realização de um curso aberto em São Paulo, no qual pretende aprofundar essas reflexões e discutir caminhos para reconstrução da esperança em meio à crise global.
A fala de Mascaro marcou o debate ao propor uma reorientação estratégica para o campo progressista, baseada na combinação entre análise estrutural, mobilização emocional e disputa ideológica — elementos que, segundo ele, são essenciais para a construção de um novo projeto de sociedade.

