Alysson Mascaro oferece curso aberto sobre “A esperança” em tempos de crise aguda do capitalismo
Filósofo propõe reflexão crítica sobre subjetividade, política e transformação social em atividade gratuita em São Paulo
247 – O filósofo e jurista Alysson Leandro Mascaro realizará, no próximo dia 11 de abril de 2026, um curso aberto ao público sobre o tema “A esperança”, abordando suas dimensões filosóficas, políticas e subjetivas em meio à crise contemporânea do capitalismo. A atividade será gratuita e ocorrerá no auditório do SINDILEX, localizado na Rua Japurá, 43, Bela Vista, em São Paulo.
Com duração integral ao longo do dia, das 9h30 às 12h e das 13h30 às 16h30, o curso será dividido em três eixos principais e pretende discutir a esperança não como um conceito abstrato ou meramente motivacional, mas como elemento central da ação política e da transformação social.
Crise do capitalismo e produção da desesperança
Na apresentação do curso, Mascaro parte de um diagnóstico contundente: o capitalismo atual consolidou uma ideologia da impossibilidade de mudança estrutural. Em vez de estimular transformações, o sistema promove conformismo, individualismo e adaptação às estruturas existentes.
O filósofo destaca que, ao longo da modernidade, especialmente até meados do século XX, predominava a crença de que mudanças profundas eram possíveis e desejáveis. No entanto, esse horizonte foi progressivamente substituído por uma cultura de desesperança, na qual as novas gerações passam a desacreditar na transformação histórica e social.
Mascaro critica tanto as ilusões individualistas — que tratam a esperança como mera vontade pessoal — quanto os discursos “realistas” que negam alternativas ao capitalismo. Para ele, ambos reproduzem, sob formas distintas, a ideologia dominante.
Esperança como utopia concreta e ação revolucionária
Um dos pontos centrais do curso será a concepção de esperança como “utopia concreta”. Trata-se, segundo Mascaro, da articulação entre condições objetivas e subjetivas que permitem vislumbrar e construir transformações reais.
Inspirado em tradições marxistas e no pensamento de Ernst Bloch, o curso propõe compreender a esperança como força histórica vinculada à luta contra exploração, dominação e opressão. Em contextos de crise, essa dimensão ganha ainda mais relevância.
Mascaro sustenta que, justamente nos períodos em que os indivíduos são levados a acreditar que não há alternativas, a filosofia da esperança se torna uma ferramenta decisiva para a ação política e a ruptura com a ordem vigente.
Três caminhos políticos: conservadorismo, reação e revolução
No eixo político do curso, o filósofo analisará três formas de lidar com a esperança na contemporaneidade: o conservadorismo, o reacionarismo e a perspectiva revolucionária.
No campo liberal-conservador, a esperança é reduzida à esfera individual, limitada à adaptação ao que já existe. No reacionarismo, ela é vista como ameaça ou irresponsabilidade. Já na abordagem crítica e marxista, a esperança é entendida como impulso para a transformação concreta da realidade.
Essa distinção permite compreender como diferentes correntes políticas disputam o próprio significado da esperança, seja para neutralizá-la, seja para mobilizá-la como força histórica.
Subjetividade, sofrimento e bloqueios à esperança
O curso também se debruçará sobre a dimensão subjetiva da crise contemporânea. Mascaro analisa como o capitalismo molda indivíduos incapazes de enxergar possibilidades de mudança, seja pela lógica da mercadoria, seja por mecanismos ideológicos de identificação com o sistema.
Entre os efeitos desse processo estão o desânimo, a depressão e a adesão ao status quo. A subjetividade contemporânea, segundo o filósofo, é estruturada para rejeitar o novo e impedir a emergência de alternativas.
A esperança como força de transformação
Ao final, Mascaro aponta que a reconstrução da esperança passa necessariamente pelo enfrentamento direto das contradições do capitalismo. A crise, longe de ser apenas destrutiva, abre espaço para dinâmicas inovadoras e transformadoras.
A esperança, nesse sentido, não é passiva nem ilusória: ela depende da produção de desejo por aquilo que ainda não existe. É a partir desse movimento que se torna possível articular prazer, transformação social e projeto revolucionário.
Com essa proposta, o curso se apresenta como uma intervenção intelectual e política voltada a recolocar a esperança no centro do debate contemporâneo e das lutas sociais.
Saiba quem foi Ernst Bloch
Ernst Bloch foi um dos mais importantes filósofos marxistas do século XX e é conhecido, sobretudo, como o “filósofo da esperança”.
Ele nasceu em 1885, na Alemanha, e desenvolveu uma obra profundamente original, que buscava resgatar o papel da utopia, do desejo e da esperança dentro do pensamento marxista — algo que, até então, era muitas vezes tratado de forma mais econômica e estrutural.
A filosofia da esperança
A principal obra de Bloch é “O Princípio Esperança” (Das Prinzip Hoffnung), na qual ele argumenta que a esperança não é uma ilusão ou fuga da realidade, mas uma força concreta que move a história.
Para ele, os seres humanos vivem orientados por aquilo que chamou de “ainda-não” (Noch-Nicht) — ou seja, aquilo que ainda não existe, mas pode vir a existir. Esse “ainda-não” aparece nos sonhos, na arte, na religião e nas lutas sociais.
Utopia concreta
Bloch fez uma distinção fundamental entre dois tipos de utopia:
- Utopia abstrata: ilusões vagas, sem base na realidade
- Utopia concreta: possibilidades reais, enraizadas nas condições históricas
É essa segunda que interessa ao pensamento revolucionário. A esperança, nesse sentido, não é ingenuidade — é um instrumento de transformação.
Relação com o marxismo
Bloch foi um marxista heterodoxo. Ele ampliou o marxismo ao incorporar elementos culturais, subjetivos e simbólicos — como mitos, religiões e desejos coletivos.
Ele via o socialismo não apenas como uma mudança econômica, mas como a realização de um futuro mais humano, que já está latente no presente.
Influência
Sua obra influenciou profundamente filósofos, sociólogos e pensadores críticos, especialmente aqueles interessados em política, cultura e subjetividade — como o próprio Alysson Mascaro.


