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Brasil 2050: Mascaro defende “palavra positiva” para mobilizar contra o imperialismo

Professor diz que a disputa ideológica é o obstáculo imediato e cobra horizonte afirmativo de longo prazo para reorganizar projeto nacional

Alysson Mascaro concede entrevista ao jornalista Leonardo Attuch, da TV 247 (Foto: Nicolas Iwashita)

247 - A entrevista do professor Alysson Leandro Mascaro à TV 247 saiu do terreno estritamente geopolítico para mirar um ponto que ele considera decisivo para o futuro do Brasil: a batalha ideológica e a falta de um projeto afirmativo capaz de mobilizar a sociedade. No diálogo, Mascaro sustentou que, sem um horizonte claro de longo prazo, o país tende a permanecer preso a soluções curtas e a “migalhas”, mesmo diante de um cenário internacional cada vez mais tenso.

A conversa, exibida na TV 247, foi conduzida por Leonardo Attuch e percorreu a relação do Brasil com o imperialismo, os dilemas de industrialização e o papel das narrativas na organização política. Ao comentar o momento global, Mascaro também citou Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, como expressão de um ciclo de conflito e instabilidade, mas insistiu que o centro do debate precisa ir além de personagens e governos. 

“O ideológico é o imediato”, diz professor

Ao longo da entrevista, Mascaro defendeu que transformações profundas não se produzem apenas por alternância eleitoral, e que o primeiro bloqueio para qualquer mudança é a forma como a sociedade enxerga — ou deixa de enxergar — sua própria posição no mundo.

Em um dos trechos centrais, ele afirmou: “Antes disso tem um problema imediato e o problema imediato é o ideológico.” Na mesma linha, completou que a disputa de ideias não seria “o centro final” das contradições sociais, mas o ponto sem o qual não se começa sequer a formular hipóteses sobre o que fazer.

A pergunta que antecede todas as outras

Na avaliação do professor, debates sobre parcerias internacionais e rotas econômicas esbarram numa questão anterior, que raramente é colocada com franqueza. “A pergunta básica é: o Brasil quer se industrializar?”, disse, ao sustentar que só depois dessa decisão é que entrariam os cálculos e as estratégias.

Mascaro criticou a trajetória de desindustrialização associada ao neoliberalismo e apontou que o país teria acumulado estrutura e mercado consumidor suficientes para ser “um peso no mundo”, mas sem um arranjo político voltado a esse objetivo.

“Não” não mobiliza: a defesa de uma narrativa afirmativa

O professor argumentou que campanhas e discursos baseados principalmente em negações têm baixa capacidade de mobilização social. Ele foi direto: “A mobilização de uma sociedade em termos de transformação ideológica deve ser algum sim.”Na sequência, Mascaro explicou por que, segundo sua leitura, o apelo ao “não” tende a fracassar: “Toda vez que nós operamos simplesmente para dizer, nós não devemos ser neoliberais, nós enxugamos gelo.” Para ele, a construção de um projeto nacional exige uma identidade política positiva — algo que “dê orgulho” e organize um rumo de futuro.

Plano de décadas, não de quatro anos

O debate avançou para a necessidade de horizonte temporal mais longo do que o ciclo eleitoral. Mascaro defendeu que a disputa presidencial não deveria se limitar a promessas imediatas: “O grande elemento organizador da eleição presidencial de 2026 não deveria ser um plano pros próximos 4 anos, deveria ser um plano pelo menos para os próximos 20 ou 30 anos.”Ele sintetizou essa exigência com uma fórmula: “É um Brasil 2050.” A ideia, segundo o professor, é oferecer uma visão que atravesse gerações e funcione como eixo de mobilização coletiva.

Direita fala “prosperidade”; esquerda fala em negativo

Na parte final, Mascaro fez uma comparação sobre quais palavras hoje conseguem ativar afetos sociais e mover pessoas. Ele observou que “por enquanto” quem tem falado com mais eficácia ao desejo popular é a direita, ainda que, na sua avaliação, com conteúdos equivocados. “Somente algo que nos dê orgulho” e apresente uma possibilidade concreta de futuro poderia reorganizar o campo progressista, disse, ao defender que a disputa não é apenas de diagnóstico, mas de capacidade de produzir esperança e sentido.

Sem encerrar com previsões, o professor deixou uma orientação de método: decompor as peças do jogo global e, ao mesmo tempo, construir no plano interno uma linguagem afirmativa capaz de sustentar mudanças estruturais — porque, como insistiu, sem esse “sim” mobilizador, o país tende a continuar preso à lógica do curto prazo.

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