Crise do império e novo eixo global: Mascaro analisa cenário mundial
Professor avalia declínio relativo dos Estados Unidos, ascensão chinesa e desafios do Brasil diante da disputa geopolítica
247 - Em entrevista concedida à TV 247, o professor Alysson Leandro Mascaro traçou um amplo panorama sobre as transformações da geopolítica mundial, abordando o que considera ser um processo de declínio relativo dos Estados Unidos e a consolidação da China como novo polo de acumulação econômica global. A conversa, conduzida pelo jornalista Leonardo Attuch, editor-responsável pelo Brasil 247, partiu dos acontecimentos recentes no cenário internacional para discutir tendências estruturais do capitalismo nos últimos dois séculos.
Ao longo da entrevista, Mascaro defendeu que o momento atual não pode ser compreendido apenas por eventos isolados ou lideranças específicas, mas sim por mudanças profundas no eixo da acumulação capitalista.
Capitalismo, acumulação e mudança de hegemonia
Para Mascaro, o capitalismo moderno tem cerca de 200 anos e nasce com a Revolução Industrial. Desde então, afirma, a lógica da acumulação é o elemento estruturante da política e da geopolítica global. “Quem acumula mais ganha mais poder”, resumiu.
No século XIX, segundo ele, o centro da acumulação esteve concentrado na Inglaterra e, em menor medida, na França. Esse poder econômico sustentou a expansão colonial europeia. Já no século XX, a liderança foi transferida para os Estados Unidos, que, após as duas guerras mundiais, assumiram a posição de potência hegemônica.
Mascaro observa que essa transição foi relativamente suave porque se deu dentro de um mesmo universo cultural e linguístico. “O capitalismo falava inglês”, afirmou, destacando que a hegemonia apenas mudou de polo dentro do mundo anglófono.
China e a aposta na produção
A novidade das últimas décadas, segundo o professor, está na ascensão chinesa. Ele argumenta que, ao contrário dos Estados Unidos, que desde os anos 1970 aprofundaram um modelo de financeirização, a China optou por reinvestir na produção industrial.
“A estratégia de acumulação da China é capitalista: produzir por X, vender por mais que X e entesourar a partir daí”, explicou. No entanto, a diferença estaria no foco estrutural: enquanto os EUA teriam privilegiado a hiperacumulação financeira, baseada em títulos e ativos, a China consolidou sua base industrial e tecnológica.
Mascaro critica a leitura que reduz a disputa a produtos específicos, como semicondutores. “Não se trata de ter um chip melhor. Trata-se de uma estratégia geral de sustentação da produção e da acumulação”, afirmou, rejeitando o que chamou de “fetichismo do objeto”.
Ele sintetizou a diferença com uma imagem provocativa: de um lado, uma sociedade voltada às engenharias e às ciências exatas; de outro, um ambiente dominado por financeirização e cultura de celebridades.
Declínio relativo e poder militar
Na avaliação do professor, os Estados Unidos mantêm enorme capacidade econômica, mas enfrentam declínio relativo diante do crescimento chinês. Esse cenário produziria tensões crescentes.
“Quanto mais declina, mais redundará em violência, em exército, em guerra”, disse, ao analisar o peso do poder militar norte-americano. Para ele, a sustentação da hegemonia estadunidense tem recorrido com maior intensidade à dimensão militar, enquanto a China priorizaria expansão econômica e influência comercial.
Mascaro sustenta que o modelo estadunidense, baseado na financeirização, carrega fragilidades estruturais. Em uma crise de liquidez mais profunda, argumenta, a desconexão entre ativos financeiros e base produtiva poderia gerar instabilidade sistêmica.
Brasil entre dependência e potencial
Ao abordar o Brasil, Mascaro diferenciou o enfrentamento a governos específicos do enfrentamento a uma estrutura geopolítica mais ampla. Ele considera que o país possui base produtiva, mercado interno e recursos estratégicos suficientes para desempenhar papel relevante no cenário internacional.
Contudo, avalia que há um entrave ideológico e estrutural. “A pergunta básica é: o Brasil quer se industrializar?”, questionou. Para ele, sem uma decisão estratégica de longo prazo, qualquer debate sobre alinhamentos internacionais torna-se superficial.
Mascaro também criticou o que considera submissão ideológica ao imperialismo e ao neoliberalismo, defendendo que transformações estruturais não ocorrem apenas por alternância eleitoral. “Uma sociedade muda quando altera sua estrutura produtiva e de acumulação”, afirmou.
A disputa ideológica e a “palavra positiva”
Na parte final da entrevista, o professor concentrou-se na dimensão ideológica. Segundo ele, projetos políticos que se organizam apenas em torno de negações — “não ao imperialismo”, “não ao neoliberalismo” — têm pouca capacidade mobilizadora.
“A mobilização de uma sociedade deve ser um ‘sim’”, afirmou. Ele argumenta que as transformações exigem um horizonte positivo, capaz de gerar identificação coletiva e perspectiva de futuro.
Mascaro defendeu que um projeto nacional precisa oferecer uma visão concreta de prosperidade, soberania e desenvolvimento de longo prazo. “Somente algo que nos dê orgulho, que nos dê vontade de poder ser um país no mundo positivo, soberano, com pujança, consegue mobilizar”, declarou.
Ao concluir, destacou que o desafio brasileiro não é apenas resistir a pressões externas, mas formular um projeto afirmativo capaz de reorganizar a estrutura produtiva e ideológica do país diante da reconfiguração do poder global.

