Ideologia e desejo: Mascaro diz que a revolução precisa disputar os aparelhos
Jurista afirma que a ideologia opera no inconsciente e que o capitalismo se sustenta como máquina de produção de desejo
247 - A ideologia, para além de opiniões conscientes e escolhas “racionais”, opera num nível mais profundo: o do inconsciente e das práticas repetidas que moldam a vida social. Essa é a linha central defendida pelo jurista e professor Alysson Leandro Mascaro em entrevista ao programa Revolução Molecular, da TV 247, em uma conversa dedicada à teoria crítica, subjetividade e disputa política.
Na entrevista ao programa Revolução Molecular, Mascaro apresentou um percurso que vai de Karl Marx a Louis Althusser, articulando a ideia de que transformar a sociedade não se resolve apenas com “conscientização” ou com mudanças administrativas no Estado. Para ele, a chave está em enfrentar a forma como o capitalismo produz desejo e naturaliza suas regras por meio de “aparelhos” sociais — como escola, mídia, família e religião.
Do pensamento crítico à necessidade de articular teoria e prática
Mascaro começou lembrando que posições críticas sempre foram minoritárias e que, em geral, predomina a tentativa de adaptação ao mundo tal como ele é. Nesse cenário, ele situou Marx como ponto de virada ao oferecer instrumentos para ligar teoria e prática, insistindo que não basta dizer que o mundo precisa mudar: é preciso identificar o que mudar, como mudar e por quais meios.
Ao diferenciar mudança superficial de transformação estrutural, ele afirmou que não basta substituir lideranças para alterar a base social:
“Não é tirando o rei, tirando o presidente, que nós transformamos uma sociedade. É preciso um processo revolucionário.”
Na explicação, Mascaro recorreu ao sentido de “revolução” como “revolver” a terra: mexer no solo, retirar pedras, recompor condições — e não apenas “plantar” algo novo num terreno intacto.
Estado, capitalismo e os limites da tomada institucional
A entrevista avançou para um debate sobre a tendência de interpretar o Estado como uma ferramenta neutra que poderia ser “tomada” e reorientada. Para Mascaro, essa ideia subestima o peso das relações capitalistas que continuam operando mesmo quando há mudanças na direção política do aparelho estatal.
“Muita gente considera que o Estado é neutro: basta tomá-lo das mãos do burguês e ele se torna proletário. Mas isso esconde coisas muito complexas.”
A crítica enfatiza que, se a base material segue capitalista, essas relações acabam reapropriando o próprio Estado, mesmo quando há governos com orientação favorável à classe trabalhadora.
Althusser e a virada: ideologia não é “falsa consciência”
Mascaro apontou Louis Althusser como decisivo por retirar a ideologia do campo da mera “opinião” e por questionar a noção de que bastaria corrigir uma “consciência falsa”. Na entrevista, ele resumiu o que considera o ponto de ruptura:
“A ideologia não está no consciente; está no inconsciente.”
A implicação, segundo ele, é direta: apelos morais ou frases de efeito não alteram, por si, desejos e identificações profundas — porque o alvo principal não é a razão imediata, e sim a estrutura subjetiva que se forma antes mesmo de a pessoa se perceber como agente político.
“É ajoelhando que se crê”: ideologia como prática material
Para tornar a tese mais concreta, Mascaro recorreu a um exemplo de socialização religiosa, insistindo que a ideologia se fabrica em rotinas e gestos repetidos:
“Não é porque a pessoa crê que ela ajoelha; é porque ela ajoelha que, um dia, ela crê.”
A frase aparece como síntese do argumento: crenças e valores se consolidam pela prática material, pela repetição, pela familiaridade afetiva — e não por um comando consciente que “entra” na cabeça e muda tudo.
Capitalismo como máquina de produzir desejo
Na parte mais política da entrevista, Mascaro disse que o capitalismo não se mantém apenas por impor exploração, mas por vender uma promessa de satisfação e pertencimento. Ele afirmou que o sistema fabrica desejo ao mesmo tempo em que oculta a relação de dominação — inclusive pela linguagem cotidiana das empresas:
“Em vez de dizer empregado, trabalhador, chamam de ‘colaborador’. O explorado se sente feliz.”
A partir daí, ele sustentou que disputas progressistas perdem força quando se limitam ao “não” — à denúncia e à repreensão — e deixam de oferecer um horizonte desejável capaz de mobilizar.
Desejo, prazer e esperança como motor de transformação
Mascaro insistiu que uma política de transformação precisa ser capaz de ativar prazer, esperança e alegria como forças coletivas, e não apenas administrar a indignação. Ele formulou o ponto de modo contundente:
“O dia em que a transformação social se tornar desejo, o mundo se transforma em um segundo.”
E acrescentou que essa virada não acontece por “educação moral” ou por bronca, mas por um “sim” mais potente do que o desejo produzido pelo capitalismo — um desejo que convoque o socialismo como experiência concreta de vida compartilhada.
Quem controla os aparelhos molda o afeto político
Ao final, Mascaro aproximou sua tese do cenário político brasileiro e da permanência de adesões afetivas ao bolsonarismo, insistindo que o problema decisivo não é apenas comparar resultados de governos, mas entender por que certos desejos persistem.
“A pergunta decisiva é: o que estrutura o desejo? Por que as pessoas continuam desejando o bolsonarismo e odiando o lulismo?”
Na mesma linha, ele reforçou que a disputa central passa pelos aparelhos — e menos por debates isolados sobre conteúdos:
“Quem controla a escola? Quem controla os aparelhos ideológicos?”
Ao encerrar, Mascaro afirmou que, mesmo em derrotas e contradições, a política transformadora precisa sustentar um horizonte afetivo que atraia:
“Na hora em que nós sorrirmos a esperança, as pessoas desejam essa esperança e lutam conosco.”