José Kobori alerta para risco de nova crise global puxada pela bolha da inteligência artificial
Economista afirma que financeirização, dívida dos EUA, mudança nos juros do Japão e euforia com IA podem produzir choque sistêmico superior ao de 2008
247 – O economista José Kobori afirmou que o mundo pode estar diante de uma nova crise financeira global, impulsionada pela formação de uma bolha em torno da inteligência artificial, pela elevada alavancagem das empresas, pelo endividamento dos Estados Unidos e por mudanças na política monetária do Japão.
A análise foi feita em entrevista ao jornalista Breno Altman, no programa 20 Minutos, do Ópera Mundi, em 17 de dezembro de 2025. Segundo Kobori, os sinais atuais lembram momentos anteriores de ruptura no capitalismo financeirizado, como a crise das empresas pontocom, em 2001, e a crise imobiliária de 2008.
A bolha da inteligência artificial
Para Kobori, uma bolha financeira se forma quando o mercado passa a atribuir a ativos um valor muito superior à sua capacidade real de gerar caixa no futuro.
"As bolhas financeiras começam a se formar quando o mercado começa a acreditar numa coisa que não vai acontecer", afirmou.
O economista disse que, no momento atual, o ativo mais provável de uma nova crise é a inteligência artificial.
"Nessa que está se avizinhando, é com certeza a inteligência artificial", declarou.
Segundo ele, a Nvidia é praticamente a única grande empresa do setor que gera caixa de forma consistente, por vender chips e equipamentos físicos. Já outras empresas, como OpenAI e companhias ligadas ao desenvolvimento de softwares de IA, ainda dependeriam fortemente de financiamento privado e, cada vez mais, de apoio estatal.
"A única empresa que gera caixa e ganha dinheiro é a Nvidia", disse Kobori. "Na corrida do ouro, quem ganha dinheiro é quem vende a pá."
Risco sistêmico pode ser maior que em 2008
Kobori afirmou que a eventual explosão da bolha da inteligência artificial não ficaria restrita ao setor de tecnologia. Para ele, como os investimentos privados em IA estão espalhados por fundos globais, o impacto pode se propagar pelo sistema financeiro internacional.
"Existe uma previsão de que essa contaminação sistêmica pode ser até pior que 2008", afirmou.
O economista comparou o cenário atual à Grande Depressão de 1929, sobretudo pelo descolamento entre o valor das empresas em bolsa e a economia real.
Segundo Kobori, sem as chamadas “sete magníficas” — grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos —, o índice S&P 500 estaria praticamente estável. Para ele, isso mostra que a valorização do mercado acionário norte-americano está excessivamente concentrada.
Japão pode ser peça-chave da crise
Outro fator de risco apontado por Kobori é a mudança de postura do Banco Central do Japão, que durante décadas manteve juros próximos de zero ou negativos.
Ele explicou que o Japão se tornou grande fornecedor de liquidez ao sistema financeiro global por meio das operações de carry trade, nas quais investidores tomam recursos baratos em ienes e aplicam em ativos denominados em dólar.
Se o Japão elevar juros ao mesmo tempo em que o Federal Reserve reduzir taxas nos Estados Unidos, esse diferencial diminui e pode provocar liquidações em cadeia.
"O sistema financeiro mundial está desequilibrado, cheio de buracos que podem desencadear uma grande crise mundial", afirmou.
Estados Unidos dobram a aposta
Kobori criticou a estratégia do governo dos Estados Unidos sob Donald Trump, atual presidente do país. Segundo ele, Washington estaria tentando prolongar a bolha ao pressionar por juros menores e ao incentivar investimentos em inteligência artificial.
"O capitalismo nunca recua. Ele sempre dobra a aposta", disse.
O economista também afirmou que a economia norte-americana está cada vez mais dependente da IA. Segundo ele, parte expressiva do crescimento recente do PIB dos EUA estaria ligada a investimentos em hardware, software e infraestrutura para inteligência artificial, enquanto a economia real permaneceria praticamente estagnada.
Complexo militar e IA
Na entrevista, Kobori também apontou vínculos entre empresas de inteligência artificial e o complexo militar-industrial dos Estados Unidos. Ele citou a Palantir, fundada por Peter Thiel, como uma das principais fornecedoras de tecnologia para o setor militar norte-americano.
Para o economista, uma escalada militar poderia ser vista por setores dos EUA como forma de reorganizar a economia global em meio à crise.
"Acredito que uma das saídas que os Estados Unidos estão vislumbrando é guerra", afirmou.
Brasil está mais protegido, mas precisa agir
Ao tratar do Brasil, Kobori disse que o país tem instrumentos importantes de defesa, como reservas internacionais elevadas e capacidade de atuação do Banco Central em caso de choque de liquidez.
No entanto, afirmou que uma crise global atingiria o Brasil por meio da fuga de capitais, da queda da bolsa, do encarecimento do crédito e da retração da atividade econômica.
"O tsunami internacional bate como todas as crises batem: crise de liquidez", explicou.
Kobori defendeu que, em caso de choque, o Brasil precisaria combinar queda de juros com expansão do gasto público direcionado.
"O gasto público tem um efeito mais rápido e direcionado", afirmou, citando o auxílio emergencial na pandemia como exemplo de medida capaz de sustentar consumo e atividade econômica.
Crítica ao arcabouço fiscal e aos juros altos
O economista criticou as amarras fiscais impostas ao Estado brasileiro e afirmou que, em uma crise de grandes proporções, o arcabouço fiscal teria de ser revisto.
"Nos marcos do arcabouço fiscal não daria para enfrentar uma crise como essa", disse.
Kobori também defendeu mudanças na meta de inflação, maior atuação do Banco Central sobre o câmbio e redução dos juros para estimular a economia real.
Segundo ele, a taxa de juros elevada funciona, no curto prazo, como escudo cambial, mas é também um fator de fragilidade estrutural, pois inibe crescimento, investimento e industrialização.
Reindustrialização e soberania
Para Kobori, o Brasil só deixará sua condição de capitalismo periférico se investir em ciência, tecnologia, infraestrutura e indústria.
"Todos os países que saíram do capitalismo periférico fizeram expansão fiscal para financiar ciência e tecnologia, pesquisa e desenvolvimento", afirmou.
Ele defendeu apoio à Nova Indústria Brasil, mais crédito do BNDES e investimentos públicos voltados à fronteira tecnológica.
Marx e Celso Furtado
No fim da entrevista, Kobori participou de um quadro sobre economistas e escolheu Celso Furtado como o maior economista brasileiro. Ao ser confrontado entre Furtado e Karl Marx, optou por Marx pela contribuição histórica.
"Quanto mais o capitalismo evolui, mais razão você dá para ele", disse, referindo-se a Marx.
Kobori também recomendou o livro A derrota do Ocidente, de Emmanuel Todd, e o filme brasileiro O filho de mil homens, com Rodrigo Santoro.


