O mosaico da morte por mil cortes
Essa é uma Guerra de Atrito Estruturada. E o roteiro foi escrito em Teerã.
A Defesa Descentralizada em Mosaico do Irã – a denominação oficial – continua passando por ajustes 24/7: essa é a estratégia de longo prazo do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, de morte por mil cortes, projetada para fazer o Império sangrar até a morte.
Tentemos vadear esses canais interconectados que permeiam o pântano inconstitucional, estrategicamente catastrófico e fadado ao fracasso construído pelo Império do Caos.
A resiliência em mosaico e a estratégia de longo prazo usadas pelo Irã, a opção nuclear que continua seduzindo aquele tenebroso culto da morte do Oeste Asiático; o inexorável Inferno dos Interceptadores que se aproxima; a inflexível determinação da China a abandonar a velha ordem (acumulando ouro, livrando-se de dólares); os avanços dos BRICS na criação de um sistema financeiro paralelo; o colapso dos vassalos da América em diversas latitudes: tudo isso vem acelerando uma radical reinicialização do sistema.
E, além disso, temos Vladimir Putin, casualmente, quase que como se fosse algo de menor importância, anunciando que, no final das contas, talvez não haja mais gás russo para ser vendido para a Europa:
“Talvez faça mais sentido para nós pararmos de fornecer gás à União Europeia e passarmos a vender para esses novos mercados, e nos estabelecermos nesses locais (…) Novamente, eu gostaria de ressaltar que o motivo para tal não é político. Mas se eles, de qualquer maneira, forem fechar o mercado para nós em um ou dois meses, talvez seja melhor parar agora e focar países que são parceiros confiáveis. Isso dito, não se trata de uma decisão, estou apenas pensando em voz alta. Pedirei que o governo examine essa possibilidade juntamente com nossas empresas”.
O deplorável Chanceler Salsichão pediu ao NeoCalígula permissão para a Alemanha comprar petróleo russo. A resposta foi positiva. Mas talvez não haja nada para comprar. Essa é uma guerra de energia, e a União Europeia, mais uma vez, não se qualifica sequer como um mendigo sem-teto. Sem gás do Qatar, sem gás nem petróleo russos. E agora, voltem à sua Guerra Eterna, que é a obsessão da OTAN.
O bombardeio do oleoduto CCG-petrodólar
Imediatamente após o ataque de decapitação de sábado passado contra o Líder Supremo Aiatolá Kahamenei, o Irã passou a ter comando e controle descentralizados e células com planos de sucessão de quatro níveis, lançando implacáveis saraivadas de mísseis mais antigos e lentos, e de drones sacrificiais para destruir baterias Patriot e sistemas THAAD em escala industrial. Com essa manobra, o Irã mudou as regras do jogo já no Primeiro Dia da guerra.
Qualquer pessoa com um QI acima da temperatura ambiente sabe que usar três Patriots – ao custo total de 9,6 milhões de dólares – para se defender de um único míssil balístico sacrificial iraniano é algo de totalmente insustentável.
Não é de admirar, portanto, que quatro dias da guerra do Sindicato Epstein contra o Irã foram suficientes para que o sistema financeiro global pirasse por completo. Três trilhões e duzentos milhões evaporaram em questão de quatro dias, e não vai ficar por aí.
O Estreito de Ormuz, para todos os fins práticos, está fechado – exceto para navios russos e chineses. Pelo menos 20% das necessidades globais de petróleo estão paradas. Toda a linha de produção de GNL de Qatar foi interrompida – por tempo indeterminado. O segundo maior campo petrolífero do Iraque foi fechado.
E, mesmo assim, o volátil Neocalígula vocifera que sua guerra, que era para durar apenas um fim de semana, pode se arrastar por cinco semanas, e outros palhaços industrial-militares do Pentágono estão falando de ela se prolongar até setembro.
Ao atingir com precisão de laser, como alvos legítimos, interesses estadunidenses por todo o território do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) – e não apenas bases militares – o Irã armou uma bomba relógio. Temos aqui um ataque direto ao petrodólar (para a silenciosa delícia de Pequim). Teerã certamente apostou que a reação em cadeia seria instantânea – chegando ao pânico como preâmbulo de uma nova e generalizada Grande Depressão.
Sem petróleo e sem defesas significativas contra os ataques dos drones/mísseis iranianos sobre as monarquias do Golfo, o resultado será a interrupção das torrentes de dinheiro falso indo para Wall Street. A bolha da IA, afinal de contas, vem sendo financiada por “investimentos” do CCG. O novo bombardeio do Oleodutistão não é como o do Nordstream: é o bombardeio do oleoduto CCG-petrodólar.
Tudo isso vem acontecendo em tempo recorde, enquanto o mosaico descentralizado do Irã é afinado. Por exemplo, uma série de mísseis antinavios de grande letalidade – que ainda não foram usados – é coordenada pelo Corpo de Guarda Revolucionária, pela Marinha, pelo Exército e por Forças Aeroespaciais. O mesmo com relação aos drones.
Mesmo que os ataques não estejam mantendo o vertiginoso ritmo inicial, eles continuam mais que suficientes para expor a constantes assaltos as bases militares dos Estados Unidos (cujas defesas aéreas estão em grande medida exauridas); para mergulhar o culto à morte do Oeste Asiático e as monarquias do Golfo em total inferno econômico; e para aterrorizar cada cantinho dos “mercados globais”.
E, apesar de todo a bateção no peito do seboso e apalhaçado Secretário das Guerras Eternas de Washington, dezenas de fortalezas militares subterrâneas iranianas, abarrotadas de dezenas de milhares de mísseis e outros equipamentos continuam invisíveis – e intocáveis.
Provocando a falência do modelos empresarial do Império do Caos
Trata-se de uma guerra desesperada para salvar o petrodólar. Uma potência energética como o Irã fazendo negócios externos ao petrodólar é o anátema supremo, em especial porque esse processo vem acoplado ao propósito dos BRICS de construir sistemas de pagamentos independentes.
A imensa fragilidade estrutural do CCG – vizinhos do Irã – os converte em presas perfeitas. Afinal, todo o seu modelo empresarial é construído sobre o petrodólar, em troca da “proteção” mafiosa dos Estados Unidos, que se dissipou na areia nos quatro primeiros dias da guerra.
Passemos à Máquina Bélica Assimétrica do Irã, que vem levando à falência, em tempo real, o modelo empresarial do Império do Caos.
A prova definitiva é a implosão do sonho ostentatório de Dubai – muito mais que a devastação imposta aos interesses relacionados à 5ª Frota dos Estados Unidos em Bahrain, e até mesmo que a destruição por um míssil balístico do radar de varredura eletrônica AN/FPS-132, que custou 1,1 bilhão de dólares, na Base Aérea de Al Udeid, no Qatar.
A destruição coordenada dos países do CCG, atualmente em curso e já inevitável, significará, futuramente, o fim da reciclagem do petrodólar, abrindo caminho para o petroyuan, ou para o comércio de energia em uma cesta de moedas dos BRICS.
O termo “cheque mate” vem do persa “Shah Mat”, que significa “o rei está desamparado”. Bem, o Imperador Neocalígula talvez não saiba que está nu, porque ele não sabe jogar xadrez. Mas ele está aterrorizado a ponto de buscar uma saída.
O corredor aéreo Astracã-Teerã
Agora, sobre o papel da Rússia. O foco deve recair no corredor aéreo Astracã-Teerã, abarrotado de voos cargueiros secretos. O aeroporto militar de Chkalovsk, próximo a Astracã, é o principal nó logístico do corredor: cargueiros como o Il-76MD, o An-124 e o Tu-0204-300C chegam e partem, recobertos de um material especial que reduz a visibilidade no radar e os oculta de sistema civis de rastreamento.
Sua carga chega aos aeroportos de Mehrabad, em Teerã (que, como não é de admirar, foi bombardeado por Israel), e de Pyam e Shahid Behesthi, em Isfahan. Logística multimodal é também empregada, uma vez que parte da carga é entregue via Mar Cáspio.
Tudo está sob a coordenação da 988ª Brigada de Logística Militar de Astracã. As cargas incluem peças para sistemas de defesa aérea, módulos de orientação de radares, sistemas hidráulicos para lançadores de mísseis e módulos de radar de detecção de longa distância.
E ainda por cima, nos termos de um protocolo secreto, a Rússia vem fornecendo ao Irã equipamentos de guerra eletrônica estado-da-arte, incluindo uma versão para exportação do Krasukha-4IR, capaz de bloquear os sistemas de radar dos drones dos Estados Unidos.
Acrescente-se a isso o fato de que o Irã, em breve, estará empregando baterias S-400 completas – que permitirão o controle de até 70% do espaço aéreo iraniano.
Como a tensão político-econômica se tornará insuportável
E agora, quanto ao papel da Turquia.
Há apenas dois meses, o MIT – o serviço de inteligência turco – alertou diretamente a Guarda Revolucionária do Irã que combatentes curdos estavam tentando cruzar a fronteira entre o Iraque e o Irã. Pensem bem: um membro pleno da OTAN passando informações operacionais urgentes para a Guarda Revolucionária, no exato momento em que o Sindicato Epstein se preparava para a guerra.
Há pelo menos quinze milhões de curdos vivendo em território iraniano. A última coisa que Ancara deseja é empoderar os curdos. Apesar de toda a insaciável tergiversação do Sultão Erdogan, ele sabe que não pode antagonizar frontalmente Teerã. Ele tem que equilibrar uma cornucópia de interesses que misturam a OTAN, o corredor de energia com a Rússia – mas também o corredor de energia com o Ocidente, pelo oleoduto BTC, e o papel de âncora ocidental para o Corredor do Meio com a China.
É por essa razão que aquele suposto míssil balístico iraniano supostamente apontado para a Turquia e atingido pela OTAN não foi nada de importante: os primeiros-ministros Fidan (Turquia) e Aragchi (Irã) discutiram o assunto como adultos. A questão é cercada pelo impenetrável nevoeiro de guerra: o míssil pode ter sido lançado para avariar o terminal petrolífero do BTC e, em seguida, drones terem sido lançados sobre a Geórgia para atingir o ponto mais fraco do BTC.
Nada disso foi confirmado – e qualquer confirmação será impossível. Pode ter sido uma falsa bandeira – embora Teerã talvez tenha grande interesse em cortar 30% do fornecimento de petróleo para Israel.
O BTC continuará em operação, uma vez que ele serpenteia pela Geórgia, levando petróleo cru do Azerbaijão, através do Cáucaso, até a costa mediterrânea turca. O bombardeio do BTC se encaixaria na estratégia iraniana de cortar todos os corredores de energia que alimentam o Sindicato Epstein e seus acólitos de todo o Golfo, do Cáucaso, chegando até o Mediterrâneo.
Ao longo do BTC, outras manobras iranianas lógicas seriam atacar o oleoduto saudita Leste-Oeste (que passa por Ormuz), as plataformas de carregamento iraquianas offshore situadas em águas territoriais iranianas, que lidam com 3,5 milhões de barris por dia, e também o nó de processamento de Abqaiq, que lida com a maior parte do petróleo cru saudita antes de este chegar aos terminais de exportação.
Caso o Irã, sob tensão máxima, seja forçado a atacar todos os pontos citados acima, não haverá em todo o planeta reserva de petróleo capaz de cobrir esse vácuo.
Nessa interconexão infernal de corredores de energia, rotas de navegação, cadeias de suprimento globais, segurança marítima e o preço do petróleo fugindo do controle, apenas os palhaços do Pentágono seriam capazes de querer prorrogar a guerra até setembro. A Ásia, a Europa e todos os importadores de energia de todo o tabuleiro irão aplicar pressão máxima em favor de qualquer medida de desescalada.
A estratégia assimétrica do Irã, entretanto, permanece inamovível: expandir horizontalmente a guerra e esticar ao máximo a linha de tempo para tornar insuportável a tensão político-econômica.
Tradução: essa não é uma jogada rápida de mudança de regime operada por um bando de loucos. Essa é uma Guerra de Atrito Estruturada. E o roteiro foi escrito por Teerã.
Tradução de Patricia Zimbres
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



