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Jair de Souza

Economista formado pela UFRJ, mestre em linguística também pela UFRJ

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O papel da juventude nas transformações sociais

O aguerrimento da juventude podem servir tanto às causas progressistas quanto às reacionárias dependendo da disputa ideológica travada, alerta Jair de Souza

O papel da juventude nas transformações sociais (Foto: Júnior Lima/Divulgação)

As pesquisas de opinião divulgadas recentemente exibiram alguns dados que, conforme à ótica com a qual as analisemos, podem ser classificados como encorajadores, ou preocupantes, para as perspectivas de Lula e o governo por ele liderado.

Sinalizando no sentido da primeira alternativa, temos a constatação de que nosso atual presidente se mantém plenamente habilitado para ser reeleito para um quarto mandato no pleito eleitoral previsto para a parte final do presente ano. Por outro lado, em contraposição a esta primeira leitura favorável, foi possível detectar algo que deveria fazer-nos meditar bastante e com muita preocupação. É que as sondagens explicitam um marcado grau de distanciamento da parcela jovem de nossa sociedade em relação à orientação do atual governo e, até mesmo, a respeito do Presidente Lula.

Ao refletir sobre os citados dados, somos imediatamente tomados por uma grande perplexidade: como entender que tão baixa avaliação provenha de pessoas de uma faixa etária para a qual o governo tomou inúmeras medidas que as beneficiam acentuadamente? Por que a maioria da camada jovem de nossa população parece não reconhecer nem valorizar devidamente os inúmeros programas governamentais destinados a atender aquelas que deveriam ser suas necessidades mais prementes? O que faz com que o Prouni, o Programa Pé-de-Meia, o Pronatec, assim como tantos outros, não estejam sendo capazes de angariar apoio para o governo de Lula?

Tudo se torna ainda mais alarmante por sabermos da relevância exercida pela juventude nos processos de construção de quaisquer projetos de futuro de uma sociedade. Embora eu não me inclua no grupo dos que superdimensionam seu lado heroico e altruísta, parece-me inegável que a capacidade de ação e o aguerrimento dos jovens para travar lutas difíceis superam os de todas as outras faixas etárias. Por isso, contar com seu apoio e engajamento tem um significado inestimável para que as metas propostas sejam atingidas.

No entanto, este mais elevado nível de abnegação e disposição de enfrentar desafios não implica necessariamente que suas causas sejam sempre as mais justas e solidárias. A característica e o sentido do envolvimento da juventude em todo e qualquer processo social dependem fundamentalmente da ideologia que a esteja amparando em sua atuação. Assim, se os alinhamentos estiverem sendo traçados com base nos ideais e máximas da justiça, da igualdade e da solidariedade, seguramente, nossos jovens estarão na linha de frente na defesa desses princípios. Contudo, o inverso também pode ocorrer e, na verdade, ocorre com frequência. Em vista disto, há vários casos históricos em que a mobilização juvenil serviu de base de sustentação dos interesses das forças mais reacionárias.

Então, para atrair e engajar os jovens, não basta oferecer-lhes ganhos materiais concretos, é preciso também convencê-los ideologicamente. Para tal efeito, temos de conhecer suas preocupações, suas aspirações, suas expectativas e, a partir deste conhecimento, procurar traçar os caminhos que possam conduzi-los no rumo que consideramos acertado. Porém, da mesma maneira que os outros grupos humanos, a juventude assumirá com mais afinco àquelas causas nas quais os jovens se sintam parte ativa, e não meros receptores.

Entretanto, se é verdade que os jovens costumam ter mais energia, audácia e determinação para aderir ativamente a processos sociais de transformação, eles também demonstram agir muito mais em função de sonhos e expectativas de futuro que no remendo daquilo que já existe. Isto exige que lhes ofereçamos propostas e palavras de ordem que ousem ultrapassar o pragmatismo da conjuntura do momento. Como esta é uma necessidade de muita evidência, até as forças da extrema direita ultrarreacionária recorrem a um linguajar antissistema no intuito de conquistar o apoio dos jovens. Não à toa, aos jovens, os bolsonaristas dizem estar lutando “para pôr fim ao sistema”.

A argumentação que esboçamos nas linhas anteriores nos leva a concluir que, para retirar a juventude da influência maligna da extrema direita anti povo, vamos precisar deixar de lado o receio de expor claramente nossas propostas de futuro e passar a disputar ideologicamente a adesão e o apoio da maioria de nossos jovens. Neste aspecto, nossa grande diferença em relação com o bolsonarismo e assemelhados é o fato de não nos ser necessário mentir ou tergiversar sobre o sistema que pretendemos destruir e aquele que desejamos edificar em sua substituição.

Vamos travar a luta para atrair e manter a juventude integrada nas causas das maiorias populares. Ainda que não seja a bandeira do conjunto dos apoiadores do atual governo, os que estamos comprometidos com a construção de um mundo verdadeiramente justo precisamos deixar de ter medo de falar e propor o fim do capitalismo e sua substituição pelo socialismo. E, sem dúvidas, o socialismo só poderá vir pela participação ativa e consciente da ampla maioria de nosso povo. Nosso esforço deve ser feito para fazer que a juventude se sinta como parte intrínseca deste povo, e esteja disposta a envolver-se ativamente em suas lutas. E cabe a nós, como militantes, empenhar-nos para que assim seja.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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