O papelão do Datafolha
Como deu por encerradas as entrevistas na quarta, o resultado foi uma pesquisa que já nasceu velha, pronta para ser jogada no lixo
Nos tempos da Lava Jato, o instituto Datafolha não hesitava em colocar seus pesquisadores na rua logo em seguida a uma ação espetacular da República de Curitiba, reverberada pela Globo. O timing era o seguinte: tem delação premiada ou prisão de petista, ah, então tem pesquisa.
No entanto, os dois pesos e duas medidas do Datafolha ficaram evidentes na semana passada. O áudio em que Bolsonarinho pede dinheiro para o banqueiro Vorcaro veio à tona na tarde da quarta-feira (13). Só que o pessoal de campo do Datafolha já estava nas ruas desde terça-feira (12) para entrevistar até quarta 2004 eleitores.
Mas, ora, diante de um fato político de tamanha relevância, como o pedido de grana que o candidato da extrema direita fez ao banqueiro trambiqueiro, custava ampliar o trabalho de campo, para captar o efeito do episódio sobre o eleitorado? Estrutura e dinheiro não faltam ao braço de pesquisas do jornal Folha de São Paulo.
Como deu por encerradas as entrevistas na quarta, o resultado foi uma pesquisa que já nasceu velha, pronta para ser jogada no lixo. Duvido que ante uma situação inversa, ou seja, o aparecimento repentino de um fato com potencial para provocar desgaste para a candidatura de Lula, o tempo de campo do levantamento não fosse ampliado.
De toda maneira, a última pesquisa da Quaest e até essa fajuta do Datafolha já mostram que os ventos estão mudando de direção.
Há pouco mais de duas semanas, depois da rejeição de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal e a derrubada do veto do projeto da dosimetria, bolsonaristas, integrantes do Centrão e parcela considerável da imprensa comercial davam Lula como acabado.
Completavam o coro da catástrofe pessoas do campo progressista conhecidas por suas análises pessimistas. Por sua vez, o herdeiro do golpista-mor dava entrevistas como o futuro presidente do Brasil.
Claro que foram dois reveses importantes, especialmente a reprovação do indicado pelo presidente da República para o Supremo Tribunal Federal, algo que não acontecia no Brasil desde 1894.
Contudo, considerar Lula derrotado, em pleno exercício do mandato presidencial e a cinco meses da eleição é coisa de quem menospreza um dado inquestionável: Lula é a maior Fênix da política brasileira, tendo renascido das cinzas várias vezes. Sair da cadeia para a um terceiro mandato não é para qualquer um.
Do sucesso do encontro de Lula com Trump ao flagrante estarrecedor de Flávio Bolsonaro implorando pelo dinheiro de Vorcaro, passando pela investigação da Polícia Federal sobre a mesada de R$ 500 mil que o senador bolsonarista Ciro Nogueira recebia de Vorcaro, pelo anúncio do Novo Desenrola e do programa "O Brasil Contra o Crime Organizado, o jogo começou a virar.
Lula e seu governo voltaram a pautar positivamente a agenda política e econômica do país.
O enorme telhado de vidro de Flávio Bolsonaro também tem que ser levado em conta em qualquer análise do quadro eleitoral. Difícil acreditar que o "irmão" do banqueiro corrupto não vá protagonizar outros escândalos ao longo da disputa.
Vamos lembrar que mentiras, falcatruas, enriquecimento ilícito e todo tipo de sujeira estão no DNA dos Bolsonaro.
Não que se espere mudanças na intenção de voto de bolsonaristas empedernidos, da turma da lavagem cerebral. No entanto, entre os eleitores que as pesquisas estão tratando como independentes, nem lulistas nem bolsonaristas, a baixíssima estatura moral de Bolsonarinho tem potencial para fazer estrago.
Eleição difícil, com muitos percalços ainda pelo caminho, afinal só em uma sociedade doente como a nossa um estadista da envergadura de Lula tem sua eleição ameaçada por uma figura minúscula como seu oponente fascista. Mas manter a cabeça fria e ao mesmo tempo o coração ardente é fundamental para a vitória.
E ela virá.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




