O passado que não passa
Uma democracia marcada por pactos inconclusos faz da ditadura um tema recorrente na memória coletiva e na cultura brasileira
60 anos depois do golpe militar e 40 do final da ditadura militar no Brasil, os dois filmes premiados sucessivamente no Globo de Ouro – “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” – têm como tema a ditadura militar.
O país viveu tantas coisas, se redemocratizou, teve retrocessos por um mandato presidencial, mas esse passado não passa. Os filmes são vistos por milhões de brasileiros, a maioria dos quais não viveu aquele período, com naturalidade, não como filmes sobre o passado, não como algo de um passado longínquo.
É certo que o país não passou a limpo tudo o que viveu durante a ditadura militar, os 21 anos que fazem da ditadura brasileira a mais longa de todas na América Latina. Não tivemos a alegria que os argentinos tiveram de ver seu principal ditador – Jorge Videla – ser julgado, preso e morrer na prisão.
A transição democrática não se deu como ruptura. O novo regime surgiu como um misto do velho e do novo, da sobrevivência do passado. O primeiro presidente civil foi eleito sem o voto direto, porque a campanha pelas eleições diretas foi derrotada no Congresso. Como resultado, o primeiro presidente civil do Brasil depois da ditadura militar foi quem era presidente do partido da ditadura militar, que se havia oposto às eleições diretas.
Essa transição fez com que, uma vez mais na nossa história, os acordos de elite impedissem que as rupturas se dessem, em vários momentos da nossa história. Sempre volta à nossa cabeça a afirmação tão significativa do então governador de Minas Gerais, Antonio Carlos de Andrade, para caracterizar a Revolução de 1930: “Façamos a revolução antes que o povo a faça".
Mesmo um momento, a Revolução de 30, que, a posteriori, aparece como uma grande ruptura, na passagem de um regime hegemonizado pela oligarquia agrária para um governo que passou a promover centralmente os interesses da burguesia industrial, foi feito acompanhado dessa afirmação.
Para não ir tão longe, em 8 de janeiro de 2023 houve uma tentativa de um novo golpe, que buscava reinstalar no país uma ditadura, que foi rapidamente derrotada, demonstrando que os tempos são outros, que a democracia que temos veio para ficar.
A eleição de Lula, em 2002, foi igualmente um marco fundamental na afirmação da democracia no Brasil. Um líder sindical, nordestino, do Partido dos Trabalhadores, tornava-se presidente do Brasil, tendo se reelegido e eleito sua sucessora.
Lula voltou a ser eleito, pela terceira vez, como presidente do Brasil, quatro anos depois de ter sido preso, sem nenhuma prova, como o próprio Judiciário finalmente reconheceu. O país voltou a ter um presidente de extrema direita durante um mandato, porque houve um novo golpe no país, com o impeachment de Dilma Rousseff e a condenação e prisão de Lula.
É nessa democracia realmente existente que milhões de brasileiros consagraram dois filmes que se passam durante a ditadura militar, revelando como é um passado que não passa.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



