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Maurici de Morais

Deputado estadual (PT-SP)

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O PCC nas sombras do poder paulista

PCC nas sombras do poder paulista expõe conexões entre crime organizado, agentes públicos e setores financeiros em São Paulo

O PCC nas sombras do poder paulista (Foto: Gerada por IA)
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O avanço do crime organizado no Brasil já não pode mais ser tratado apenas como um problema de polícia. O que antes se restringia às periferias, aos presídios e às rotas do tráfico agora avança sobre estruturas institucionais, setores estratégicos da economia e espaços centrais do poder político.

Na São Paulo comandada pela extrema direita, os episódios recentes envolvendo integrantes das forças de segurança, operadores do mercado financeiro e pessoas ligadas ao governo Tarcísio de Freitas revelam o fortalecimento silencioso das conexões entre o PCC, agentes públicos e setores da elite econômica.

O caso do coronel José Augusto Coutinho talvez seja um dos exemplos mais graves dessa deterioração institucional. Ex-comandante-geral da Polícia Militar, ele foi exonerado sob suspeita de proteger policiais ligados ao PCC desde 2020. O mais inquietante é que alertas não faltaram.

Segundo informações já divulgadas publicamente, o procurador Lincoln Gakyia, referência nacional no combate ao crime organizado, teria comunicado à cúpula do governo paulista sobre as suspeitas anos atrás. Mesmo assim, o coronel permaneceu no posto máximo da PM por cerca de três anos.

O escândalo ganha contornos ainda mais preocupantes quando se observa a prisão do capitão Diogo Costa Cangerana, policial militar que atuava na segurança do governador Tarcísio de Freitas. Em 2024, ele foi preso pela Polícia Federal sob acusação de lavagem de dinheiro para o PCC. Não se trata de um agente qualquer. Era alguém que circulava diariamente nos espaços mais sensíveis do governo estadual.

Os episódios se acumulam em uma sequência perturbadora. No final de 2024, o assassinato de Vinicius Gritzbach, delator e ex-operador financeiro do PCC, chocou o país. Executado na área de desembarque do Aeroporto de Guarulhos, sob o olhar de dezenas de pessoas, o crime expôs o grau de ousadia e infiltração da facção. As investigações apontaram o envolvimento de 16 policiais aliciados pela organização criminosa.

Ainda em 2022, a empresária Miriam Golin fez uma contribuição de R$ 500 mil à campanha de Tarcísio de Freitas e, dois anos depois, foi investigada e acusada de lavagem de dinheiro para o PCC. A maior doação de campanha foi de R$ 2 milhões, feita por Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Ambos estão presos e são investigados também pela participação de seus fundos de investimento na lavagem de recursos do PCC.

O Master atuou na privatização da Empresa Metropolitana de Água e Energia (Emae). Coordenou com Nelson Tanure e com a Ambipar uma operação fraudulenta de supervalorização de suas ações. Esses papéis deram o lastro patrimonial para a aquisição do controle da Emae em setembro de 2024, quando as ações da Ambipar em posse do Fundo Phoenix, de Tanure, valorizaram 800% em poucos meses. Embora já houvesse uma investigação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e matérias na imprensa apontando manipulação de mercado, o governo Tarcísio aprovou a venda.

Dias atrás, outro caso veio à tona. O Banco Genial, que em 2024 foi contratado pelo governo Tarcísio para estruturar a privatização da Emae, teve R$ 176 milhões bloqueados. Por intermédio de fundos de investimento e outras operações, a instituição realizou ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro para Beto Louco e Primo, personagens da Operação Carbono Oculto, foragidos da Justiça e também, segundo as investigações, ligados ao PCC.

Com a extrema direita dando as cartas em São Paulo, o cenário que emerge dessas conexões é profundamente preocupante. O PCC já não atua apenas na economia informal ou na criminalidade tradicional. A facção demonstra capacidade de infiltração em estruturas financeiras sofisticadas, influência sobre agentes públicos e circulação em ambientes historicamente protegidos pelo poder econômico.

Com tantos problemas dentro do próprio ninho, chama atenção a resistência do governo Tarcísio à PEC da Segurança Pública, apresentada pelo governo federal. A proposta prevê maior integração entre polícias estaduais, Polícia Federal e Receita Federal no combate ao crime organizado.

É justamente nas operações integradas, conduzidas com inteligência financeira e cooperação entre órgãos federais e estaduais, que surgiram os resultados mais expressivos no enfrentamento às facções. Qual é o interesse do governo Tarcísio em negar essa realidade?

O governo Tarcísio e a extrema direita precisam admitir que fracassaram no combate ao crime organizado. O discurso da “mão dura” e das operações midiáticas com alta letalidade policial não impediu o avanço das facções. Preferiram transformar a segurança pública em palanque político a enfrentar a raiz do problema: a necessidade de inteligência, integração entre os órgãos de investigação e combate às estruturas financeiras do crime organizado. Sem isso, o PCC continua se fortalecendo nas sombras do poder. E o crime organizado agradece.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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