O que a direita quer e pode ter no Brasil?
O bolsonarismo mantém hegemonia no campo conservador e limita alternativas políticas da direita brasileira diante da liderança de Lula
A direita brasileira contemporânea tem um pecado original do qual não consegue — se é que quer — se livrar: ela é bolsonarista.
Bolsonaro e seu clã são as versões atuais do anti-Lula. Desde que Lula surgiu como o grande líder da esquerda brasileira, a direita saiu em busca de alguém que pudesse impedir sua ascensão ao governo. Encontrou, primeiro, em Fernando Collor de Mello e, em seguida, em Fernando Henrique Cardoso, seu mais forte anti-Lula. FHC derrotou o líder petista duas vezes no primeiro turno, para regozijo das amplas camadas antipetistas, concentradas, em boa medida, em São Paulo, mas presentes em tantos outros estados do país, especialmente no Centro-Sul e no Sul.
Porém, FHC, olhando para seus líderes europeus — François Mitterrand e Felipe González —, seguiu a adesão da social-democracia ao neoliberalismo, que passou a considerar que qualquer governo sério teria de privilegiar o ajuste fiscal e colocar as finanças públicas em dia, relegando as políticas sociais.
Da mesma forma que seus correligionários europeus, FHC não conseguiu controlar plenamente a inflação, menos ainda diminuir as profundas desigualdades sociais que caracterizam o Brasil.
Como resultado, favoreceu a ascensão de Lula, que criticava profundamente o governo de FHC e propunha, ao contrário, a prioridade das políticas sociais para combater o neoliberalismo ao qual a social-democracia havia aderido.
Depois de tantas tentativas, Lula finalmente foi eleito presidente do Brasil em 2002 e reeleito, além de eleger sua sucessora, Dilma Rousseff. Foi necessário um golpe e a prisão de Lula para que esse processo fosse interrompido. Para isso, a direita brasileira teve de aderir a Bolsonaro, que só foi eleito presidente do país porque Lula estava preso e Dilma foi vítima de um impeachment, ambos sem fundamento, como o próprio Judiciário que os havia condenado posteriormente reconheceu.
Lula saiu da prisão e voltou a ser eleito presidente do Brasil, enquanto a direita seguiu apelando a Bolsonaro como seu anti-Lula. Desde então, Bolsonaro se viu envolvido em uma tentativa de golpe contra a posse de Lula, foi preso e condenado.
A direita brasileira, confirmando seus vínculos bolsonaristas, não apenas teve o chefe do clã como candidato, como agora adere a um de seus filhos.
Apesar das infrutíferas tentativas de alguns políticos e jornalistas de buscar uma direita não bolsonarista, esse vínculo veio para ficar. O que pretende e o que pode ter a direita nas eleições deste ano?
Apesar das pesquisas fajutas que tentam alentar seu candidato bolsonarista de turno, Lula derrota todos os seus adversários mesmo nesses levantamentos. E, na perspectiva da provável reeleição de Lula, o que a direita pode buscar?
Antes de tudo, manter uma maioria no Congresso que possa dificultar o novo governo Lula. Um objetivo possível, dado o caráter despolitizado e corporativista das eleições parlamentares.
Por outro lado, lançar um nome que possa, nas eleições de 2030, quando Lula não poderá mais ser candidato, projetar-se como o representante da direita. A direita tem, além da dificuldade de encontrar um nome com apoio popular, o fato de que não tem o que propor para o país. Pelo que se viu no comício da Avenida Paulista — que, pelos cálculos da USP, tinha menos da metade da presença no comício anterior —, a única coisa que eles têm a propor é o “Fora Lula”.
Essa estratégia enfrenta a dificuldade de que o governo Lula 3, mesmo sem maioria no Congresso, apresenta resultados muito positivos em diversos campos: crescimento da economia, menor nível de desemprego da história, entre outros indicadores.
A direita sofre ainda com a possível defecção de parte do próprio Centrão, que tem dificuldade de permanecer muito tempo fora do governo e se aproxima de Lula.
A direita brasileira, assim, sempre vinculada ao bolsonarismo, conta com o caudal de votos que essa força de extrema direita ainda detém, mas permanece condenada à falta de perspectivas e à dificuldade, diante de um Lula forte, de apresentar algo além da perspectiva de uma nova derrota.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



