Alexandre Machado Rosa avatar

Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

1 artigos

HOME > blog

O saber em disputa: por que a universidade assusta tanto

O Brasil construiu, no século XX, algo raro no mundo contemporâneo, uma rede pública de universidades que ousou ser nacional num país marcado por desigualdade

O saber em disputa: por que a universidade assusta tanto (Foto: ABr)

Mesmo com a retomada das políticas públicas voltadas à educação nacional no terceiro mandato do presidente Lula, os estragos produzidos após 2016 seguem vivos, ainda respiram, insistem, operam. Em alguns lugares, especialmente nos estados governados pela extrema direita, não se trata sequer de herança maldita, mas de projeto de desmonte em curso. A crise estrutural das universidades públicas se aprofunda como método, não como acidente. O estrago iniciado por Michel Temer deixou cicatrizes que vêm sendo tratadas pelo governo Lula e sabotadas pelo Congresso Nacional especialmente pelo desfinanciamento orçamentário.

O Brasil construiu, ao longo do século XX, algo raro no mundo contemporâneo, uma rede pública de universidades que ousou ser nacional em um país marcado pela desigualdade. Desde os anos 1930, o ensino superior público passou a ocupar o território, formando quadros técnicos, professores, cientistas, médicos, engenheiros, artistas e intelectuais. Aquilo que deveria ser orgulho de Estado transformou-se, paradoxalmente, em refém dos interesses do governo de plantão, seja atendendo os interesses do mercado do ensino pago seja sabotando o funcionamento e o custeio das universidades, fazendo do conhecimento uma concessão e não a preservando como direito e estratégia de desenvolvimento nacional.

A primeira universidade federal nasce em 1920, no Rio de Janeiro. A Reforma Francisco Campos, em 1931, organiza juridicamente o sistema. Em 1934, a criação da Universidade de São Paulo (USP) simboliza um salto civilizatório ao articular ensino, pesquisa e produção científica, inspirada em modelos europeus. Nada disso foi espontâneo. Como lembrava Darcy Ribeiro, a universidade não nasce neutra: nasce de um projeto de nação ou da ausência dele.

Nos anos 1960, impulsionado pelo surto industrial e pelo ideário desenvolvimentista, o Estado brasileiro compreende que não há crescimento sem formação. Cria e expande universidades públicas em quase todos os estados, ampliando vagas e interiorizando o acesso. Ironia histórica: mesmo sob a ditadura civil-militar, consolidou-se parte importante da infraestrutura universitária que hoje sustenta a ciência nacional. As contradições do autoritarismo não impediram a percepção estratégica da educação superior como motor do desenvolvimento.

Já nos anos 2000, sob a batuta do presidente Lula, especialmente com o Reuni, a universidade atravessa fronteiras simbólicas e geográficas. Chega ao interior, às periferias, aos filhos da classe trabalhadora, aos primeiros de muitas famílias a pisar em um campus. Não foi apenas expansão física: foi ruptura social. A universidade deixou de ser reduto exclusivo das elites urbanas para dialogar com outros Brasis: indígenas, quilombolas, trabalhadores, mulheres, negros. Um movimento que Paulo Freire chamaria de ampliação radical do direito de aprender.

É justamente esse processo que passa a ser interrompido a partir de 2016. O golpe não foi apenas institucional; foi pedagógico. Cortes orçamentários, ataques à autonomia universitária, perseguição ideológica a docentes, desprezo pela ciência, negação da pandemia. O discurso anti-intelectual, embalado por slogans moralistas, produziu efeitos concretos: laboratórios fechados, evasão estudantil, adoecimento coletivo. A universidade passou a ser tratada como inimiga interna.

Mesmo com a mudança de governo, os escombros permanecem. Não se recompõe em dois anos o que foi desmontado como política de Estado às avessas. Em alguns governos estaduais, a ofensiva continua: terceirização, militarização de escolas, ataques à liberdade acadêmica, tentativa de submeter o conhecimento à lógica do mercado e da obediência. Como alertava Florestan Fernandes, não há universidade democrática em uma sociedade que teme o pensamento crítico.

A crise da universidade pública não é apenas financeira. É moral, política e simbólica. Trata-se de uma disputa sobre o futuro: entre a universidade como bem público, espaço de produção de ciência, cultura e cidadania, ou como custo incômodo a ser eliminado. Defender a universidade hoje é defender a possibilidade de o país pensar a si mesmo. E talvez seja exatamente isso que assusta tanto.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados