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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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O STF na mira e a eleição de 2026 sob risco

Crise detonada pelo caso Banco Master entra no tabuleiro eleitoral e reativa engrenagem que, em 2018, abriu caminho para a extrema-direita

Estátua da Justiça no prédio do STF em Brasília - 21/04/2010 (Foto: REUTERS/Ricardo Moraes)

A crise de imagem que atingiu o Supremo Tribunal Federal nas últimas semanas deixou de ser um episódio interno do Judiciário para se tornar peça central do tabuleiro eleitoral de 2026. Reportagem de Daniela Lima, no UOL, mostra que publicitários e estrategistas já tratam o desgaste do tribunal como ativo político com potencial para impulsionar a oposição e alimentar narrativas antissistema. 

Não se trata de mera percepção. Trata-se de método. 

A mesma engrenagem que operou entre 2016 e 2018 — quando a erosão da confiança nas instituições abriu caminho para a prisão de Lula, sua exclusão da disputa e a vitória de Jair Bolsonaro — volta a girar. Em ano eleitoral, com pesquisas indicando disputa apertada e vantagem estreita de Lula sobre o segundo colocado, Flávio Bolsonaro, o ataque organizado ao STF ganha peso estratégico. 

O tribunal que julgou e condenou a tentativa de golpe passa novamente a ser alvo de campanha de deslegitimação em larga escala. A crise atual não surge no vazio: ela é instrumentalizada e amplificada com precisão política. 

Estamos diante de uma Lava Jato 2. 

O caso Master e a captura eleitoral da crise 

A reportagem de Daniela Lima aponta três elementos decisivos: 

  1. O desgaste do STF entrou no debate eleitoral e tende a fortalecer a oposição a Lula. 
  2. A investigação expôs Dias Toffoli e atingiu também Alexandre de Moraes, alimentando narrativas de conflito de interesses. 
  3. Marqueteiros avaliam que a sensação de “desequilíbrio institucional” pode se tornar tema dominante, superando inclusive segurança pública. 

Tradução política:
a crise institucional virou combustível eleitoral. 

Isso não significa que ministros não devam explicações — devem, e com máxima transparência. O problema está em outro ponto: a transformação de questionamentos específicos em narrativa de colapso institucional total. Quando episódios são convertidos em prova de que “o sistema inteiro está corrompido”, o objetivo deixa de ser fiscalização e passa a ser deslegitimação. 

O manual da ultradireita: cinco pontos de um método global 

O que ocorre no Brasil segue roteiro testado internacionalmente. A extrema-direita opera com método e etapas claras. 

1. Produção de escândalos com foco institucional 

O alvo não é apenas o governo.
São as instituições que mediam a democracia:
Supremo, tribunais eleitorais, imprensa, agências reguladoras. 

Desgastar essas estruturas é pré-condição para qualquer ruptura. 

2. Deslegitimação sistemática 

Ataques permanentes ao Judiciário e ao sistema eleitoral.
Narrativa de que “tudo está aparelhado”.
Amplificação em redes e canais de desinformação. 

Objetivo:
minar confiança pública e preparar terreno para contestar derrotas ou justificar intervenções. 

Este é o ponto central do método. 

3. Personalização e moralização 

A instituição é atacada por meio de indivíduos.
Casos específicos são ampliados até parecerem prova de corrupção estrutural generalizada.
O foco deixa de ser o fato concreto e passa a ser a ideia de que nada funciona. 

4. Conversão em ativo eleitoral 

A crise vira narrativa de campanha.
O discurso antissistema unifica direita tradicional e extrema-direita.
Candidaturas locais e nacionais passam a explorar a ideia de “colapso institucional”. 

5. Preparação para contestação eleitoral 

O objetivo final não é apenas desgaste reputacional.
É estrutural: 

  • enfraquecer o tribunal que julgou o golpe; 
  • questionar decisões futuras; 
  • criar ambiente de instabilidade; 
  • legitimar eventual contestação de resultados. 

Lava Jato 1 e Lava Jato 2 

Em 2018, Lula liderava as pesquisas.
Foi preso.
Permaneceu 580 dias encarcerado.
Foi impedido de disputar, de dar entrevista, sequer de dizer quem era seu candidato. 

Hoje, Lula volta a liderar — com vantagem estreita.
O segundo colocado é o herdeiro político do bolsonarismo.
E o tribunal que condenou a tentativa de golpe volta a ser colocado sob suspeita generalizada. 

A coincidência não é casual. 

A Lava Jato 1 operou via sistema judicial e mídia.
A Lava Jato 2 também opera via desgaste institucional contínuo, campanhas digitais e amplificação política. 

O mecanismo é o mesmo:
criar clima de desconfiança estrutural para interferir no processo eleitoral. 

Toffoli e a porteira escancarada 

É impossível ignorar o papel de decisões passadas que contribuíram para o atual cenário.
Toffoli escancarou a porteira em momentos críticos, permitindo que a boiada passasse sob o berrante do caos. 

Isso não absolve campanhas de desinformação.
Mas mostra como erros institucionais são capturados e transformados em arma política. 

Ministros precisam se defender de acusações?
Sem dúvida.
Mas a instituição precisa ser protegida de campanhas que visam sua desmoralização total. 

O risco eleitoral real 

O ponto central é este:
o ataque organizado às instituições pode ser decisivo na eleição de 2026. 

Se a narrativa de colapso institucional se consolidar, três efeitos podem ocorrer: 

  1. fortalecimento do discurso antissistema; 
  2. questionamento prévio do resultado eleitoral; 
  3. deslocamento do debate para terreno de instabilidade permanente. 

A eleição deixa de ser disputa de projetos e passa a ser disputa de legitimidade. 

O problema do campo progressista 

Há um erro estratégico recorrente:
reagir apenas defensivamente. 

A extrema-direita opera com método e coordenação.
O campo progressista responde de forma fragmentada.
Subestima a guerra informacional.
Demora a construir narrativa unificada. 

Esse déficit vem desde a Lava Jato 1 e permanece na Lava Jato 2. 

Sem enfrentamento direto da campanha de deslegitimação, o terreno fica livre para a erosão institucional contínua. 

O tribunal que julgou o golpe volta à mira 

O STF precisa responder a questionamentos com transparência e rigor.
Isso é obrigação. 

Mas é igualmente necessário reconhecer que está em curso uma ofensiva política estruturada para deslegitimar o tribunal que julgou e condenou a tentativa de golpe. 

A eleição de 2026 começa sob esse signo.
Com disputa apertada.
Com ataques coordenados.
E com o risco de repetição de um roteiro já conhecido. 

A história recente mostra o que acontece quando campanhas de deslegitimação institucional não são enfrentadas a tempo. 

O método está em operação.
A pergunta é se haverá resposta à altura antes que seus efeitos se consolidem no processo eleitoral.  

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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