Maria Luiza Falcão Silva avatar

Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

176 artigos

HOME > blog

O tarifaço que cobra do próprio povo

Trump vende nacionalismo econômico, mas impõe imposto interno às empresas e consumidores americanos

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reage ao deixar o Gramado Sul da Casa Branca, em Washington, D.C., EUA, em 13 de fevereiro de 2026 (Foto: REUTERS/Kent Nishimura)

O nacionalismo econômico voltou ao centro do discurso de Donald Trump com a promessa de restaurar a grandeza industrial dos Estados Unidos. A fórmula parece simples: taxar importações, pressionar parceiros comerciais — especialmente a China — reduzir o déficit e “fazer os outros pagarem”.

Mas os números começam a desmontar a retórica.

Estudo divulgado pelo Financial Times, com base em relatório do JPMorgan Chase Institute, revela que as tarifas pagas por empresas médias americanas triplicaram em um ano, alcançando níveis 316% superiores aos verificados antes da eleição. Pesquisas do Federal Reserve de Nova York indicam que cerca de 90% do custo tarifário foi absorvido por empresas e consumidores domésticos.

Em outras palavras: o tarifaço não é um instrumento de punição externa. É um imposto interno com propaganda patriótica.

A retórica e o custo real

A narrativa central do trumpismo comercial sustenta que as tarifas seriam pagas por exportadores estrangeiros. A realidade elementar da economia diz o contrário. Tarifa é imposto cobrado na alfândega do país importador. Quem importa paga. Se o fornecedor estrangeiro não reduz integralmente seu preço — e os dados mostram que isso não ocorreu de forma significativa — o custo permanece dentro da economia americana.

O resultado é aumento de custos para empresas que dependem de insumos importados, compressão de margens, pressão inflacionária difusa e redução do poder de compra. O discurso promete soberania. A prática entrega encarecimento.

O dado mais revelador não está apenas no volume arrecadado, mas em quem absorve o choque. Grandes multinacionais possuem musculatura financeira para reorganizar cadeias produtivas, negociar contratos globais e diluir impactos. Empresas médias — muitas delas localizadas nos estados industriais que compõem a base eleitoral trumpista — não dispõem dessa flexibilidade. São essas empresas que enfrentam aumento abrupto de custos, dificuldade de repasse integral ao consumidor, adiamento de investimentos e incerteza operacional. Há aqui uma ironia política evidente: a política vendida como defesa da indústria nacional penaliza justamente os setores produtivos menos protegidos.

Déficit intacto, arrecadação crescente

É verdade que as tarifas elevaram a arrecadação federal para cerca de US$ 124 bilhões no ano fiscal. O governo apresenta esse número como evidência de força. Mas o objetivo anunciado era reduzir o déficit comercial estrutural — que permanece próximo de US$ 900 bilhões anuais.

Esse dado é devastador para a narrativa oficial. O déficit externo americano não decorre simplesmente de concorrência “desleal”. Ele está enraizado no papel do dólar como moeda de reserva internacional, na forte absorção de capitais globais, no padrão de consumo elevado e na insuficiência relativa de poupança doméstica. Tarifas não alteram esses fundamentos. Apenas encarecem o fluxo comercial.

A recente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre as tarifas, considerando-as ilegais (votação de 6 a 3), revela que o tarifaço deixou de ser apenas instrumento econômico e passou a integrar a disputa institucional. Quando política comercial se converte em arma de mobilização, a previsibilidade regulatória se deteriora. Investimento depende de estabilidade. Cadeias produtivas dependem de horizonte claro. O que se oferece, no entanto, é mais incerteza.

Tarifas como estratégia eleitoral

O ponto mais sensível talvez esteja adiante. O tarifaço já não é apenas uma política econômica controversa; tornou-se peça central da disputa eleitoral de 2026. Ele opera como símbolo. Não importa tanto sua eficácia econômica, mas sua potência retórica. Ao apresentar o mundo como arena de confronto permanente e ao transformar parceiros comerciais em inimigos estruturais, Trump reconstrói uma narrativa de cerco externo que mobiliza ressentimentos internos.

O déficit comercial vira prova de traição. A globalização vira culpada. A complexidade estrutural da economia americana é reduzida a uma história simples: “estão roubando nossos empregos”.

Essa simplificação é politicamente poderosa. Ela desloca o debate do campo estrutural — onde seria necessário discutir produtividade, inovação, qualificação, desigualdade e concentração de renda — para o terreno emocional do nacionalismo econômico. As tarifas tornam-se instrumento de campanha contínua. Cada novo anúncio reforça a imagem de liderança combativa. Cada confronto comercial alimenta a lógica do embate. O custo difuso, diluído nos preços e nas margens empresariais, não aparece em slogans.

Quando tarifas passam a ser combustível eleitoral, a economia torna-se refém do calendário político. A previsibilidade cede lugar à escalada retórica. O planejamento produtivo é substituído por gestos de impacto imediato. E o sistema econômico passa a operar sob tensão constante.

O imposto invisível de uma potência inquieta

Há algo mais profundo em curso. Quando a maior economia do mundo recorre reiteradamente ao protecionismo amplo como resposta a transformações estruturais da ordem global, isso não é sinal de força incontestável. É sinal de desconforto estratégico. É o reconhecimento implícito de que a competição tecnológica e produtiva se intensificou, de que a centralidade já não é automática, de que a hegemonia exige mais do que tarifas.

O tarifaço não resolve a transição. Ele a dramatiza. Ele transforma mudança estrutural em batalha política. Ele converte complexidade em confronto. E, sobretudo, cobra do próprio tecido econômico o preço dessa encenação.

No fim, o nacionalismo econômico apresentado como defesa do trabalhador americano pode estar operando como um imposto regressivo disfarçado de patriotismo. O custo não é pago por exportadores estrangeiros. É absorvido por empresas domésticas, por consumidores, por cadeias produtivas que precisam de estabilidade para investir e inovar.

Se a disputa de 2026 consolidar as tarifas como instrumento central de campanha, os Estados Unidos entrarão em um ciclo em que política comercial e mobilização eleitoral se confundem. E quando uma potência começa a financiar internamente a narrativa de seu próprio cerco externo, talvez estejamos observando os sintomas de uma transição histórica em que o centro já não consegue reorganizar o sistema global apenas por meio de vontade política — e passa a responder às mudanças estruturais com instrumentos que custam, sobretudo, a si mesmo.

A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos ecoa além dos tribunais e dos índices econômicos: ela altera expectativas, corrige excessos e cria um mapa de incertezas para 2026. 

No mercado cambial, a confirmação de que o tarifaço perde sustentação jurídica teve reflexo imediato, com o dólar recuando frente às principais moedas e diante de emergentes como o real — movimento que traduz a percepção de redução de pressões inflacionárias e de possível reacomodação da política monetária americana.

Mas o impacto mais profundo não está na oscilação diária do câmbio. Está no sinal político. Ao frear um instrumento amplamente utilizado como ferramenta de mobilização eleitoral, a Corte recoloca limites institucionais a uma estratégia que vinha convertendo política comercial em palanque permanente. É uma derrota para Trump.

Se as tarifas eram apresentadas como prova de força, sua invalidação judicial expõe fragilidade jurídica e improviso estratégico. E isso pesa. Pesa na confiança dos investidores, pesa nas decisões empresariais e pesa, sobretudo, na narrativa eleitoral que se pretendia construir para 2026.

O tarifaço foi vendido como defesa do trabalhador americano. Mas os dados mostram que ele funcionou, majoritariamente, como imposto interno disfarçado de patriotismo econômico. Empresas pagaram mais. Consumidores pagaram mais. O déficit permaneceu elevado.

Quando uma política econômica produz mais espetáculo do que resultado estrutural, ela pode render manchetes — mas dificilmente sustenta prosperidade. A decisão da Suprema Corte não encerra o debate sobre tarifas. Ao contrário: ela o desloca para o terreno mais incômodo — o da eficácia real das escolhas feitas.

E talvez seja esse o ponto decisivo. Se 2026 transformar a política comercial em arma central de campanha, o eleitorado será chamado a decidir não apenas sobre tarifas, mas sobre que tipo de liderança econômica deseja: a da confrontação permanente ou a da reconstrução estratégica.

Porque, no fim, moedas sobem e descem. Instituições, quando tensionadas em excesso, deixam cicatrizes mais duradouras.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados