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Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

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O trabalho como princípio educativo. Mas, que trabalho?

A divisão social do trabalho nunca foi apenas um arranjo técnico ou econômico

Para a juventude o trabalho se transformou num item de luxo (Foto: Divulgação )

Em meio à chamada Revolução Industrial 4.0, marcada pela digitalização, automação, inteligência artificial e pela plataformização da vida, a pergunta sobre o trabalho como princípio educativo torna-se ainda mais incômoda e necessária. Afinal, de que trabalho estamos falando? E, sobretudo, a serviço de qual projeto de sociedade a educação brasileira vem sendo organizada? Qual o lugar reservado às gerações futuras no mundo do trabalho?

A divisão social do trabalho nunca foi apenas um arranjo técnico ou econômico. Trata-se de um dispositivo histórico, político e cultural que define quem pensa e quem executa, quem planeja e quem obedece, quem acumula e quem sobrevive. Desde a consolidação do capitalismo industrial, a educação passou a ocupar um lugar estratégico nesse processo. À escola foi dada a tarefa de formar sujeitos adequados às necessidades do sistema produtivo. O problema é que, no capitalismo contemporâneo, essas necessidades vêm se reorganizando de forma cada vez mais excludente, instável e desumanizadora.

A precarização do trabalho vivo, intensificada pela informalidade estrutural, pelo “empreendedorismo de sobrevivência” e pelo trabalho mediado por plataformas digitais, tem produzido, entre amplos setores da juventude, uma falsa percepção, marcada pela falsa ideia de que a formação escolar e acadêmica já não são necessárias. Se o horizonte de futuro se resume a bicos, algoritmos e contratos intermitentes, para que estudar? Para que investir anos de vida em um sistema educacional que já não promete sequer o direito ao trabalho digno?

Essa percepção não nasce do acaso. Ela é resultado direto da penetração tóxica da ideologia neoliberal nas mentes e nos corpos. O neoliberalismo não apenas flexibiliza direitos; ele reorganiza subjetividades, convertendo problemas estruturais em fracassos individuais e vendendo a ilusão de autonomia onde há, na verdade, exploração. O jovem precarizado é convencido de que “não precisa da escola”, quando, na realidade, está sendo privado justamente da educação que lhe permitiria compreender criticamente sua condição histórica e social.

Os efeitos desse processo aparecem de forma contundente na redução das inscrições no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), principal porta de acesso ao ensino superior público no Brasil. Embora os números indiquem uma recuperação recente, o movimento é insuficiente para recompor o sentido social da escolarização entre parcelas expressivas da juventude. Em 2025, o total de 4.811.338 inscrições confirmadas revela mais uma estabilização frágil do que uma reversão estrutural da tendência de afastamento dos jovens do projeto educacional de longo prazo. Os dados, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão vinculado ao Ministério da Educação, ajudam a compreender como o esgarçamento do horizonte do trabalho digno também corrói o valor social da formação escolar.

Não é por acaso que o nascimento da sociologia como ciência humana está profundamente vinculado à centralidade do trabalho como categoria explicativa da vida social. Em Marx, o trabalho é fundante da condição humana, mas, sob o capitalismo, aparece alienado, explorado e fetichizado. Em Durkheim, a divisão social do trabalho surge como princípio de coesão, mas também como fonte de anomia quando rompe os laços de solidariedade, mas, acima de tudo, como forma de conservação do capital. Em Weber, o trabalho se articula à racionalização, à ética e às formas modernas de dominação. Essas matrizes teóricas não apenas interpretaram o mundo do trabalho; elas também ajudaram a estruturar projetos educacionais coerentes com determinados modelos de sociedade.

Nesse debate, é impossível ignorar que o próprio pensamento liberal reconheceu o caráter destrutivo do capitalismo. Joseph Schumpeter, um de seus principais ideólogos, cunhou a expressão “destruição criativa” para explicar o motor interno do sistema, qual seja, o capitalismo se move pela destruição permanente do antigo para a criação do falso novo. Tecnologias, empresas, profissões e formas de vida precisam ser continuamente substituídas para que o sistema siga funcionando.

O capitalismo contemporâneo radicalizou essa lógica. A destruição deixou de ser um efeito colateral da inovação para se tornar uma necessidade estrutural. A chamada obsolescência programada é sua expressão mais didática. Mercadorias são fabricadas para durar menos, forçando ciclos incessantes de consumo e descarte. O mesmo ocorre com a força de trabalho, permanentemente ameaçada de se tornar “obsoleta”, “inadequada” ou “descartável”. Aprende-se não para compreender o mundo, mas para se adaptar provisoriamente a ele, até a próxima destruição e exclusão.

Essa racionalidade destrutiva extrapola o plano econômico e se manifesta de forma brutal no plano geopolítico. Guerras, bombardeios e genocídios também fazem parte dessa lógica, ainda que o discurso liberal tente separá-los da economia política. A destruição da Faixa de Gaza é um exemplo extremo e perturbador. Cidades inteiras reduzidas a escombros, infraestrutura civil aniquilada, milhares de corpos soterrados. Tudo isso enquanto lideranças do capitalismo global naturalizam a barbárie. Quando Donald Trump afirma que Gaza poderia se transformar em um resort turístico, explicita-se, sem disfarces, a lógica da destruição criativa levada aos limites. Destruir vidas, apagar memórias e reconstruir como mercadoria sobre os escombros e os cadáveres.

O mesmo sistema que destrói cidades é aquele que destrói direitos, profissões e futuros. A divisão social do trabalho deixou de ser apenas uma questão de organização produtiva para se converter em um mecanismo radical de seleção social para poucos. A formação crítica, estabilidade e acesso ao conhecimento; para muitos, trajetórias curtas, frágeis e descartáveis são as ofertas atuais em abundância. Quando capturada por essa lógica, a educação deixa de ser emancipadora e passa a funcionar como certificadora da desigualdade.

Reafirmar o trabalho como princípio educativo, hoje, exige enfrentar essa racionalidade destrutiva. Não se trata de formar mão de obra adaptável a um mercado predatório, mas de compreender o trabalho como mediação entre humanidade, cultura, ciência e emancipação. Significa afirmar que nem pessoas, nem saberes, nem cidades são descartáveis. Sem isso, a educação corre o risco de se tornar apenas um apêndice da precarização.  E o futuro torna-se um território cada vez mais interditado para a juventude.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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