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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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Onde estão os outros poderosos civis golpistas? Filipe Martins é apenas um deles

“A vitrine de condenados ainda não exibe empresários e outros envolvidos sem farda na trama de Bolsonaro”, escreve Moisés Mendes

Filipe Martins (Foto: Artur Max/MRE)

São 29 os condenados pelo golpe como integrantes das estruturas montadas por Bolsonaro para tentar continuar no poder. Pela invasão de Brasília, são 840 já com condenações.

Sabemos os nomes de pelo menos metade dos condenados como líderes do golpe, quase todos militares. Mas não sabemos quase nada dos invasores de Brasília, porque são figuras comuns. Fátima de Tubarão e Antônio Cláudio Alves Ferreira, o homem que derrubou o relógio de Dom João VI, são os civis mais expostos como golpistas.

Mas é pior. Os brasileiros não sabem dizer os nomes de grandes golpistas civis condenados. Não saberão, por algum tempo, porque temos os manés e apenas dois civis que não usam fardas ou armas condenados entre os 29 daqueles quatro núcleos julgados pelo Supremo.

São generais, coronéis, majores e delegados da Polícia Federal, da reserva ou ativos, incluindo o tenente Jair Bolsonaro. Todos usaram ou vinham usando fardas e armas, alguns prontos para assassinar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes.

Entre os 29 condenados desses núcleos, os civis são apenas dois: Filipe Martins, ex-assessor de assuntos internacionais de Bolsonaro, condenado a 21 anos de cadeia por ter, entre outros crimes, elaborado a minuta do golpe; e Carlos Cesar Moretzsohn Rocha, presidente do Instituto Voto Legal, condenado a sete anos como autor do ‘parecer’ do PL que aponta a possibilidade de fraudes nas eleições.

Rocha estava foragido até o começo da tarde desta sexta-feira, e Martins reapareceu nas manchetes por ter usado suas redes sociais. Descumpriu uma ordem de Moraes e foi preso preventivamente.

Sabemos que Martins é aquele sujeito do gesto supremacista com os dedos, já condenado pelo crime, e de Rocha o que se sabe é o que está resumido acima. Martins, pela proximidade com o núcleo do golpe, é a figura mais importante entre os dois, até porque Rocha fez uma empreitada pontual.

E onde estão os outros civis sob investigação por crimes diversos desde muito antes da articulação do golpe em 2022? Estão impunes e soltos por aí, alguns fazendo ativismo como militantes da extrema direita. O mais notório e vistoso desses civis é Luciano Hang, o autoproclamado véio da Havan.

O empresário é personagem de três inquéritos (fake news em 2019, crimes na pandemia em 2021 e incitação contra as eleições e as instituições em 2022). Sua mais recente manifestação pública de impacto, depois de ficar dois anos afastado das redes sociais por ordem de Moraes, foi uma nota de exaltação a Pinochet, publicada em 14 de dezembro.

Outros civis patrocinadores das estruturas do golpe, de acampamentos e da mobilização do 8 de janeiro a Brasília estão impunes. Continuam impunes os chefes dos bloqueios das estradas depois da eleição de Lula. São grandes empresários da área de transporte, não são caminhoneiros avulsos.

Filipe Martins é o civil bicho raro entre os condenados. Caiu porque era da copa e da cozinha do golpe. Os outros civis com relevância no planejamento e na execução de atos golpistas agiam pelas beiradas e nas milícias digitais.

Polícia Federal, Ministério Público e Supremo fecharam até aqui o foco na sala, na copa e na cozinha, mas terão que chegar à varanda e aos cômodos dos hóspedes do comando do golpe.

Bolsonaro recebeu muitos civis acusados de golpismo no Palácio do Planalto e no Alvorada. Alguns foram apontados até pelo advogado do próprio Bolsonaro, Celso Vilardi, no julgamento no STF, no dia 9 de junho do ano passado.

O advogado divulgou um áudio, durante a defesa do chefe da organização criminosa, em que Mauro Cid fala de uma reunião de empresários com Bolsonaro, em novembro de 2022, depois da vitória de Lula.

Lá está o véio da Havan de novo. Não havia novidade na denúncia do advogado, porque a reunião foi várias vezes divulgada. Mas o fato novo era que o defensor de Bolsonaro estava perguntando: vão pegar o chefe, que já havia recuado do golpe, e vão deixar os empresários que insistiam no golpe?

O Globo já havia noticiado, em fevereiro de 2024: “Além de Luciano Hang, quem são os empresários citados em áudio de Cid por cobrarem golpe de Bolsonaro”. E aparecem, em defesa de uma “posição mais radical” em resposta ao resultado da eleição, Luciano Hang (Havan), Meyer Nigri (Tecnisa), Afrânio Barreira (Coco Bambu) e, possivelmente, segundo Cid, Sebastião Bomfim (Centauro).

Nenhum deles deixou outros rastros? Não valem os vídeos em que empresários foram filmados incitando eleitores a evitarem a posse de Lula? Por que os celulares de alguns desses personagens são indevassáveis, enquanto a devassa foi rápida e fácil nos aparelhos de outros investigados?

Até o advogado de Filipe Martins pode perguntar o que o defensor de Bolsonaro perguntou naquele dia 9 de junho: e os outros poderosos civis golpistas, onde se meteram?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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