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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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Os ossos de Bolsonaro e os burros de Milei

“Os argentinos experimentam, com um gângster extremista no poder, o que o Brasil já viveu no governo de Bolsonaro”, escreve Moisés Mendes

Jair Bolsonaro (à esq.) e Javier Milei (Foto: Reuters)

É uma crueldade, mas circula na Argentina que todos os pobres não comerão carne de burro, como vêm anunciando alguns jornais, porque não haverá burro para todos. Faltam até burros na Argentina, como faltava osso no Brasil durante o governo de Bolsonaro.

Mas comer carne de burro na Argentina não equivale a raspar osso no Brasil. Porque lá a carne de gado é também simbolicamente a expressão de superioridade e fartura de um povo em relação aos seus vizinhos.

É um drama inédito pela presença do burro — mesmo que os argentinos tenham passado fome a partir de 2001, quando a dolarização chegou ao fim. No ‘corralito’, que bloqueou o dinheiro nos bancos, eles faziam filas para sacar 250 dólares por semana.

No dia 28 de maio de 2002, antevéspera de feriado de Corpus Christi, a população cercou os bancos para tirar o que poderiam não ter mais diante. Alardeavam que, depois da quinta-feira do feriado, tudo podia acontecer, com mais bloqueios.

A Argentina teve cinco presidentes, desde a renúncia de Fernando de La Rúa, no final de 2001. É naquele momento, com o trauma da retenção dos dólares nos bancos, para evitar correrias e quebradeiras, que o argentino desenvolve a síndrome que o domina até hoje.

Não confia mais na moeda nacional e só se protege em dólares, mas com poupança em casa ou em algum lugar que só o poupador sabe. Vem daí a conta segundo a qual a Argentina tem apenas US$ 30 bilhões em reservas. Mas os argentinos guardam US$ 300 bilhões dentro de casa ou em algum esconderijo no país e fora dele.

Os ricos, claro, guardam em contas no exterior. É um dinheiro que não circula pelos bancos. Porque o argentino teme um novo corralito, que sequestre suas poupanças por mais de ano, como aconteceu em 2002.

A carne de burro oferecida como proteína alternativa, na terra dos melhores campos e dos melhores rebanhos, não é folclore. Todos os jornais noticiam que os açougues vendem filé, costela, paleta de burro.

É humilhante. Em 2002, na fila que cercava todo o quarteirão do Banco da Nación, uma mulher com um colar de bolinhas brancas, que assegurava serem pérolas, dizia: “Vocês no Brasil não passarão fome, porque vocês terão Lula”.

E passou a me contar da inveja que passava a sentir, por antecipação, dos brasileiros que naquele ano elegeriam Lula. “Todos aqui nessa fila não dizem, mas têm inveja dos brasileiros”, disse ela. 

Acompanhei esse cordão de desesperados naquela noite 28 de maio e fiquei durante uma semana em Buenos Aires, como repórter de Zero Hora. O centro histórico era tomado de protestos de idosos enfurecidos. 

Retornei depois à Argentina, no final do ano, e percorri por mais uma semana uma vasta faixa de fronteira com o Brasil e o Uruguai, desde Entre Ríos a Santo Tomé, com o fotógrafo Fernando Gomes. 

Me lembro de um delegado de polícia de Concórdia, que nos disse: não entrem nas periferias, porque serão assaltados, não por bandidos, mas por pessoas famintas.

Corremos o risco e entramos. Não sofremos nenhuma agressão, num país em que, principalmente na capital, os índices de criminalidade eram muito mais baixos do que no Brasil. Porque a sociedade argentina, diziam, era mais homogênea.

Hoje, não sei se entraria nos lugares apontados pelo delegado como perigosos e onde circulava, pelo exagero, que as pessoas comiam gatos e ratos. Havia desalento e miséria, mas não ouvimos nenhum relato semelhante aos que, comprovadamente, os jornais publicam agora sobre fome e consumo de carne de burro.

As informações são de que há muito mais fome hoje – como política deliberada, com cortes de programas sociais –, num país abandonado pelo olhar do Brasil, porque a grande imprensa ainda o considera em transição para um milagre libertário.

Os jornais brasileiros repetem, até em editoriais, que a Argentina controlou a inflação e que a recessão, o desemprego e a degradação social de crianças e idosos (que não citam) são o custo a ser pago pelo rigor fiscal e pelo desmonte do Estado. 

A Argentina que hoje come carne de burro está pior do que a que vivia da mesada do corralito. E vai perdendo as ilusões com um governo que não é apenas ultraconservador, é uma facção criminosa no poder. 

A Argentina retrocede ao que enfrentou em 2002, depois de 10 anos sob a hipnose da dolarização de Carlos Menem e Domingo Cavallo. E que começou a sair da crise com a eleição de Néstor Kirchner, em 2003.

Foram 12 anos de governos peronistas-kirchneristas, com Néstor e Cristina, e depois vieram Mauricio Macri, da nova direita pós-ditadura, e Alberto Fernández, do novo peronismo. Ambos foram desastrosos.

O argentino come carne de burro porque, ao contrário do que diziam, elegeria, sim, um fascista. Anunciado como disruptivo, mas essencialmente fascista, porque o que importava era vencer os peronistas.

Os argentinos sabiam o que Milei significava, como exaltador da ditadura e por seu total desprezo a valores fundamentais. Mas achou que nada disso tinha relevância, se ele resolvesse os fracassos de Macri e Fernández pelo milagre da guerra contra as castas.

O milagre hoje é oferecido nos açougues com a carne de burro, que um fazendeiro decidiu abater e outros decidiram seguir. Porque custa até metade do preço da carne de gado e, dizem, é suportável, se bem feita.

As promessas de extremistas milagrosos elegeram Milei e depois Jose Antonio Kast no Chile e podem eleger até Keiko, a filha de Fujimori, no Peru, enquanto no Brasil Flávio se habilita a enfrentar Lula como ungido pelo pai. Todos sustentados pela farsa do discurso antissistema.

A mulher com o colar de pérolas, que estava na fila do banco da Nación, naquele 28 de maio de 2002, antevia e expressava inveja do Brasil porque Lula seria eleito. Mas não havia como imaginar que, 16 anos depois, Lula seria preso e o Brasil elegeria Bolsonaro.

Era improvável, quase impossível e inimaginável para os argentinos, lá naquele ano de 2002, que um dia eles fossem desprezar tudo o que levavam a sério pelo horror à ditadura e que elegeriam um gângster admirador de ditadores. E que em algum momento, assim como os brasileiros que roeram ossos, iriam comer bife de burro.      

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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