Parte 04 – A guerra civil e a Revolução de 1949: o Partido Comunista Chinês chega ao poder

A Longa Marcha, guerra contra o Kuomintang, invasão japonesa, 2ª Guerra Mundial e tomada do poder pelos comunistas

Mao Tse Tung, Stalin, Lenin, Engels e Marx
Mao Tse Tung, Stalin, Lenin, Engels e Marx (Foto: reprodução)
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O Partido Comunista chinês, a guerra civil e a aliança contra os japoneses

O Partido Comunista Chinês, que teve suas sementes plantadas com o movimento 04 de Maio, foi criado na esteira da Revolução Russa, adotando o modelo marxista-leninista do Partido Comunista da URSS, inclusive se colocando sob as ordens deste, como “seção” do partido no território chinês. O primeiro grupo do partido se iniciou com cerca de 50 membros em Xangai, se espalhando por outras cidades e ganhando popularidade conforme suas idéias de defesa dos trabalhadores contrastavam com o caos da era dos senhores da guerra e do governo nacionalista. 

As ordens soviéticas, no entanto, geravam perplexibilidade aos comunistas chineses, levando muitas vezes a duras derrotas, mas eram seguidas à risca em nome da disciplina revolucionária. Esse destoar entre a realidade local e os planos da URSS se davam provavelmente ao desconhecimento da realidade em que se inseria o PCCh. 

No seu início, o partido servia de fato como um centro de estudos e informação, já que as ordens de Moscou era para que os comunistas chineses participassem do Kuomintang, apoiando o partido e suas políticas. Assim, não haviam lideranças estabelecidas, mas alguns membros já se destacavam e teriam papel muito importante no partido futuramente, como Mao Zedong (Tse Tung), Zhou Enlai e Zhu De. 

A interferência chegou a tal ponto que o Komintern soviético indicou Bo Gu e Wang Ming, estudantes de uma universidade em Moscou para liderar o partido e, quando a tomada do poder se mostrou possível, governar uma china comunista. Estas decisões geravam grande descontentamento entre os partidários chineses, que desejavam escolher seus próprios líderes, e lideranças nativas, como Mao Zedong.

Quando ocorre o expurgo e a perseguição aos comunistas pelo Kuomintang, as lideranças nativas se organizam em várias frentes para resistir aos ataques nacionalistas e iniciar um processo revolucionário de tomada do poder, desencadeando a guerra civil. Mao Tse Tung e Zhu De chegaram a tomar o poder em duas regiões e fundar sovietes (conselhos, comitês de trabalhadores), declarando a China Soviética, mas os exércitos nacionalistas sufocaram as rebeliões e os comunistas fugiram para as montanhas. 

O Kuomintang buscava não apenas prender e exterminar os comunistas, uma tarefa numericamente impossível, mas expulsá-los das cidades, para cortar seus laços com os operários chineses. Esta estratégia visava asfixiar possíveis revoluções, pois sem os operários urbanos, seria impossível os trabalhadores tomarem o poder, como se observou nas revoltas socialistas pelo mundo até então. 

Este foi um revés que mais tarde Mao conseguiu transformar em vantagem. Ao mesmo que os comunistas se reagrupavam nas montanhas e no campo, o governo central precisou submeter um levante militar organizado por frações dentro do próprio Kuomintang e, logo em seguida, estourava a 2ª Guerra Mundial, onde o Japão invadiu o território chinês da Manchúria, criando um Estado fantoche e coroando o imperador deposto Pu Yi, sem resistência por parte do presidente Chiang Kai-shek. 

Estes fatos permitiram aos comunistas se reorganizarem, ao mesmo tempo que aumentava a impopularidade do Kuomintang junto a população. No constante conflito de cerco a áreas dominadas pelo PCCh, os líderes vermelhos, principalmente Mao Tse Tung, vão formulando teorias militares de guerrilha e da importância dos camponeses em países semi-feudais para o processo revolucionário, ao contrário do que se falava da teoria marxista-leninista até então. 

Um fato importante neste período foi a Grande Marcha, onde Mao liderou uma caminhada de 12 mil km, com cerca de 100 mil pessoas, contornando os exércitos governamentais e espalhando entre os camponeses as idéias e promessas de uma sociedade socialista, distribuindo terra aos camponeses e defendendo a resistência ao Japão.

Percebendo que os japoneses não se deteriam na Manchúria, se preparando para tomar o restante do território chinês, o presidente Chiang Kai-Shek, ao ser capturado pelos comunistas em 1936, firma um cessar fogo e acordo de cooperação para enfrentar os japoneses com o próprio Mao Tse Tung, líder incontestável do Partido neste momento, para o desgosto dos soviéticos. O Japão ataca sem declaração de guerra em 1937 e se inicia a 2ª guerra Sino-Japonesa da era moderna.

O campo asfixiou a cidade: A revolução de 1949

A aliança entre o Kuomintang e o PCCh, apesar de significar uma união do povo chinês contra um inimigo em comum, foi incapaz de fazer frente ao poderio japonês e a segunda frente unida sofreu uma série de derrotas em seu próprio território. 

O Japão não conseguiu, no entanto, impor um domínio total sobre o território da China devido às tática de guerrilha desenvolvidas por Mao Tse Tung, onde pequenos grupos, seguindo a orientação de um comando central, impedia o avanço das tropas japonesas com pequenas batalhas no campo e em vilarejos. Esta situação permitiu até o ataque atômico dos EUA e o avanço dos soviéticos sobre a Manchúria, quando o Japão se rendeu, retirando suas tropas da China. 

Com o fim da 2ª Guerra Mundial, o governo dos EUA tentou mediar uma tentativa de paz entre comunistas e nacionalistas, tentando preservar a integridade do território chinês. O fracasso das negociações resultou no reinício da guerra civil, sendo que os norte-americanos optaram por apoiar o lado nacionalista com aviões e equipamento bélico. 

Em paralelo, a URSS comete mais uma traição ao PCCh reconhecendo o Kuomintang como governo legítimo de toda a China, acreditando que os comunistas seriam derrotados. Neste processo, os soviéticos permaneceram no norte chinês, na outrora região da Manchúria, onde os comunistas detinham maior parte de suas forças, até que os nacionalistas enviassem tropas para a região. 

Apesar da desvantagem em relação ao Kuomintang, o PCCh possuía a mente estratégica de Mao, que aproveitando a experiência recolhida nos anos anteriores, adotou a estratégia de se consolidar nos campos chineses em torno das cidades controladas pelo governo central. Outros pontos aproveitados por Mao foram a popularidade dos comunistas junto às populações mais pobres, que se localizavam principalmente nos vilarejos rurais, e a impopularidade do apoio dos EUA ao Kuomintang, fruto do trauma imperialista norte-americano nas décadas anteriores.

Apesar das vitórias iniciais do governo central, em pouco tempo a maré começou a virar, com as táticas de guerrilha minando a resistência nacionalista, que sofria com recorrentes problemas de desabastecimento. 

A virada ocorreu com a vitória de Lin Piao na Manchúria, onde vários soldados do exército governamental passaram para o lado comunista. A partir daí, o exército do PCCh iniciou uma grande onda de vitórias e deserções, empurrando o Kuomintang cada vez mais para o Sul, até que em dezembro de 1949, Chiang Kai-shek fugiu com o restante de seu governo para a ilha de Taiwan, abandonando o território continental chinês, esperando apoio das potências estrangeiras para retomar o governo de toda a China - apoio este que nunca chegou. 

Em Beijing, a revolução comunista vitoriosa declarava ao mundo o nascimento da República Popular da China.

Leia a parte 1, a parte 2 e a parte 3.

Leitura recomendada:

O que foi o estupro de Nanquim. Fonte: http://www.ipcdigital.com/nacional/o-estupro-de-nanquim/

Derrota do Kuomintang nas eleições de Taiwan (em 2016). Fonte: http://www.rfi.fr/pt/mundo/20160116-derrota-do-kuomintang-nas-eleicoes-de-taiwan 

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