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Mario Vitor Santos

Mario Vitor Santos é jornalista. É colunista do 247 e apresentador da TV 247. Foi ombudsman da Folha e do portal iG, secretário de Redação e diretor da Sucursal de Brasilia da Folha.

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Partido da mídia prepara campanha contra Lula batizada de "jornalismo profissional"

"Longe estão os tempos em que a Folha se orgulhava de competir com identidade própria, com seu projeto particular de jornalismo"

Presidente Lula (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

A Folha fez editorial de capa autocelebrando o aniversário de 105 anos.

Decidiu fazê-lo lembrando logo que neste mesmo ano de 2026 fazem aniversários "completos" o Globo, Estadão, G1, UOL e Valor.

Sobre o Valor, de propriedade exclusiva do Globo, a Folha registra manifestação de orgulho assumidamente subalterno: [Valor], "que esta Folha 'ajudou' a construir".

Ao juntar-se a esses veículos, a Folha denomina-os e a si mesma como "praticantes do jornalismo profissional".

Longe estão os tempos em que a Folha se orgulhava de competir com identidade própria, com seu projeto particular de jornalismo.

Agora o que impera é a brodagem, a pertença a um mesmo corpo.

Diz o editorial que este grupo tem os mesmos "princípios", "regras" e "éticas".

O editorial prefere não fazer um balanço dos 105 anos.

Este poderia suscitar autoelogios pela campanha das diretas ou pelo apoio à punição dos culpados pela tentativa de golpe contra a eleição de Lula em 2022.

Remexer a história poderia, contudo, abrir a porta para demandas por autocríticas do apoio ao golpe de 64, da cessão de veículos aos torturadores na fase mais cruel da "ditabranda" ou da participação nas farsas do "mensalão" (com Roberto Jefferson) ou da Lava-Jato (com Sergio Moro).

Melhor não.

Em vez disso, a Folha aponta para o futuro.

Opta por já se defender pelo que vai cometer na disputa eleitoral deste ano.

Diz que fará "jornalismo profissional", ou seja, que não optará entre Lula e Flávio Bolsonaro, a nova versão da "escolha difícil" já anunciada pelo Estadão em 2018.

Repele preventivamente a crítica previsível de que essa equidistância seria uma espécie de "outroladismo" ou "doisladismo", operação retórica de construção de equivalência entre opções evidentemente muito desiguais.

Ao contrário do que pode parecer, a união do partido da mídia é um recurso de socorro diante da perda progressiva do sentido da existência política e social autônoma deste grupo, mais uma vez incapaz de gestar uma opção eleitoral viável desde a debacle tucana, condenado a ser não mais do que um apêndice (inflamado e pernicioso que seja) à direita ou à esquerda.

O partido da mídia concorda programaticamente com o bolsonarismo.

Não discorda de nenhuma de suas "ideias" para a economia.

Comparte com o bolsonarismo o ódio a Lula.

Recruta seus quadros cada vez mais na extrema-direita, sonha com um bolsonarismo sem Bolsonaro e chama o lixo que produz de "jornalismo profissional".

O ímpeto irrefreável desse partido seria, sim, desaparecer, mas atrás de um bolsonarismo maquiado pela presença à sua frente de um bolsonarista como Tarcísio, seu candidato recalcado e bloqueado, talvez para sempre, à Presidência.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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