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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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Patriotismo de conveniência

Da condenação de Eduardo Bolsonaro ao desafio eleitoral de Flávio Bolsonaro

Eduardo Bolsonaro e a Primeira Turma do STF (Foto: Jessica Koscielniak/Reuters I Luiz Silveira/STF)
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A condenação de Eduardo Bolsonaro representa muito mais do que um capítulo judicial na longa crise política brasileira iniciada nos últimos anos. Trata-se de um acontecimento que atinge diretamente a identidade política construída pelo bolsonarismo e lança uma sombra sobre as pretensões eleitorais de Flávio Bolsonaro para a disputa presidencial de 2026.

A condenação não decorre de declarações políticas ou de simples manifestações de opinião. Segundo a decisão, Eduardo Bolsonaro foi responsabilizado por atuar junto a autoridades e setores políticos dos Estados Unidos para pressionar o Supremo Tribunal Federal e outras instituições brasileiras durante o julgamento da tentativa de golpe de Estado que culminou na condenação de Jair Bolsonaro. 

A Justiça entendeu que essa atuação configurou coação no curso do processo ao buscar constranger magistrados por meio de pressões externas, incluindo a defesa de sanções contra autoridades brasileiras e o apoio a medidas econômicas capazes de atingir o país. A decisão transformou um debate que parecia apenas político em uma discussão sobre soberania nacional e sobre os limites da atuação de agentes públicos brasileiros junto a governos estrangeiros.

Pela primeira vez, um integrante da família que transformou “o patriotismo” em sua principal bandeira política foi condenado sob a acusação de atuar junto a autoridades estrangeiras para pressionar instituições brasileiras. Mais do que as consequências jurídicas do caso, o episódio recoloca em debate uma questão fundamental: o que significa, afinal, defender os interesses nacionais?

A pergunta é particularmente relevante porque o bolsonarismo construiu sua trajetória política apresentando-se como o movimento que resgataria o amor à pátria, os símbolos nacionais e os valores supostamente abandonados pelos governos anteriores. Durante anos, a bandeira brasileira, as cores verde e amarela e o discurso nacionalista tornaram-se marcas registradas do movimento.

Entretanto, os fatos recentes sugerem uma contradição difícil de ignorar.

Quando o adversário passa a ser o próprio país

Segundo as acusações que resultaram na condenação de Eduardo Bolsonaro, o deputado teria buscado mobilizar autoridades e setores políticos norte-americanos para pressionar o Supremo Tribunal Federal e influenciar processos relacionados à tentativa de golpe de Estado e à condenação de Jair Bolsonaro.

Independentemente das posições partidárias de cada cidadão, a acusação apresenta um problema político evidente. Ela sugere que disputas internas brasileiras passaram a ser levadas para o exterior na expectativa de que governos estrangeiros exercessem pressão sobre instituições nacionais.

Historicamente, divergências políticas fazem parte da democracia. Governos são criticados, combatidos e eventualmente derrotados nas urnas. O que chama atenção neste caso é a utilização de atores externos como instrumento de pressão sobre o próprio Estado brasileiro.

A questão torna-se ainda mais delicada quando essas pressões assumem a forma de ameaças econômicas, sanções ou medidas comerciais capazes de afetar diretamente o país.

Nesse momento, a disputa deixa de atingir apenas o governo de ocasião e passa a atingir o Brasil.

O tarifaço e a lógica do quanto pior, melhor

A discussão sobre os tarifaços contra produtos brasileiros ilustra essa contradição.

Em qualquer economia do mundo, tarifas adicionais impostas por grandes parceiros comerciais representam ameaça ao emprego, à produção, às exportações e aos investimentos. Não prejudicam apenas governos. Afetam empresas, trabalhadores, produtores rurais, cadeias produtivas e regiões inteiras que dependem do comércio exterior.

Seria razoável imaginar que qualquer liderança política comprometida com os interesses nacionais reagisse com preocupação diante de medidas dessa natureza.

O que se viu, porém, foi algo diferente. Setores do bolsonarismo passaram a tratar essas pressões com relativa naturalidade, quando não com entusiasmo explícito. A lógica implícita parece simples: se o governo Lula sofrer desgaste político, o prejuízo seria aceitável.

Mas essa lógica contém um problema fundamental. Tarifas não atingem presidentes da República. Atingem trabalhadores. Sanções não recaem sobre partidos políticos. Recaem sobre empresas e setores produtivos. Prejuízos econômicos não são suportados por governos. São suportados pela população.

Quando o enfraquecimento do país passa a ser considerado um instrumento legítimo de disputa política, a fronteira entre oposição e antipatriotismo começa a ficar perigosamente tênue.

O patriotismo como espetáculo

Talvez a maior ironia de toda essa história seja que o bolsonarismo construiu sua identidade política justamente em torno da ideia de patriotismo.

Durante anos, seus líderes apresentaram-se como os verdadeiros defensores da pátria. Quem discordava de suas posições era frequentemente acusado de agir contra o Brasil. A apropriação dos símbolos nacionais tornou-se tão intensa que, em muitos momentos, parecia existir uma tentativa de monopólio sobre a própria ideia de patriotismo.

Mas os acontecimentos recentes sugerem uma distinção importante entre patriotismo e nacionalismo performático.

O patriotismo autêntico manifesta-se na defesa concreta dos interesses nacionais. Ele aparece na proteção dos empregos brasileiros, da soberania econômica, das instituições democráticas e da capacidade de decisão do povo brasileiro.

Já o patriotismo performático preocupa-se mais com os símbolos do que com as consequências práticas.

A bandeira está presente.

O discurso inflamado continua existindo.

Mas a defesa efetiva dos interesses nacionais torna-se secundária quando entra em conflito com objetivos partidários ou familiares. A condenação de Eduardo Bolsonaro expõe precisamente essa contradição.

O problema de Flávio Bolsonaro

O episódio também produz efeitos que ultrapassam a situação individual de Eduardo Bolsonaro.

Caso Flávio Bolsonaro (PL) consolide sua candidatura à Presidência da República em 2026, inevitavelmente terá de responder a uma pergunta desconfortável: qual é sua posição diante da estratégia adotada por seu irmão?

Não se trata apenas de uma questão familiar.

Trata-se de uma questão política.

Flávio tentará apresentar-se como herdeiro do legado bolsonarista, defensor da soberania nacional e representante dos valores patrióticos que marcaram a trajetória política de seu pai. Contudo, a condenação de Eduardo e as acusações envolvendo articulações internacionais contra instituições brasileiras criam um problema de coerência para essa narrativa.

A dificuldade para Flávio Bolsonaro é que a condenação de Eduardo não pode ser facilmente apresentada como um episódio isolado. Ela decorre justamente de uma estratégia política adotada pelo núcleo mais próximo da família Bolsonaro: buscar apoio externo para enfrentar instituições brasileiras e pressionar decisões tomadas dentro do país. 

Ainda que Flávio não tenha participado diretamente dos fatos que levaram à condenação do irmão, será inevitavelmente confrontado com a pergunta sobre até que ponto concorda ou discorda desse método espúrio de atuação política.

O eleitorado poderá aceitar divergências sobre economia, segurança pública, costumes ou política externa. O que pode ser mais difícil de aceitar é a percepção de que interesses nacionais foram colocados em segundo plano em função de objetivos políticos e/ou familiares específicos.

Isso é particularmente sensível porque o Brasil vive um momento em que soberania, desenvolvimento econômico e inserção internacional voltaram ao centro do debate público.

A candidatura de Flávio Bolsonaro poderá descobrir que existe uma diferença importante entre mobilizar uma base militante e convencer uma maioria nacional. E essa diferença passa justamente pela capacidade de demonstrar compromisso inequívoco com os interesses do país.

O Brasil acima das famílias políticas

A condenação de Eduardo Bolsonaro não encerra o debate. Na verdade, ela apenas inaugura uma discussão mais ampla sobre os limites da ação política em uma democracia.

Governos passam.

Presidentes passam.

Partidos passam.

Famílias políticas também passam.

O Brasil permanece.

É por isso que a questão central levantada por este episódio não é apenas jurídica. É uma questão política, ética e histórica.

Até que ponto uma liderança pode ir na defesa de seus interesses sem comprometer os interesses nacionais?

Não se trata apenas de procurar apoio internacional. Lula, Fernando Henrique, Dilma Rousseff e diversos líderes brasileiros buscaram apoio e interlocução internacional ao longo de suas carreiras. O ponto controverso é outro: a acusação de que Eduardo buscou apoio externo para pressionar instituições brasileiras e estimular medidas potencialmente prejudiciais ao país durante um processo judicial em andamento

Uma coisa é procurar apoio político no exterior. Outra, muito diferente, é procurar no exterior instrumentos de pressão contra o próprio Brasil.

Ao aproximar-se das eleições de 2026, o país será chamado a responder não apenas quem deseja governar o Brasil, mas também que tipo de patriotismo considera legítimo. A História costuma ser implacável com aqueles que confundem amor à pátria com lealdade a um líder, a uma família ou a um projeto de poder.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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